Mais que cinema, Adeus Estrada de Tijolos Amarelos é um reencontro com a identidade

Mais que cinema, Adeus Estrada de Tijolos Amarelos é um reencontro com a identidade

Entre a frieza do telemarketing e o brilho do celular, Hiran Matheus nos conduz por uma jornada de resistência LGBTQIAPN+ que troca as ilusões de “Oz” pela potência do encontro real.

POR JOANNE MOTA

Às vezes, a verdadeira coragem não está em seguir a estrada dourada, mas em ter a ousadia de olhar para o lado e descobrir que o brilho do mundo cabe na palma da nossa mão.

Sentar para conversar sobre o curta “Adeus Estrada de Tijolos Amarelos”, de Hiran Matheus, é, antes de tudo, falar sobre a urgência de simplificar o olhar para enxergar o que é essencial. O filme nos apresenta Ícaro, um jovem que, como tantos outros “retirantes” da contemporaneidade, deixa sua origem para enfrentar a selva de concreto da cidade grande. Ele chega com o peso da sobrevivência nas costas, buscando no telemarketing o sustento que o asfalto raramente oferece de braços abertos, mas acaba encontrando no encontro afetivo a faísca que subverte a dureza do cotidiano.

A obra é um sopro de humanidade que nos lembra que a tecnologia, quando democratizada, torna-se uma ferramenta de libertação. Ao escolher o smartphone como pincel para pintar essa história, Hiran Matheus não apenas resolvem uma questão orçamentária, eles fazem política. Eles nos provam que o cinema não precisa de templos de ouro para existir; ele pulsa onde há vida e desejo de dizer algo. É uma estética que dialoga diretamente com a nossa realidade brasileira, onde a criatividade muitas vezes floresce no solo árido da escassez.

O filme nos mostra que, mesmo em meio à frieza de uma metrópole que nos quer apenas como operadores de sistemas, o encontro entre dois corpos, o brilho de um olhar noturno e o afeto LGBTQIAPN+ são atos de insurreição contra a desumanização planejada.

A conexão com o clássico “O Mágico de Oz” e a canção de Elton John traz uma camada de melancolia lúdica que serve como um espelho para a decepção amorosa com o progresso prometido. A “estrada de tijolos amarelos” da cidade grande, que prometia sucesso e brilho, muitas vezes se revela um caminho solitário e cinzento. O filme nos convida a questionar: onde está nossa verdadeira Oz? Talvez o retorno ao lugar de origem, sugerido pela letra inspiradora, seja menos um movimento geográfico e mais um retorno ao que nos faz sentir humanos e pertencentes a algo maior.

O curta transborda esse “sentir” de forma tátil. A câmera do celular, com sua proximidade quase indiscreta, nos coloca dentro do peito de Ícaro. Sentimos o cansaço do trabalho mecânico e o sobressalto do coração quando ele encontra o outro rapaz. É um cinema de vizinhança, que olha nos olhos e não tem medo da imperfeição. Essa escolha estética potencializa a mensagem social de que as nossas histórias, as histórias das periferias e das minorias, merecem ser contadas com as ferramentas que temos à mão.

Falar de resistência coletiva aqui é também falar de como esse filme nasceu. O financiamento coletivo e o esforço universitário mostram que o fazer cinematográfico no Brasil é uma construção de muitas mãos. Quando a comunidade se une para colocar um projeto desse no mundo, ela está dizendo que a cultura é um bem comum, um prato que todos devem partilhar. Esse espírito de colaboração transborda da produção para a tela, criando uma obra que é, em sua essência, um abraço coletivo em tempos de isolamento.

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A trajetória de Ícaro reflete os desafios de uma geração que precisa equilibrar o boleto pago com o direito ao sonho. O telemarketing, essa metáfora perfeita da voz que fala mas não é ouvida, é confrontado pela imagem potente do smartphone que agora filma e grita a própria existência. É a subversão da ferramenta: o aparelho que serve para a exploração do trabalho de Ícaro é o mesmo que o diretor usa para imortalizar a sua sensibilidade. Há uma beleza poética e ferina nessa ironia técnica e social.

A obra circula o mundo, de Niterói à Escócia, levando um pedaço da nossa alma brasileira que é feita de gambiarra e poesia. É fascinante perceber como uma história tão íntima e realizada com recursos tão diretos consegue tocar festivais internacionais. Isso acontece porque a busca pela felicidade e a dor do desencontro são idiomas universais, mas o sotaque de Hiran é profundamente nosso, enraizado na disposição de fazer muito com quase nada, transformando o pouco em um banquete de significados.

Ao final dos 19 minutos, o que fica não é apenas a técnica de iluminação inovadora ou o uso inteligente do dispositivo móvel. O que permanece é o eco de um adeus necessário a ilusões colonizadoras de sucesso. O filme nos encoraja a abandonar as estradas de tijolos amarelos que não nos levam a lugar nenhum e a construir nossas próprias trilhas, mais humanas, mais próximas da terra e dos afetos reais. É um convite para descer do pedestal e pisar no chão, onde a vida realmente acontece.

Saio de mais uma sessão na Fatoflix com a sensação de que o cinema brasileiro respira bem quando se permite ser pequeno no formato para se tornar gigante na alma. “Adeus Estrada de Tijolos Amarelos” é uma prova de que a nossa identidade se fortalece quando deixamos de olhar para o horizonte distante e passamos a valorizar o brilho que emana de quem está ao nosso lado. Como em uma boa conversa de mesa de bar, o filme nos deixa inquietos, mas devidamente alimentados de esperança e resistência.

Assista! Vai lá na Fatoflix!

Bom filme e até semana que vem!

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