Silêncio, dor e vertigem: o que ‘A Passarela’ diz sobre a juventude de hoje

Silêncio, dor e vertigem: o que ‘A Passarela’ diz sobre a juventude de hoje

Com a marca de um cinema feito com e para o território, o filme propõe um olhar urgente para o outro — antes que ele desapareça.

POR JOANNE MOTA

Há um Brasil que caminha todos os dias na beira do abismo — tropeça, cai, sangra, mas insiste em seguir. É desse lugar duro e profundamente humano que nasce “A Passarela” (2023), curta-metragem de 12 minutos dirigido por Serginho Clemente, um filme pequeno em cenários, mas imenso em sentimentos.

A história acompanha Yasmin, ex-modelo e garota de programa de luxo, que vive o auge de uma depressão profunda. Carregando traumas que não cicatrizam, ela busca nos entorpecentes uma espécie de anestesia para aquilo que insiste em doer. Quando o entorpecente falta, sobra apenas o silêncio — e uma última decisão. É nesse momento que surge a passarela, não a dos flashes e aplausos, mas uma travessia solitária entre a vida e o limite.

Com uma narrativa intimista, o filme aposta na força do silêncio, do olhar e das pausas. Não há grandes reviravoltas, nem efeitos espetaculares. O que há é um mergulho lento na mente de alguém que já não consegue distinguir esperança de cansaço. Em um país que costuma esconder suas dores atrás de discursos de superação, “A Passarela” tem a coragem de olhar de frente para o abismo.

A trajetória de Yasmin é também uma metáfora de uma geração inteira que cresceu ouvindo promessas de sucesso, glamour e felicidade instantânea, mas encontrou um mundo de frustrações, precariedade e solidão. Como escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, “no meio do caminho tinha uma pedra”. Para muitos jovens brasileiros, essa pedra virou muro.

Serginho Clemente, cineasta carioca da nova geração, demonstra sensibilidade ao conduzir essa narrativa. Seu olhar não é moralista nem espetaculariza o sofrimento. Pelo contrário: o diretor constrói uma atmosfera de observação quase documental, em que cada gesto da personagem parece carregado de um peso que o espectador consegue sentir.

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Há algo de profundamente urbano no filme. A cidade aparece como um espaço indiferente, onde histórias como a de Yasmin acontecem todos os dias sem testemunhas. É como se a metrópole fosse uma máquina que produz sonhos e, ao mesmo tempo, triturasse quem não consegue sustentar o ritmo.

No fundo, “A Passarela” fala sobre o momento em que alguém sente que não há mais saída. E, paradoxalmente, ao expor essa sensação com tanta honestidade, o filme também nos convida a refletir sobre a importância de olhar para o outro antes que ele desapareça no silêncio.

Porque, se o Brasil real muitas vezes parece uma passarela estreita sobre o vazio, histórias como essa lembram que ninguém deveria atravessá-la sozinho. Como escreveu Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, “o que a vida quer da gente é coragem”. E talvez o cinema também.

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