Inteligência artificial deve ser ferramenta da comunicação sindical, aponta 3ª oficina do Ciclo do Barão

Inteligência artificial deve ser ferramenta da comunicação sindical, aponta 3ª oficina do Ciclo do Barão

Com exposição de Vanessa Martina-Silva e coordenação de Rita Casaro, encontro debateu usos práticos de IA para campanhas, pesquisa, checagem, produção de conteúdo e enfrentamento à desinformação

(por CARLOS TIBÚRCIO, Fórum 21, Fatoflix e Coordenação do Barão – transcrição e resumo feitos com apoio de IA)

A terceira oficina do Ciclo do Barão colocou a inteligência artificial no centro da comunicação sindical e popular. Realizada na noite de terça-feira, 12 de maio, a atividade teve abertura e coordenação de Rita Casaro e exposição da jornalista e internacionalista Vanessa Martina-Silva, que conduziu uma oficina com muitos exemplos práticos sobre como compreender, utilizar e se proteger diante das novas ferramentas digitais.

O encontro deu continuidade ao debate da segunda oficina, conduzida por Ergon Cugler, sobre desinformação e fake news. Se no encontro anterior a ênfase esteve nos riscos da indústria da mentira, agora o foco foi outro: como o movimento sindical, os comunicadores populares e as organizações sociais podem usar a inteligência artificial a seu favor, sem ingenuidade, sem medo paralisante e sem abrir mão do trabalho humano, político e profissional.

Na abertura, Rita lembrou que o tema já havia aparecido com força na 2ª oficina e destacou a necessidade de o movimento sindical conhecer melhor os recursos disponíveis. A coordenadora ressaltou que o debate não poderia ficar restrito às ferramentas generativas mais conhecidas, como o ChatGPT, porque há uma diversidade de usos possíveis da IA em pesquisa, checagem, produção audiovisual, organização de campanhas, monitoramento e comunicação com diferentes públicos.

Ao apresentar Vanessa, Rita a definiu como uma referência prática para dúvidas sobre inteligência artificial, além de destacar sua trajetória como jornalista, internacionalista, analista política e militante da democratização da comunicação. A própria dinâmica do encontro reforçou o caráter de oficina: menos exposição abstrata e mais demonstração concreta de ferramentas, usos, limites e possibilidades.

Vanessa iniciou sua fala situando sua própria relação com a IA. Contou que, atuando em veículos e projetos de comunicação com recursos humanos e financeiros limitados, encontrou nas ferramentas de inteligência artificial uma forma de otimizar trabalho, acelerar processos e ampliar a capacidade de produção. Mas fez uma advertência importante: a IA não substitui jornalistas, dirigentes, comunicadores ou militantes. Ela ajuda a trabalhar mais rápido, organizar melhor informações, testar linguagens, gerar materiais de apoio e enfrentar a sobrecarga, mas não elimina a necessidade de critério político, apuração, edição e responsabilidade.

Essa foi uma das mensagens centrais da oficina: a inteligência artificial é uma ferramenta, não um sujeito político. Por isso, seu uso exige domínio técnico, intencionalidade, verificação e orientação estratégica. Como destacou Vanessa, ferramentas desse tipo tendem a devolver respostas genéricas quando recebem comandos genéricos. Para obter bons resultados, é preciso dar contexto, explicar o público, definir o tom, indicar fontes, estabelecer objetivos e revisar criticamente tudo o que for produzido.

A exposição partiu do contexto da desinformação. Vanessa comentou a existência de uma verdadeira indústria de fake news, com profissionais, recursos, fazendas de celulares, robôs, grupos segmentados e estratégias específicas para diferentes públicos. Segundo ela, a extrema-direita – sempre abastecida com muito dinheiro – aprendeu a operar de forma profissional nas redes, enquanto setores da esquerda e dos movimentos sociais ainda atuam, muitas vezes, de maneira artesanal, compartilhando conteúdos em grupos sem planejamento, sem segmentação e sem domínio das ferramentas.

A comparação serviu como alerta. Para Vanessa, não basta denunciar que a direita usa tecnologia de forma abusiva ou criminosa. É preciso que o campo democrático e popular aprenda a usar as ferramentas disponíveis com ética, inteligência e profissionalismo. Isso vale tanto para campanhas eleitorais quanto para a comunicação cotidiana de sindicatos, movimentos e entidades.

Entre os exemplos apresentados, Vanessa mostrou como a IA pode ajudar a adaptar uma mesma mensagem para públicos diferentes. Uma explicação sobre determinado tema pode ser reescrita para um grupo de estudantes universitários, para pais de crianças pequenas, para trabalhadores de uma categoria específica, para militantes sindicais ou para moradores de uma cidade do interior. Essa capacidade de segmentar linguagem é decisiva, porque uma mensagem eficaz para um público pode ser ineficaz ou até contraproducente para outro.

