Antes do estádio, existe a quebrada: A Fatoflix mostra como o futebol ensina a sonhar

Antes do estádio, existe a quebrada: A Fatoflix mostra como o futebol ensina a sonhar

Nesta semana a Fatoflix destaca Pelada, Futebol na Favela‘, de Alex Miranda. Um filme que revela como o futebol nasce nos campos de terra, transforma a vida nas periferias e expõe um país onde o sonho de ser craque convive com a falta de oportunidades.

POR JOANNE MOTA

Há lugares onde a bola não é apenas uma bola: é passaporte, abrigo, sonho e, muitas vezes, a única porta aberta para imaginar um futuro diferente. É nesse território de terra batida, chuteiras gastas, pés descalços e traves improvisadas que Pelada, Futebol na Favela, documentário dirigido por Alex Miranda, encontra o coração de uma história profundamente brasileira. Lançado em 2013, o filme mergulha no universo das peladas para contar uma história que vai muito além do futebol: a história de crianças e jovens que, nas periferias e favelas, aprendem a driblar não apenas os adversários, mas também a pobreza, a falta de oportunidades e as desigualdades que atravessam suas vidas.

O documentário parte de uma ideia simples, mas poderosa: antes dos grandes estádios, dos contratos milionários e das camisas de clubes gigantes, existe o campinho da comunidade. É ali que o talento aparece, que a amizade se constrói e que a bola circula como uma espécie de linguagem comum. Miranda olha para esse cotidiano sem perder de vista a dimensão social do fenômeno. A pelada é diversão, mas também é espaço de convivência, pertencimento e formação. Em muitos lugares, o campo representa uma das poucas estruturas coletivas disponíveis para uma juventude cercada por ausências do Estado e por dificuldades econômicas.

O filme ganha força ao colocar lado a lado histórias de craques consagrados e a vida de quem ainda está tentando chegar lá. Neymar, Ronaldo Fenômeno, Emerson Sheik, Paulinho, Zinho e Serginho Chulapa compartilham suas memórias e ajudam a reconstruir uma trajetória conhecida por milhões de brasileiros: a criança que começa jogando no terrão, alimenta o sonho de vestir a camisa de um grande clube e passa a imaginar que, talvez, seja possível conquistar o mundo com uma bola nos pés. O contraste entre o passado desses jogadores e o presente dos meninos retratados pelo filme cria uma ponte entre gerações e revela a permanência de um mesmo desejo.

Mas há uma questão incômoda escondida por trás dessa narrativa de superação. Se o futebol é apresentado como uma das poucas possibilidades de ascensão social para jovens pobres, o que acontece com todos aqueles que não chegam aos grandes clubes? O documentário toca nessa ferida justamente porque mostra que o sonho é coletivo, mas a oportunidade não. Para cada craque que alcança a fama, milhares de meninos permanecem nos mesmos campos de terra, carregando o talento, a esperança e, muitas vezes, a frustração de um caminho que nunca se abriu. A bola pode transformar uma vida, mas não deveria ser obrigada a resolver sozinha problemas que são sociais e políticos.

É nesse ponto que Pelada, Futebol na Favela se torna mais interessante do que uma simples celebração dos grandes ídolos. O filme revela o futebol como parte de uma experiência comunitária. Nas periferias, jogar bola significa aprender a dividir espaço, respeitar regras, construir alianças e reconhecer o outro. O depoimento do jovem Riquelme, ao falar sobre viver próximo à violência e, ao mesmo tempo, encontrar no campo um lugar de convivência e ajuda mútua, sintetiza essa dimensão. O campinho aparece como contraponto àquilo que ameaça a juventude: um território onde a coletividade ainda pode vencer o isolamento e a desesperança.

A fotografia e a montagem acompanham essa perspectiva com uma linguagem que valoriza a energia das partidas e a atmosfera das comunidades. A trilha sonora contribui para criar um ritmo vibrante, próximo da pulsação das peladas e da cultura urbana brasileira. A bola corre, os corpos se movimentam, os meninos disputam cada lance como se fosse uma final de campeonato. Existe, nessa dinâmica, uma beleza que o cinema consegue capturar: a capacidade brasileira de transformar espaços precários em lugares de invenção, técnica e alegria. O improviso, nesse sentido, não é apenas uma característica do jogo; é também uma forma de sobrevivência.

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Ao recuperar a trajetória de jogadores que vieram das periferias, o documentário também conversa com uma tradição muito particular do futebol brasileiro. A chamada “ginga”, o drible, a criatividade e o jogo de cintura não surgem do nada. São construídos em ambientes onde a falta de estrutura obriga o jogador a desenvolver outras formas de jogar. A rua, o terrão e a pelada tornam-se escolas informais, espaços onde se aprende a antecipar o movimento do outro, a improvisar e a criar soluções inesperadas. É uma cultura esportiva que nasce de baixo para cima e que, durante décadas, ajudou a construir a imagem do Brasil no mundo.

Ao mesmo tempo, é preciso olhar criticamente para essa romantização da periferia. Existe um risco, recorrente no imaginário brasileiro, de transformar a pobreza em cenário de histórias inspiradoras, como se a falta de recursos fosse uma condição necessária para produzir grandes talentos. Não é. Meninos e meninas das periferias não precisam da pobreza para serem criativos, talentosos ou apaixonados pelo futebol. Precisam de direitos, escolas, equipamentos esportivos, segurança, cultura e oportunidades. O mérito de Pelada está justamente em permitir que essa contradição apareça: o mesmo país que celebra seus craques frequentemente abandona os territórios onde esses talentos nascem.

Visto hoje, mais de uma década depois de sua estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no CINEFOOT, o filme ganha novas camadas. O futebol brasileiro continua sendo uma das maiores paixões populares do país, mas também é atravessado por desigualdades profundas e por uma indústria que transforma sonhos em mercadoria. A distância entre o menino que joga no campo de terra e o astro que atua nos maiores estádios do planeta continua enorme. Ainda assim, a pelada permanece como um dos lugares onde o futebol é mais democrático: basta uma bola, algum espaço e gente disposta a jogar. Ali, por alguns minutos, a vida pode parecer mais justa.

No fim, Pelada, Futebol na Favela – que compõe nossa Mostra Esporte e Sociedade – é um filme sobre futebol, mas também sobre pertencimento, desigualdade e esperança. Alex Miranda olha para as comunidades e encontra nelas não apenas futuros craques, mas pessoas que constroem laços e inventam possibilidades todos os dias. Talvez essa seja a maior força do documentário: lembrar que, antes de ser espetáculo, o futebol é encontro. E que, quando uma criança corre atrás de uma bola em um campo de terra, não está apenas sonhando com a fama. Está reivindicando o direito de brincar, de conviver, de imaginar e de acreditar que seu futuro pode ser maior do que o lugar onde nasceu. No Brasil, poucas imagens dizem tanto sobre quem somos quanto essa: uma bola rolando no chão irregular, cercada por gente, sonho e vontade de seguir em frente.

Assista na Fatoflix! Bom filme!

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