“Existo” e o direito de florescer mesmo em terreno hostil

No curta de Bruno César, a jornada de um jovem drag queen revela um Brasil onde resistir ao preconceito ainda é um ato diário de sobrevivência — e onde a arte continua sendo abrigo, denúncia e esperança.
POR JOANNE MOTA

Existo não é apenas um filme sobre um jovem que deseja se montar como drag queen pela primeira vez. É um retrato íntimo da coragem que nasce quando tudo ao redor parece empurrar alguém para o silêncio. Bruno César entende que existir, para muita gente neste país, já é um ato político. E talvez seja exatamente aí que o curta encontre sua potência mais dolorosa: ele não fala só sobre Thiago, fala sobre milhares de brasileiros que aprendem cedo que o próprio corpo pode virar alvo.
Há algo de profundamente brasileiro na relação entre Thiago e sua avó. Não porque a violência seja natural, mas porque ela infelizmente se tornou cotidiana dentro de estruturas familiares marcadas pelo conservadorismo, pela religião usada como instrumento de culpa e pela dificuldade histórica de lidar com a diferença. O curta evita transformar seus personagens em caricaturas. A avó não é um monstro de novela; ela é fruto de um país que ensinou gerações inteiras a confundirem amor com controle e moralismo com virtude.
Bruno César filma a dor sem transformá-la em espetáculo. E isso merece atenção. Quando escolhe não mostrar a agressão física de maneira explícita, o diretor desloca o foco para aquilo que permanece depois da pancada: o abandono, o medo, a solidão. O que dói em Existo não é o choque fácil da violência gráfica, mas o eco da humilhação dentro de casa, no olhar torto, no gesto de repulsa, no afeto negado. É um cinema que entende que certas feridas não aparecem no corpo.

O filme também conversa com uma peculiaridade brasileira: a de transformar desafios e precariedade em invenividade. Thiago não busca luxo nem glamour hollywoodiano. Sua montagem drag nasce quase como nasce o povo brasileiro nas periferias culturais do país: improvisando beleza onde o sistema só oferece dureza. Há um verso de Conceição Evaristo que parece atravessar o curta inteiro: “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”. A arte drag, aqui, surge exatamente como essa recusa coletiva à morte simbólica.
E talvez o aspecto mais emocionante do filme esteja na amizade. O apoio do melhor amigo de Thiago funciona como essas pequenas redes de sobrevivência que sustentam tanta gente invisível no Brasil real. Em tempos de individualismo agressivo e discursos de ódio organizados politicamente, ver personagens que se ajudam, que acolhem, que dividem medo e coragem, tem um valor enorme. O curta lembra algo fundamental: ninguém resiste sozinho.
A direção de Bruno César demonstra maturidade ao compreender que representatividade vazia não basta. Existe um cuidado evidente em construir humanidade antes de construir discurso. Isso aproxima o espectador dos personagens de maneira honesta, sem panfletarismo raso. Em Existo, cada silêncio importa porque cada personagem carrega uma história maior que a tela.

Também chama atenção como o curta dialoga com um Brasil contemporâneo marcado pelo crescimento da intolerância, especialmente contra a população LGBTQIA+. Num país que lidera estatísticas de violência contra pessoas trans e gays, acompanhar a preparação de uma drag queen deixa de ser apenas um rito artístico; vira uma travessia de sobrevivência. Sophia não nasce apenas da maquiagem ou do figurino. Ela nasce do enfrentamento ao medo. E isso dá ao filme uma dimensão coletiva muito poderosa.
Há ainda uma delicadeza bonita na forma como o curta entende a arte não como fuga da realidade, mas como ferramenta para suportá-la. O cinema de Bruno César parece acreditar no que Ariano Suassuna dizia sobre a cultura popular brasileira: ela é resistência porque transforma sofrimento em imaginação e imaginação em permanência. Quando Thiago insiste em existir através da arte drag, ele está dizendo ao mundo que sua subjetividade não cabe nos limites impostos pela violência.
No fim das contas, Existo deixa uma pergunta atravessada no peito: quantas pessoas neste país ainda precisam pedir licença para serem quem são? O curta não oferece respostas fáceis, mas oferece algo talvez mais importante: humanidade. E em tempos tão brutais, enxergar humanidade no outro já é uma forma radical de resistência.
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Bom filme!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
