O Jabuti contra a anta e o preço oculto da energia
A Amazônia não aparece em O Jabuti e a Anta como paisagem: ela surge como ferida aberta, como território disputado, como memória viva que insiste em resistir.
POR JOANNE MOTA
Em um país acostumado a ouvir que o progresso sempre vem de cima para baixo, o documentário de Eliza Capai faz o movimento inverso. Parte da crise hídrica que atingiu o Sudeste brasileiro para seguir o curso dos rios amazônicos e perguntar algo aparentemente simples, mas profundamente político: quem paga a conta do desenvolvimento? Ao navegar pelos rios Xingu, Tapajós e Ene, a diretora transforma uma inquietação pessoal em uma investigação coletiva sobre energia, território e justiça social.


O grande mérito do filme está justamente em sua capacidade de deslocar o olhar. Em vez de se concentrar nas planilhas, nos discursos oficiais ou nos megaprojetos apresentados como inevitáveis, Capai entrega a palavra às pessoas que vivem às margens dessas obras monumentais. Ribeirinhos, pescadores e povos indígenas deixam de ser números ou obstáculos burocráticos para se tornarem protagonistas de suas próprias histórias.
Há uma delicadeza rara na forma como a diretora constrói essa escuta. O documentário não se apressa em concluir nem tenta impor respostas fáceis. O espectador é convidado a embarcar numa viagem de barco, observando paisagens grandiosas enquanto ouve relatos que revelam perdas invisíveis para quem observa a Amazônia apenas através dos mapas ou dos relatórios técnicos.
A metáfora que dá nome ao filme é poderosa. Na narrativa popular, o jabuti, pequeno e aparentemente frágil, enfrenta a força bruta da anta e, com paciência e persistência, consegue derrotá-la. Capai apropria-se dessa história para apresentar os muitos “jabutis” espalhados pela floresta: comunidades inteiras pressionadas por empreendimentos bilionários que frequentemente se apresentam como inevitáveis e incontestáveis.
O documentário evita o maniqueísmo. Não se trata simplesmente de condenar a geração de energia ou negar a necessidade de infraestrutura. O que o filme questiona é a lógica segundo a qual determinados grupos sociais são sistematicamente sacrificados em nome de benefícios que raramente chegam até eles. É uma discussão sobre democracia, sobre participação e sobre quem tem o direito de decidir os rumos do país.


Visualmente, a obra encontra força na própria paisagem amazônica. A fotografia captura a grandiosidade dos rios e da floresta sem cair na armadilha do exotismo. A beleza está presente, mas nunca como cartão-postal. Cada plano parece lembrar que aquela natureza exuberante é também espaço de trabalho, cultura, espiritualidade e sobrevivência para milhões de pessoas.
A trajetória de Eliza Capai ajuda a compreender a potência do filme. Jornalista de formação e documentarista comprometida com temas sociais, ela construiu uma carreira marcada pela atenção aos sujeitos frequentemente silenciados. Em O Jabuti e a Anta, essa vocação aparece de forma madura, articulando investigação jornalística, sensibilidade humana e consciência política sem transformar o documentário em panfleto.
Assistir ao filme em 2026 produz um efeito ainda mais inquietante. As questões levantadas pela obra permanecem atuais diante dos debates sobre crise climática, transição energética e soberania dos recursos naturais. O que parecia uma reflexão sobre uma seca específica transforma-se numa discussão muito mais ampla sobre os limites de um modelo de desenvolvimento que continua tratando a natureza como depósito de recursos e as populações tradicionais como danos colaterais.
No fim, O Jabuti e a Anta é menos um documentário sobre hidrelétricas e mais uma reflexão sobre o Brasil profundo. Um país onde gigantescos projetos convivem com comunidades invisibilizadas, onde a promessa de modernidade frequentemente encontra a resistência daqueles que se recusam a desaparecer. E é justamente aí que reside sua maior força: lembrar que, por trás de cada barragem, cada rio alterado e cada floresta impactada, existem rostos, histórias e vidas que insistem em dizer que desenvolvimento sem justiça não passa de outra forma de violência.
Bom filme e até a próxima!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
