Lições que o cinema brasileiro nos dá

Lições que o cinema brasileiro nos dá

Cinema brasileiro: reconhecimento mundial e exposição de contradições sociais. Sucesso de filmes reforça a necessidade de política industrial e de defesa da liberdade artística no país. (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

POR JUCA FERREIRA, ex-Ministro da Cultura.

Devemos prestar atenção a duas lições que o cinema brasileiro vem dando, porque só nos engrandecerá se formos capazes de levá-las realmente em conta.


1-A primeira lição, vem do sucesso que muitos filmes brasileiros vêm fazendo em todo o mundo e que é um reflexo do grau de desenvolvimento que a sétima arte atingiu entre nós. Prêmios nos principais festivais do mundo e o reconhecimento da qualidade de alguns dos nossos filmes. Essas notícias constantes estão chamando a atenção para a oportunidade de termos algo que nos falta, uma política industrial capaz de fazer do nosso potencial uma realidade e multiplicar esse sucesso, tornando-o perene e, pela constância desse sucesso, sermos capazes de ocupar um significativo quinhão do mercado internacional e de virmos a ser hegemônicos no mercado interno. Não podemos perder mais tempo, a lição já está dada.


2-A segunda lição, eu me lembro como se fosse ontem. O primeiro governo Lula mal começara, quando o Conselho Superior de Cinema escolheu Cidade de Deus para representar o Brasil no Oscar. Foi um pega prá capar… quase foi imediatamente substituído por um outro filme. O filme era considerado por muita gente um péssimo cartão de visita do Brasil, porque mostrava a miséria social, o ambiente social degradado e as entranhas do crime e do tráfico nas periferias, em particular do Rio de Janeiro. A violência e a miséria humana naquela favela brasileira, segundo essas pessoas, não deveria ser exposta. Vários argumentos foram utilizados para tentar bloquear a indicação. Até que iria prejudicar o turismo no Rio.

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O mal estar era imenso e o zum, zum, zum no meio cultural foi ficando insuportável. Era inaceitável para os que compreendem a importância da arte e da cultura para consolidar a democracia no Brasil e para os que acreditavam que nosso governo, que representava a luta contra a censura e o dirigismo cultural da época da ditadura, não podia admitir, nem em pensamento, em se utilizar de uma medida dessa natureza. Sugeri ao ministro Gil que eu fosse para o embate em defesa da indicação para protegê-lo do desgaste. Gil queria ir, mas entendeu que eu poderia defender sem desgastar a figura do ministro, central para o ministério e para a afirmação da política cultural que tínhamos em mente.
Foram dias muito tensos e intensos e todo o debate acabou servindo para fortalecer a cultura e as artes no governo.


Por fim, ficou pactuado que não seria utilizado censura de nenhum tipo para limitar a expressão artística e teríamos que aprender a conviver com as contradições e vicissitudes advindas da arte e da cultura e que, ao contrário, deveríamos prestar a atenção às mensagens dos nossos artistas e criadores, que Glauber Rocha costumava chamar de antenas da raça, para destacar o papel de antecipação que os artistas cumprem na sociedade , ao botar o dedo nas feridas que ainda não são do plano da consciência social.


Esse filme tem feito um sucesso enorme desde que se tornou conhecido e faz parte de várias listas dos 100 filmes mais importantes do mundo.

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