Ao discutir fake news, Vanessa reforçou uma ideia também trabalhada na oficina anterior: dados, sozinhos, não desmontam mentiras. Muitas pessoas acreditam em conteúdos falsos porque eles dialogam com medos, valores, preconceitos ou inseguranças. Por isso, o combate à desinformação exige linguagem humana, vínculo, escuta e compreensão do que está por trás da crença. A IA pode ajudar a construir respostas, mas a disputa real continua dependendo de relações de confiança e presença política.

Na parte mais prática, Vanessa demonstrou usos do ChatGPT e de outras ferramentas semelhantes, como Gemini e Perplexity. Explicou como personalizar o comportamento da ferramenta, ajustar tom de voz, definir preferências, orientar o viés de análise e criar instruções permanentes. Também mostrou a possibilidade de construir agentes personalizados, por exemplo, para checar informações, pesquisar fontes, organizar argumentos ou produzir conteúdos voltados a campanhas específicas.

Outro recurso apresentado foi o uso de projetos. Vanessa explicou que, em uma campanha eleitoral, sindical ou institucional, é possível reunir documentos, identidade visual, programa político, tom de voz, materiais anteriores e diretrizes para que a ferramenta passe a responder dentro daquele contexto. Isso permite organizar melhor a produção de textos, discursos, cards, roteiros, mensagens de WhatsApp e materiais segmentados.

A pesquisadora também insistiu em um ponto fundamental: a IA não deve ser usada como fonte única de verdade. Mesmo quando uma ferramenta apresenta referências, links ou estudos, é preciso verificar. Vanessa citou o risco de textos falsos, estudos inexistentes ou documentos manipulados passarem a ser reproduzidos como se fossem confiáveis. A recomendação foi clara: usar a IA como apoio à pesquisa, nunca como substituta da apuração.

Entre as ferramentas de pesquisa, Vanessa destacou o Perplexity, especialmente para buscas em tempo real, e o NotebookLM, do Google, apresentado como uma ferramenta muito útil para jornalistas, pesquisadores, estudantes, campanhas e entidades. Com ele, explicou, é possível reunir fontes, documentos, links, textos e materiais próprios, para depois gerar resumos, perguntas, análises, sínteses temáticas e conteúdos derivados com base nas fontes selecionadas.

A oficina também tratou de produção audiovisual. Vanessa apresentou recursos como CapCut e Kapwing para edição de vídeo, legendagem automática, tradução, transcrição e adaptação de materiais. Para campanhas e sindicatos com poucos recursos, essas ferramentas podem acelerar a produção de vídeos curtos, cortes de falas, materiais para redes sociais e conteúdos acessíveis para WhatsApp, Instagram, Facebook e YouTube.

Outro momento importante foi a demonstração de possibilidades de monitoramento e checagem. Vanessa apresentou ferramentas capazes de acompanhar temas, organizar notícias, gerar sínteses e apoiar a verificação de informações. Também compartilhou um caminho para uso do Google Fact Check Explorer, reforçando a importância de checar informações antes de compartilhar e de orientar as bases sobre como verificar conteúdos durante debates eleitorais.

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As perguntas dos participantes ajudaram a trazer o debate para problemas cada vez mais concretos. Luiz, de Itabuna, levantou uma preocupação sobre a relação de intimidade que muitas pessoas passam a estabelecer com ferramentas como o ChatGPT. Para ele, o uso da IA pode ser inevitável, mas há algo de inquietante na forma como essas ferramentas “conversam” com os usuários. Ele também perguntou sobre limitações políticas de plataformas como o Canva Pro, que por vezes bloqueiam imagens críticas a patrões, capitalismo ou figuras como Trump, e pediu indicações de ferramentas para gerar áudios longos, como programas de contação de histórias.

Sérgio Corrêa Vaz destacou que, historicamente, a direita tem tomado a dianteira no uso das ferramentas digitais, enquanto a esquerda tende a permanecer presa a métodos mais tradicionais. Para ele, o campo progressista precisa dominar essas tecnologias e “virar o jogo”. Em outra intervenção pelo chat, observou que não basta conhecer ferramentas: muitos ativistas de esquerda permanecem fechados em seus próprios grupos e participam pouco de debates em espaços mais amplos e heterogêneos, onde a disputa política também acontece.

Érica Aragão trouxe uma demanda específica: pediu indicação de alguma IA útil para fazer organogramas. A pergunta expressa uma dimensão cotidiana da oficina: a inteligência artificial não serve apenas para grandes campanhas ou debates sofisticados, mas também para resolver tarefas concretas de organização, planejamento, apresentação de estruturas e produção de materiais internos.

Tadeu Xavier, do Sindipetro NF, levantou questões sobre outras inteligências artificiais, como o DeepSeek, e sobre alternativas às plataformas estadunidenses. A pergunta abriu espaço para discutir dependência tecnológica, diferenças entre ferramentas, barreiras de acesso, idioma e custo. Vanessa respondeu apontando que há diferentes opções disponíveis, gratuitas e pagas, e que a escolha depende do objetivo: pesquisa, texto, vídeo, áudio, checagem, campanha ou produção cotidiana.

