Fim do mito fundador dos EUA

Fim do mito fundador dos EUA

O western clássico não desapareceu apenas por mudança de gosto. Ele perdeu legitimidade simbólica.

Por Fernando Nogueira da Costa

A transformação cultural provocada pela Guerra do Vietnã foi central para a crise do faroeste clássico norte-americano. Mas ela se somou a mudanças mais profundas: revisão histórica do colonialismo, emergência dos movimentos civis, crítica ao racismo, transformação geracional após os anos 1960 e mudança do próprio imaginário do poder nos Estados Unidos da América  (EUA).

O western clássico não desapareceu apenas por mudança de gosto. Ele perdeu legitimidade simbólica.

O filme de faroeste não era apenas entretenimento. Era uma narrativa nacional de origem. O western divulgava um falso mito fundador dos EUA.

O western clássico ensinava mentiras: o Oeste era “vazio” ou “selvagem”, os colonizadores levavam civilização, o homem armado fazia justiça, os indígenas eram obstáculos ao progresso salário a violência fundadora era legítima.

Era a versão épica da chamada “fronteira”. A ideia da “Frontier” foi central na identidade dos EUA com justificativa da expansão territorial, do individualismo armado, da masculinidade viril, da autossuficiência, da conquista da natureza e da missão civilizatória.

Os cowboys e a cavalaria funcionavam como heróis nacionais. Os indígenas eram representados como “ameaça”.

Nos westerns clássicos, indígenas apareciam frequentemente como massa indistinta, violentos, irracionais e “selvagens”. Isso legitimava retrospectivamente as expulsões de seus territórios, os massacres, o confinamento em reservas, a destruição cultural e a expansão territorial dos EUA.

Hoje, muitos historiadores interpretam parte desse processo como colonização de povoamento acompanhada de práticas genocidas contra povos nativos.

O pós-guerra ainda reforçou esse imaginário. Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA emergiram como potência global. O western tornou-se símbolo da virilidade americana, defesa da ordem mundial, combate ao “caos do comunismo” (com afastamento das condições iniciais) e legitimação do uso da força.

A cavalaria dos filmes funcionava quase como metáfora do papel global dos EUA na Guerra Fria anticomunista. Forjou a extrema-direita, hoje neofascista.

A mortandade da juventude universitária, nos EUA, foi uma das causas da ruptura cultural dos anos 1960. A partir de então, ocorreu uma transformação profunda.

Entraram em cena o movimento pelos direitos civis, a crítica ao racismo, o movimento indígena, o feminismo, a contracultura, a juventude universitária e a crítica ao imperialismo. Pela primeira vez em massa, jovens norte-americanos passaram a questionar o Exército, o nacionalismo militar, a autoridade estatal e a violência imperial.

O Vietnã destruiu a inocência heroica. A Guerra do Vietnã foi decisiva porque mostrou massacres reais pela TV, revelou atrocidades militares, expôs mentiras governamentais e terminou sem vitória clara dos EUA.

Foi talvez a primeira guerra televisionada diariamente. O público passou a ver aldeias queimadas, civis mortos, soldados traumatizados e violência indiscriminada.

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Isso abalou profundamente o mito do soldado libertador, o herói moral absoluto e o guerreiro civilizador. Muitos intelectuais perceberam paralelos entre Vietnã, colonialismo europeu, conquista do Oeste e extermínio indígena. A cavalaria do western começou a parecer semelhante ao imperialismo contemporâneo.

O western clássico entrou em crise moral. O cowboy heroico tradicional tornou-se menos convincente para parte da sociedade não armamentista ou pacifista.

Surgem então os “westerns revisionistas”. Neles, indígenas ganham humanidade, o Exército aparece brutal, o herói torna-se ambíguo, a violência aparece traumática e a conquista do Oeste vira tragédia histórica.

Filmes importantes dessa transição foram Little Big Man (1970): Pequeno Grande Homem; Soldier Blue (1970): Quando É Preciso Ser Homem; The Wild Bunch (1969): Meu Ódio Será Sua Herança; Unforgiven (1992): Os Imperdoáveis.

O herói armado não desapareceu completamente. Essa percepção é parcialmente correta, mas o processo foi mais complexo.

O mito do herói armado não acabou, mas foi transformado. O herói clássico, apresentado como seguro moralmente, patriótico e defensor inequívoco do bem foi substituído por anti-heróis, personagens traumatizados, justiceiros ambíguos e indivíduos desconfiados do Estado.

O cinema pós-Vietnã tornou-se mais sombrio. Houve o deslocamento do western para outros gêneros. O western não morreu totalmente. Ele migrou.

Sua estrutura reapareceu em filmes policiais, ficção científica, distopias, super-heróis e ação militar. Por exemplo, o policial solitário substitui o cowboy, a fronteira vira o espaço sideral e o revólver vira arma automática. Muitos filmes de ficção científica são westerns disfarçados.

A televisão e a mudança do mercado. Também houve razões econômicas como saturação do gênero, queda das audiências, mudança geracional, concorrência da TV contra o cinema e novos estilos cinematográficos.

Nos anos 1950, havia enorme quantidade de westerns baratos, seriados e repetitivos. O público urbano jovem dos anos 1970 queria realismo, rebeldia, psicologia e crítica social.

A cultura contemporânea revisou o colonialismo. Hoje, há maior consciência histórica sobre genocídio indígena, escravidão, segregação racial e imperialismo. Narrativas antes consideradas “naturais” passaram a ser vistas criticamente.

Isso não significa desaparecimento total do imaginário armado nos EUA. Lá continua forte a cultura das armas, o patriotismo militar, os filmes de ação, os videogames e o nacionalismo xenófobo. Seu federalismo eleitoral elege (e reelege) um autocrata de extrema-direita como o Imperador Donald!

Mas o velho western clássico perdeu a capacidade de funcionar como mito inocente de fundação nacional…

Imagem reprodução

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