Futebóis e Viventes: entre o currículo e a bola, os invisíveis entram em campo
Em diálogo, “Viventes” e “Futebóis” revela um país onde desemprego, periferia, quilombo e várzea compartilham a mesma luta por dignidade, pertencimento e futuro. Assista na FatoFlix.
POR JOANNE MOTA
Há um Brasil que quase nunca aparece quando o cinema decide contar a história do país. É o Brasil de quem espera uma oportunidade, improvisa caminhos, disputa espaços e encontra, no meio da dureza da vida, alguma forma de continuar. Viventes, de Fabrício Basílio, e Futebóis, de Bruno Badain e Luiz Ferraz, partem de universos diferentes, mas chegam a uma mesma esquina: a da vida brasileira que resiste sem fazer alarde. Ao destacar Viventes em sua programação, a FatoFlix ajuda a colocar essas duas obras em diálogo e a lembrar que existe um cinema interessado não apenas em representar o país, mas em escutá-lo.
Em Viventes, tudo começa com uma tarefa aparentemente banal. Paulinho está desempregado há bastante tempo e tem uma entrevista de emprego marcada para o dia seguinte. Antes disso, precisa imprimir o currículo. É uma situação simples, quase prosaica, mas justamente aí está a força do filme. A burocracia da sobrevivência, o constrangimento de pedir ajuda, a urgência de conseguir uma folha de papel transformam uma pequena missão em um retrato de um país onde até a tentativa de recomeçar pode exigir uma batalha.


Fabrício Basílio constrói seu curta a partir dessa tensão entre o que parece pequeno e aquilo que, na verdade, carrega um peso enorme. Paulinho não é apresentado como um símbolo distante ou uma estatística social. É uma pessoa diante de uma necessidade concreta. O desemprego deixa de ser um número e ganha rosto, tempo, ansiedade e expectativa. O filme entende que, para quem vive à margem das garantias, uma entrevista de emprego pode significar muito mais do que uma possibilidade profissional: pode representar a chance de recuperar algum controle sobre a própria vida.
Futebóis, por sua vez, amplia esse olhar e percorre diferentes territórios para investigar a relação entre futebol, identidade, resistência e transformação social. No quilombo do sertão pernambucano, nas vielas da periferia de Santo André e nos campos improvisados da várzea paulistana, o esporte aparece muito além do espetáculo profissional. O futebol é encontro, pertencimento e memória. É também uma maneira de ocupar a cidade, fortalecer vínculos e construir comunidade onde tantas vezes o poder público chega de forma insuficiente ou simplesmente não chega.
O ponto de encontro entre os filmes está justamente nessa atenção aos sujeitos comuns. Em Viventes, acompanhamos alguém tentando atravessar as barreiras invisíveis impostas pelo desemprego e pela precariedade. Em Futebóis, vemos comunidades que fazem do jogo uma linguagem coletiva, capaz de criar laços e afirmar identidades. Um filme acompanha a urgência de um indivíduo; o outro observa a força de experiências coletivas. Ambos, contudo, recusam a ideia de que a vida brasileira possa ser compreendida apenas pelos grandes acontecimentos.


Há também uma questão profundamente brasileira atravessando as duas obras: a capacidade de transformar a falta em invenção. Quando faltam recursos, sobram criatividade e solidariedade. Quando o espaço é negado, criam-se outros lugares de convivência. Quando o futuro parece incerto, ainda assim se encontra uma maneira de jogar, trabalhar, insistir, tentar novamente. Essa não é uma visão romantizada da pobreza ou da precariedade. Ao contrário: é a percepção de que, por trás da resistência cotidiana, existe uma sociedade marcada por desigualdades que não podem ser naturalizadas.
É nesse aspecto que a escolha da FatoFlix ganha relevância. Uma plataforma que se apresenta a partir da ideia de democracia e cinema pode funcionar como uma janela para produções que nem sempre encontram espaço nos circuitos mais comerciais. Ao aproximar um curta como Viventes de um documentário como Futebóis, a plataforma permite que o espectador perceba uma continuidade: a câmera pode estar diante de uma entrevista de emprego ou de uma partida de várzea, mas o que está em jogo é sempre algo maior — o direito de existir com dignidade e de construir pertencimento.
Os caminhos formais são diferentes, e isso enriquece o diálogo. Viventes concentra sua narrativa e transforma uma situação cotidiana em uma experiência de tensão e reconhecimento. Futebóis trabalha pela multiplicidade, percorrendo territórios e histórias para revelar as várias faces de um fenômeno cultural. Um se aproxima do indivíduo; o outro abre o plano para a comunidade. Juntos, ajudam a compreender que a identidade brasileira não está apenas nos símbolos oficiais ou nas imagens consagradas, mas também nos pequenos gestos de quem segue vivendo.
Talvez seja essa a maior contribuição dessas obras: lembrar que o cinema brasileiro também pode ser uma forma de escuta. Escutar o trabalhador desempregado, a comunidade quilombola, o jovem da periferia, o jogador de várzea, aqueles que constroem suas próprias redes de solidariedade. O cinema, nesses casos, não precisa falar por essas pessoas. Precisa criar condições para que suas experiências sejam vistas, reconhecidas e compartilhadas.
No fim, Viventes e Futebóis falam de um mesmo país sem precisar contar a mesma história. Um currículo que precisa ser impresso e uma bola que rola em um campo improvisado podem parecer coisas muito distantes, mas pertencem ao mesmo Brasil: aquele em que a vida cotidiana exige resistência e em que a comunidade, muitas vezes, é o que impede que alguém caminhe sozinho. Ao destacar Viventes e colocá-lo em diálogo com filmes como Futebóis, a FatoFlix reforça a importância de um cinema que olha para o país real, para suas feridas e suas potências. São filmes sobre gente comum, mas nada há de pequeno nas vidas que eles escolhem colocar diante da câmera.
Assista na Fatoflix, Viventes e confira a emoção e luta de um território!
Confira na Fatoflix Futebóis, e confira como o Esporte e a Política andam juntos em nosso cotidiano.

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
