Entre Rios mostra como São Paulo cedeu ao modelo colonizador

Entre Rios mostra como São Paulo cedeu ao modelo colonizador

O grande mérito da obra é mostrar que a natureza não desapareceu: ela foi escondida. Os rios canalizados, os córregos enterrados e as margens ocupadas por avenidas.

POR JOANNE MOTA

“Olhar para os rios de São Paulo é constatar que ela virou de costas para sua riqueza e cedeu ao olhar do colonizador”. Entre Rios, dirigido por Caio Silva Ferraz, os ensina exatamente isso. Ao contar a história de São Paulo pela perspectiva de seus rios, o filme desmonta a falsa ideia de que a cidade sempre foi feita de concreto e avenidas. Aos poucos, revela que sob o asfalto existe uma memória viva, soterrada, esperando apenas uma chuva mais forte para lembrar que nunca deixou de existir.

O grande mérito da obra é mostrar que a natureza não desapareceu: ela foi escondida. Os rios canalizados, os córregos enterrados e as margens ocupadas por avenidas não são fruto de uma evolução inevitável, mas de escolhas políticas, econômicas e culturais. A cidade foi moldada para servir a um projeto de desenvolvimento que tratou a água como obstáculo, quando ela sempre foi condição para a própria existência humana.

Nesse sentido, o documentário desmonta um dos mitos mais persistentes sobre as enchentes paulistanas. Elas não são um castigo da natureza nem um fenômeno isolado das mudanças climáticas. Em grande medida, são uma invenção da urbanização que ignorou o funcionamento dos rios, impermeabilizou o solo e eliminou áreas de absorção. Quando a água retorna ao seu caminho original, é a cidade que estranha aquilo que ela mesma tentou apagar.

Existe uma imagem poderosa que atravessa todo o filme: o espaço das águas sendo substituído pelo espaço dos carros. Onde antes havia várzeas capazes de respirar junto com os ciclos naturais, surgiram pistas expressas, estacionamentos e corredores de velocidade. O automóvel ganhou prioridade absoluta, enquanto os rios foram empurrados para galerias subterrâneas como se fossem um problema técnico, e não parte essencial da vida urbana.

Essa lógica de ocupação revela muito sobre o modelo de desenvolvimento adotado ao longo do século XX. A sede por crescer rapidamente queimou etapas importantes de um ajuste sustentável entre o ambiente natural e o processo de industrialização. Em vez de aprender a conviver com os rios, a cidade decidiu enfrentá-los. Em vez de adaptar a engenharia à paisagem, adaptou a paisagem aos interesses do mercado imobiliário e da expansão viária.

Mas Entre Rios não se limita à denúncia. Há no documentário uma aposta silenciosa na capacidade coletiva de reconstrução. Ao recuperar a memória dos cursos d’água, ele também recupera a possibilidade de imaginar outro futuro para São Paulo. Essa é uma mensagem profundamente política: aquilo que foi transformado por decisões humanas pode voltar a ser transformado por novas escolhas sociais.

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É impossível assistir ao filme sem pensar em tantas periferias brasileiras que convivem diariamente com enchentes, perdas materiais e riscos constantes. A população que mais sofre com esse modelo urbano é justamente aquela que menos participou das decisões que o criaram. Enquanto grandes obras privilegiaram interesses econômicos e circulação de mercadorias, milhares de famílias aprenderam a viver sob a ameaça permanente da água que já teve seu espaço roubado.

Talvez por isso o documentário desperte um sentimento raro: ele convida à resistência coletiva. Resistir, aqui, não significa apenas preservar rios ou plantar árvores. Significa defender outra forma de pensar a cidade, onde infraestrutura, planejamento e meio ambiente caminhem juntos. Significa compreender que o direito à água limpa, às áreas verdes e à segurança diante das chuvas é também um direito à dignidade.

A realização de Caio Silva Ferraz consegue fazer tudo isso sem transformar a narrativa em uma aula pesada ou em um manifesto panfletário. O filme conversa com o espectador, costurando história, memória e ciência de maneira acessível, fazendo com que cada rua e cada avenida pareçam esconder perguntas que nunca tivemos tempo de fazer. É uma experiência que mexe menos pela grandiosidade das imagens e mais pela consciência que desperta.

No fim das contas, Entre Rios fala muito menos sobre rios do que sobre pessoas. Sobre a forma como uma sociedade escolhe ocupar seu território, distribuir seus riscos e imaginar seu futuro. Ao revelar que as enchentes são, em larga medida, produto das decisões humanas e que o desaparecimento dos rios foi consequência de um projeto de cidade centrado no concreto e no automóvel, o documentário também aponta um caminho de esperança: se fomos capazes de construir esse modelo, somos igualmente capazes de reconstruí-lo. E talvez seja justamente nessa possibilidade coletiva de mudança que resida sua mensagem mais urgente e mais brasileira.

Bom filme e até a próxima!

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