Domésticas: Um documentário sobre uma dívida de 136 anos

São cerca de 10 milhões de mulheres que fazem o Brasil funcionar todo dia — e que o Brasil ainda não aprendeu a olhar nos olhos. Domésticas é um filme curto sobre uma dívida enorme.
POR JOANNE MOTA
O Brasil tem o talento cruel de tornar invisível aquilo que sustenta a sua própria casa. Antes mesmo do sol raiar, Marilisa já está de pé, arrumando o café, olhando para os filhos que ainda dormem e saindo porta afora para cuidar da casa de outra pessoa. Djanira faz o mesmo há 54 anos — arruma, limpa, lava, cozinha — numa casa que nunca vai ser dela. Creuza aprendeu desde criança que trabalhar não era escolha, era destino. E é com essas três histórias que o curta-metragem Domésticas, dirigido por Felipe Diniz e produzido pela ONG Themis em parceria com a ONU Mulheres e o Fundo ELAS, decide olhar de frente para o que o país insiste em não ver.


O documentário, com apenas 15 minutos, foi lançado em 2016 no Cine Bancários, em Porto Alegre, numa sessão gratuita seguida de debate com realizadores e protagonistas. Curto no tempo, fundo na alma. Em menos de um quarto de hora, o filme consegue o que décadas de política pública não conseguiram com a mesma eficiência: fazer com que o espectador sinta o peso de uma rotina que não é a sua, mas que carrega o mundo de todo mundo. E faz isso num momento histórico preciso — quando o país acabava de aprovar dois marcos legais que, juntos, tentavam reparar uma dívida antiga.
A PEC das Domésticas, formalizada pela Emenda Constitucional 72 em 2013 e regulamentada pela Lei Complementar 150 em 2015 – no governo Dilma Rousseff -, garantiu pela primeira vez na história o que parecia óbvio e demorou mais de um século para acontecer: jornada de oito horas diárias, FGTS obrigatório, hora extra, adicional noturno, seguro-desemprego. A lei também estabeleceu que quem trabalha mais de dois dias por semana na mesma casa tem direito à carteira assinada. Parece pouco. É, na verdade, uma revolução — uma revolução que o Domésticas chega para testemunhar, contextualizar e humanizar, porque números em diário oficial não têm rosto, e Marilisa, Djanira e Creuza têm.

Felipe Diniz, cineasta gaúcho com sólida trajetória no documentário social, conduz a narrativa com câmera próxima e olhar respeitoso. A direção de fotografia de Bruno Polidoro acompanha as mulheres no seu cotidiano sem glamourizar a pobreza nem cair no pietismo fácil. Há uma dignidade visual no filme que combina com a dignidade das retratadas. A montagem de Bruno Carboni costura as três histórias de forma que elas se completam, como capítulos de um mesmo livro escrito por milhões de mãos — mãos que o Brasil sempre soube usar, mas nunca soube reconhecer.
São aproximadamente 6 milhões essas mãos, segundo dados do Ministério do Trabalho referentes a 2023 e 2025. Mais de 90% são mulheres — 91% a 92%, para ser exata —, a maioria negra ou parda, muitas com ensino médio completo, e cerca de 64,5% recebendo menos de um salário mínimo. Mas o dado que mais dói é outro: 75% dessa força de trabalho ainda atua sem carteira assinada. E pior — as vagas formalizadas não pararam de cair. Entre 2015 e 2024, o número de trabalhadoras com registro em carteira recuou 18%, chegando a apenas 1,34 milhão em 2024. Ou seja: a lei avançou, e a informalidade também. O filme não precisa narrar esses números em off — eles habitam cada cena, cada olhar cansado, cada trajeto de madrugada no transporte público.
Porque o problema nunca foi só a ausência de lei. Foi a presença de uma cultura que sempre tratou o trabalho doméstico como favor, obrigação natural ou, pior, prolongamento silencioso de uma servidão violenta que teoricamente acabou em 1888. Falar em direitos para as domésticas é, portanto, falar em reparação. É nomear uma espiral de violência que a escravidão inaugurou e que o tempo, sozinho, não teve força de romper. Garantir FGTS, jornada regulada e seguro-desemprego para essas mulheres não é burocracia trabalhista — é um ato político de recusa a essa herança.
A presença de Creuza Maria Oliveira, presidenta da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, empresta ao documentário uma dimensão política sem abrir mão do humano. Creuza não é só uma voz do movimento — ela é a prova viva de que a consciência nasce da experiência. Cresceu trabalhando, sentiu na pele a injustiça, e foi exatamente essa injustiça que a colocou na linha de frente da luta. Como diria Carolina Maria de Jesus, escritora e também trabalhadora que conheceu de perto essa invisibilidade: “Quando estou na favela, tenho a impressão que sou um objeto fora do lugar.” Creuza decidiu encontrar o lugar — e lutar para que ele existisse de verdade, com FGTS, com férias, com dignidade escrita em contrato.
A Themis, organização que há décadas atua na intersecção entre gênero, justiça e direitos humanos, começou a focar nas empregadas domésticas em 2013, percorrendo o país com oficinas para fortalecer as redes da categoria. O documentário nasceu como um dos produtos desse trabalho — quase uma prestação de contas poética com as mulheres que participaram do processo. Michele Savicki, coordenadora de projetos da Themis, resume bem a intenção: mostrar o dia a dia delas, um relato de vida, e provocar debate sobre quem são essas pessoas e quais direitos lhes foram — e ainda são — negados. Não por acaso, não por descuido. Por um projeto histórico de subalternização que tem cor, tem gênero e tem nome.
Drummond escreveu que “no meio do caminho tinha uma pedra” — e a repetição do verso é exatamente o ponto: a pedra que volta, o obstáculo que insiste, a injustiça que se renova. Marilisa, Djanira e Creuza conhecem esse poema de cor, mesmo sem nunca tê-lo lido. Elas vivem a repetição. Mas vivem também a resistência. E é aí que o filme encontra sua força maior: não no lamento, mas na teimosia de seguir em frente, de organizar, de exigir, de aparecer. De se recusar a continuar sendo invisível. A trilha sonora de Maurício Nader e o som cuidado por Gabriela Bervian sustentam esse espírito — intimidade sem condescendência, atenção sem voyeurismo.
Domésticas é um documentário pequeno no formato e imenso na necessidade. Num país que ainda precisa aprender a olhar para quem faz sua cama, lava seu prato e cuida dos seus filhos — e que agora, finalmente, tem lei para amparar esse olhar, mesmo que a lei ainda não chegue para três em cada quatro trabalhadoras —, 15 minutos podem ser o começo de uma conversa que deveria ter começado há muito mais tempo. Disponível no canal da Themis, o curta merece ser exibido em escolas, sindicatos, centros comunitários e telas de celular. Porque a luta de Marilisa, Djanira e Creuza não é delas sozinhas. É a luta de um país que ainda não terminou de se reparar.
Assista. Compartilhe. Exija. O curta Domésticas está disponível gratuitamente plataforma Fatoflix. São 15 minutos que podem mudar a forma como você enxerga quem divide o seu espaço todos os dias — mesmo que você nunca tenha percebido.
Bom filme!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
