Amanhã – Brasil dividido, até quando? Assista!

Amanhã é um espelho incômodo e necessário. Um filme que fala sobre comunidade, pertencimento e a urgência de romper muros — físicos e mentais.
POR JOANNE MOTA
No documentário Amanhã, dirigido por Marcos Pimentel, uma imagem resume o país: a Barragem Santa Lúcia, em Belo Horizonte, dividindo um conjunto de favelas de um bairro de classe média alta. De um lado e de outro, crianças que, em 2002, viviam a poucos metros de distância — mas separadas por um abismo social. Vinte anos depois, o reencontro expõe o que o Brasil fez — ou deixou de fazer — com aquelas vidas.
Exibido em festivais como o É Tudo Verdade, o CineOP e o CineBH, o filme acompanha as trajetórias de Júlia, Cristian e Tomaz entre 2002 e 2022 — período em que o país foi “virado pelo avesso”, como sugere a própria proposta da obra. Mas o que muda quando o Brasil muda? E o que permanece estruturalmente intacto?


A barragem não é apenas cenário. Ela é uma metáfora viva. Como escreveu o geógrafo Milton Santos em Por uma Outra Globalização (2000), o espaço urbano revela “a materialização das desigualdades”. Em o Amanhã, essa materialização tem concreto, água e muros invisíveis. A câmera de Pimentel percorre os dois lados e revela que o país não está dividido — ele sempre foi. O que existe não é polarização recente, mas uma desigualdade histórica que condiciona destinos desde a infância.
Cristian e Júlia, mesmo atravessados por vulnerabilidades, exclusões e a dureza da vida nas periferias, mantêm algo que o sistema insiste em tentar arrancar: o sorriso. Há uma dignidade silenciosa, uma vontade contida de transformar suas vidas na forma como seguem. A exclusão social aparece não como estatística, mas como rotina: moradia precária, insegurança, ausência de oportunidades. Ainda assim, o filme não os reduz à carência. Mostra afeto, família, amor e esperança.
Tomaz, por sua vez, representa outro lado dessa história. Em 2022, opta por não participar do reencontro, alegando questões políticas e o ambiente polarizado. Seu silêncio ecoa como uma escolha. E o filme sugere, com delicadeza e firmeza, que o silêncio também tem lado. A ausência dele torna-se presença simbólica: há quem possa se dar ao luxo de se afastar do debate, enquanto outros não têm essa opção.


Amanhã também toca em políticas públicas, como o programa Minha Casa Minha Vida, reconhecendo sua importância na promoção de moradia e dignidade. No entanto, os próprios personagens revelam tensões: mesmo quando a política busca melhorar a vida das famílias, muitas vezes é implementada de cima para baixo, sem escutar trajetórias, memórias e vínculos construídos ao longo dos anos nos territórios das diferentes populações. A regularização e a moradia popular surgem como conquistas, mas também como processos marcados por contradições.
O documentário não oferece respostas fáceis. Ele observa. Escuta. Convida. Mostra que a desigualdade não é apenas econômica — é simbólica, afetiva e política. A barragem separa classes, mas também impede trocas, reconhecimento e o entendimento de que, dos dois lados, vivem seres humanos iguais, condicionados por estruturas que insistem em classificá-los como superiores ou inferiores.
Em um Brasil ainda marcado pela exclusão e pela vulnerabilidade das periferias, Amanhã é um espelho incômodo e necessário. Fala sobre comunidade, pertencimento e a urgência de romper muros — físicos e mentais. É um filme sobre encontros e desencontros, mas sobretudo sobre esperança.

Em tempos de muros visíveis e invisíveis, Amanhã é mais do que um documentário — é um convite ao reencontro com o país real. Ao assistir, não estamos apenas acompanhando a história de Júlia, Cristian e Tomaz; estamos encarando o Brasil que formou cada um de nós, com suas desigualdades, silêncios e resistências.
O filme está disponível na Fatoflix. Vale dar o play, refletir e compartilhar. Porque compreender essas trajetórias é também um passo para transformar o abismo em ponte. Assista Amanhã na Fatoflix e permita-se atravessar essa barragem.

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
