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Adeus ao Pinóquio da Disney?

Adeus ao Pinóquio da Disney?

Foi-se definitivamente o outro mundo, o de antes da pandemia do coronavírus, com o adeus a muitos dos aspectos da vida na face desse planeta. Com esse mundo em extinção foi sugado também o universo do cinema no modelo como foi projetado, produzido e apresentado ao público até os idos de 2019. O personagem do Pinóquio como o italiano Carlo Collodio o concebeu, em 1883, seguiu o mesmo caminho e, em 1940 a Walt Disney Company o desenhou com a lavagem de um pós guerra conservador.

A famosa fábula infantil Pinocchio sempre trouxe as aventuras do boneco esculpido a partir do tronco de uma árvore pelo marceneiro Gepeto o qual ganha o mundo da magia ganhando também vida própria ao se tornar um menino de verdade. Mas o mundo da magia deu lugar ao universo incômodo da hiper realidade atual e da fronteira das distopias, e o desenho do acomodado Pinóquio mentiroso, porém obediente ao pai, seguiu um destino mais complexo pelas mãos de dois mestres da arte cinematográfica.

O italiano Matteo Garrone pintou a fábula com cores frias e em tons pastéis, no filme de 2019 que sucedeu aos seus excelentes Gomorra e a Dogman. E o cineasta mexicano Guillermo del Toro, em dupla com Mark Gustafson na direção,  restaurou as cores vivas da narrativa visual desse Pinóquio ora em cartaz* criado em espetacular e sofisticado stop motion, mas se mantendo igualmente sombrio ao se apropriar da luta contra os movimentos neofascistas que pipocam mais uma vez pelo mundo e usando o símbolo de Mussolini como vilão.

Del Toro transfere o clássico de Carlo Collodi para a Itália da Segunda Guerra Mundial. O Pinóquio ‘antifa‘ de hoje é o antifascista revolucionário, que luta e se rebela  contra o podestá  (os prefeitos ditadores da época fascista) e confronta o lúgubre dístico espalhado pelos muros das cidades: Acreditar, Obedecer, Combater. Em ambos os filmes, o do diretor romano e nesse, do cineasta do México, o menino (o homem) Pinóquio quer ser livre.

O resultado desse Pinóquio revisitado no roteiro de Del Toro e do escritor Patrick McHale é assustador no deslumbramento visual do artificial. Mas nada a ver com o clássico da Disney no qual a moral é a mentira gerando consequências negativas; e pouco a ver com o clássico de Collodio.

Na sua pequenez de inseto é o grilo falante que continua sendo a consciência e a voz da razão e da racionalidade nessa nova fantasia de Pinóquio, o homem hoje disputado pela religião impositiva, pelo ultra capitalismo e pela política neofascista. O recado final do filme é este: vamos olhar para a frente.

”Deixar a vida nos levar tentando abrirmo-nos para um novo futuro”. O que não deixa de ser um outro modo de apresentar a mesma  ingenuidade amena dos desenhos animados do passado.

*Na Netflix.

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