A Braskem passou por aqui: filme escancara acidente em Maceió e impactos para gerações
É crucial ressaltar e advertir que estamos diante de um dos mais graves crimes socioambientais na história do Brasil e do mundo, transformado em ganho financeiro no setor imobiliário.
POR JOANNE MOTA
O documentário ‘A Braskem Passou Por Aqui: A Catástrofe de Maceió‘, dirigido por Carlos Pronzato, faz as duas coisas e ainda exige algo mais do espectador: que ele tome posição. Não é apenas um filme sobre um desastre ambiental. É um retrato contundente de como o poder econômico pode reconfigurar cidades inteiras, apagar histórias de vida e transformar comunidades em estatísticas, enquanto segue acumulando lucros.

Carlos Pronzato, cineasta que há décadas faz do audiovisual uma ferramenta de memória e luta popular, conduz a narrativa sem recorrer ao espetáculo da tragédia. Seu olhar permanece onde realmente importa: nas pessoas. São os moradores expulsos de suas casas, os líderes comunitários, os cientistas, os militantes e as vítimas que conduzem a história. O filme devolve voz justamente àqueles que quase sempre aparecem apenas como notas de rodapé quando grandes empresas controlam a narrativa pública.
O documentário revela que a destruição de bairros inteiros em Maceió não foi resultado de um acidente inevitável. Foi consequência de décadas de exploração predatória das minas de sal-gema pela Braskem, realizada sob sucessivos governos que permitiram, fiscalizaram pouco ou simplesmente fecharam os olhos para um processo que hoje é reconhecido como um dos maiores desastres socioambientais urbanos em andamento no planeta. A terra afundou, mas antes dela afundaram os mecanismos de controle do Estado.
O aspecto mais devastador, porém, não aparece apenas nas rachaduras dos prédios ou nas crateras subterrâneas. Está naquilo que não se mede por satélite: o desaparecimento das relações de vizinhança, das lembranças de infância, dos pequenos comércios, das igrejas, das escolas e dos afetos que fazem um bairro existir. O filme compreende que uma cidade não é formada apenas por ruas e imóveis. Ela é feita de pessoas, de vínculos e de pertencimento. Quando isso é destruído, nenhuma indenização consegue reconstruir completamente.

Há uma dimensão profundamente brasileira nessa história. Maceió poderia ser apenas um caso isolado, mas o documentário demonstra que ela representa um padrão recorrente de desenvolvimento baseado na extração intensiva de riquezas, na captura das instituições públicas pelo poder privado e na socialização dos prejuízos. Enquanto poucos concentram ganhos bilionários, milhares de trabalhadores e famílias carregam, por décadas, o peso das perdas.
Pronzato também evidencia como grandes corporações conseguem construir verdadeiros governos paralelos. Não se trata apenas da força econômica, mas da capacidade de influenciar decisões políticas, moldar acordos institucionais e transformar o interesse privado em política pública. O resultado é perverso: comunidades inteiras acabam negociando sua sobrevivência em condições profundamente desiguais, enquanto a empresa preserva seus ativos e seu futuro financeiro.
Mesmo diante desse cenário, o documentário não se rende ao desalento. Sua maior força está justamente na resistência coletiva. As associações de moradores, os movimentos sociais, pesquisadores e lideranças populares mostram que a organização comunitária continua sendo a principal barreira contra o apagamento da memória e contra a naturalização da injustiça. Quando tudo parece perdido, permanece a capacidade humana de se unir para exigir verdade, reparação e dignidade.
Esse talvez seja o maior mérito da obra. Ela recusa a lógica que transforma vítimas em números. Cada depoimento recupera um pedaço da cidade soterrada, lembrando que aqueles bairros não eram apenas áreas urbanas valorizadas. Eram lugares onde pessoas construíram famílias, trabalharam, criaram filhos e imaginaram o futuro. O documentário faz o espectador compreender que perder uma casa é também perder parte da própria identidade.
Num país marcado por sucessivos crimes ambientais, rompimentos de barragens, contaminações e remoções forçadas, A Braskem Passou Por Aqui dialoga diretamente com o Brasil contemporâneo. O filme nos lembra que desenvolvimento sem responsabilidade social produz territórios sacrificados, e que justiça ambiental é, antes de tudo, justiça para quem vive, trabalha e constrói sua história nesses lugares. A pergunta que permanece não é apenas sobre Maceió, mas sobre quantas outras cidades convivem silenciosamente com riscos semelhantes.

Ao final, fica a sensação de que Carlos Pronzato realizou mais do que um documentário: construiu um arquivo vivo contra o esquecimento. Em tempos em que grandes interesses econômicos disputam até mesmo o direito de contar a história, seu filme reafirma que memória também é uma forma de resistência. Assisti-lo é reconhecer que nenhuma comunidade deve desaparecer em silêncio, e que a reconstrução de um país mais justo começa quando decidimos ouvir aqueles que insistem em permanecer de pé, mesmo depois que o chão lhes foi arrancado.

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
