Em Nome da Terra: quando a memória cria raízes e a resistência floresce

O Brasil é feito de gente que não foge da luta, que ainda que perde quase tudo e, ainda assim, encontra força para semear o futuro com as próprias mãos.
POR JOANNE MOTA
Há documentários que informam. Outros emocionam. E há aqueles que fazem algo mais raro: nos devolvem a capacidade de enxergar o país profundo, aquele que muitas vezes permanece invisível nas manchetes e nos mapas oficiais. Em Nome da Terra, dirigido por Elza Cohen, pertence a essa categoria. Em seus 39 minutos, o filme nos convida a caminhar pelos Gerais mineiros não como visitantes, mas como quem chega para ouvir histórias guardadas há gerações.

O documentário acompanha mulheres quilombolas da Vila São João, em Berizal, no Norte de Minas Gerais. Mas seria injusto dizer que a obra fala apenas sobre elas. O que vemos é uma narrativa sobre pertencimento, memória e luta coletiva. A terra, aqui, não aparece como propriedade ou mercadoria. Ela surge como extensão da vida, da cultura e da identidade de um povo que insiste em existir apesar de séculos de exclusão e apagamento.
A grande força do filme está justamente na escolha do olhar. Elza Cohen não busca heróis individuais nem histórias de superação moldadas para o consumo rápido. Sua câmera acompanha mulheres comuns que realizam algo extraordinário: preservar vínculos comunitários em um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo. São mulheres que plantam, cozinham juntas, compartilham saberes e transformam a memória em ferramenta de resistência.
Ao longo da narrativa, entendemos que a retomada do território não é apenas uma disputa por hectares de terra. Trata-se de recuperar uma história interrompida pela violência da concentração fundiária, pelo racismo estrutural e pela tentativa permanente de apagar a presença negra na formação do Brasil. Quando as personagens falam de seus antepassados, falam também do direito de existir no presente e de projetar um futuro para as próximas gerações.
É impossível assistir ao documentário sem estabelecer conexões com os desafios enfrentados hoje pelo povo brasileiro. Em um país onde comunidades tradicionais seguem ameaçadas por interesses econômicos poderosos, a experiência da Vila São João revela que a luta pelo território continua sendo uma luta pela dignidade. A defesa da terra é, ao mesmo tempo, a defesa da cultura, da alimentação, da autonomia e da própria democracia.

O filme também oferece uma reflexão importante sobre o papel das mulheres na construção da resistência popular. Em muitos momentos, elas aparecem como guardiãs da memória coletiva e articuladoras da vida comunitária. Não há romantização da pobreza ou das dificuldades enfrentadas. O que existe é o reconhecimento de uma força construída no cotidiano, na solidariedade e na capacidade de transformar adversidade em organização.
Visualmente, Em Nome da Terra encontra beleza sem recorrer a excessos. As paisagens do Norte de Minas dialogam com os depoimentos de forma orgânica, permitindo que o território se torne também um personagem da história. A fotografia de Andrea Capella e a montagem de Marcela Amarante ajudam a criar um ritmo que respeita o tempo da escuta e da contemplação, algo cada vez mais raro em tempos de consumo acelerado de imagens.
Talvez o maior mérito do documentário seja sua capacidade de nos lembrar que memória não é nostalgia. Memória é disputa. É ferramenta de sobrevivência. É aquilo que permite a uma comunidade reconhecer sua própria história e reivindicar seu lugar no mundo. Ao registrar a trajetória das mulheres quilombolas da Vila São João, o filme preserva uma experiência local que, paradoxalmente, fala para todo o Brasil.
Ao final, saímos da sessão com a sensação de que a terra retratada por Elza Cohen não pertence apenas àquela comunidade. Ela simboliza todos os territórios onde o povo brasileiro segue resistindo, construindo laços e reinventando a esperança. Em Nome da Terra é um documentário sobre quilombolas do Norte de Minas, mas também é um retrato de um país que insiste em florescer mesmo quando tentam arrancar suas raízes.
Assista, emocione-se, confira o Brasil de luta!
Bom filme!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