Vicente Pontes, do Sindipetro-RN, afirmou que, mesmo sendo leigo no tema, a oficina permitiu perceber a importância da inteligência artificial no dia a dia. Também destacou a relevância de profissionais como Vanessa para ajudar sindicatos e movimentos a enfrentar as fake news da direita. Sua fala mostrou um dos objetivos do Ciclo: aproximar dirigentes e militantes de ferramentas que, à primeira vista, podem parecer distantes, rápidas demais ou restritas a especialistas.

A questão da privacidade também apareceu com força. Vanessa alertou para os riscos de compartilhar informações sigilosas em plataformas digitais. Dados estratégicos de sindicatos, campanhas, negociações, listas internas, documentos sensíveis ou informações pessoais não devem ser jogados de forma descuidada em ferramentas controladas por grandes corporações. A orientação foi simples: usar IA, sim, mas sem ingenuidade. O ganho de produtividade não pode vir acompanhado de exposição desnecessária de informações estratégicas.

Ao final, Rita retomou um ponto político essencial para a comunicação sindical. As ferramentas podem ser exploradas por qualquer pessoa com disposição para aprender, mas o uso mais qualificado exige investimento. Assim como algumas versões mais potentes das plataformas são pagas, também é necessário investir em profissionais capazes de usar essas tecnologias com critério. Para Rita, a IA não deve substituir dirigentes nem comunicadores; deve servir para qualificar o trabalho de todos e ampliar a capacidade de disputar as batalhas políticas e e decomunicação que já estão em curso.

A terceira oficina do Ciclo do Barão deixou uma síntese prática: não basta temer a inteligência artificial, nem aderir a ela de forma acrítica. É preciso conhecer, testar, dominar, adaptar e colocar essas ferramentas a serviço da comunicação democrática, sindical e popular.

Num cenário em que a extrema-direita usa tecnologia para produzir confusão, medo e manipulação, sindicatos e movimentos precisam fazer o oposto: usar tecnologia para informar melhor, dialogar com mais precisão, fortalecer vínculos, produzir conteúdo de qualidade, checar informações e chegar a públicos que hoje estão fora das bolhas progressistas.

O Ciclo do Barão segue agora para a 4ª oficina, com Larissa Gold, sobre redes sociais — outro território decisivo para a disputa de ideias. Como lembrou Rita no encerramento, os algoritmos estão contra quem não tem dinheiro para impulsionar, as big techs jogam conforme seus próprios interesses, mas o campo democrático precisa aprender a navegar nessas redes para travar suas batalhas.

As entidades inscritas estão convocadas a acompanhar as próximas atividades, rever as gravações, testar as ferramentas apresentadas e transformar o aprendizado em prática. A comunicação sindical não pode ficar para trás. A disputa de 2026 já acontece nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nos vídeos curtos, nas comunidades digitais e nas ferramentas de inteligência artificial – precisa também ir pras ruas, pros locais de trabalho, pros territórios populares. Preparar-se para esse terreno é parte fundamental da defesa da democracia, dos direitos e da organização da classe trabalhadora.

 Programação do Ciclo


05/05 3af 19h: OFICINA 1

O movimento sindical e a disputa eleitoral de 2026
Situar o papel do movimento sindical no atual cenário político e eleitoral, destacando sua responsabilidade na defesa da democracia e dos direitos sociais; como a pauta dos trabalhadores estará presente na disputa.
Condução temática: Altamiro Borges

07/05 5ª f 19h: OFICINA 2

Desinformação: como identificar e como agir
O que é desinformação e por que ela funciona; padrões recorrentes de ataque ao sindicalismo; quando e como responder.
Condução temática: Ergon Cugler

12/05 3af 19h: OFICINA 3

Inteligência artificial: como usar e como não ser enganado
Apresentar ferramentas e utilizações possíveis da inteligência artificial na comunicação sindical e capacitar para a identificação de seu uso indevido.
Condução temática: Vanessa Martina-Silva

14/05 5af 19h: OFICINA 4

O eterno desafio: como atuar nas redes
Qualificar a atuação sindical nas redes sociais: como ter relevância apesar do viés antissindical dos algoritmos.
Condução temática: Larissa Gould

19/05 3af 19h: OFICINA 5

Comunidades digitais com propósito
Como construir e fortalecer vínculos com a base utilizando ferramentas digitais.
Condução temática: Camila Modanez

21/05 5af 19h: OFICINA 6

O papel da Cultura – em especial do audiovisual – na disputa de ideias e valores

Filmes, documentários, podcasts, cursos, plataformas de streaming: conteúdos para a disputa de ideias e valores – como usar linguagem audiovisual para fortalecer vínculos.

Condução temática: Carlos Tibúrcio, comJoanne Mota eCélio Turino

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