O luto performático e a violência contra corpos dissidentes

Vivemos a era do luto performático, da indignação que expira em vinte e quatro horas, do abraço digitado que não vira presença real. Confira o curta Aquele Casal.
JOANNE MOTA
O curta, Aquele Casal, de William de Oliveira, toca numa ferida antiga do país: a violência contra corpos que ousam amar fora da cartilha da ‘tolerância’. Não se trata apenas de um casal gay agredido; o filme toca em um Brasil que ainda espanca aquilo que não compreende, e depois pede silêncio como quem varre o sangue para debaixo do tapete.
Marco e Luciano aparecem diante de nós quebrados por fora e por dentro. O gesso, os hematomas, os pontos no rosto são evidentes, mas o filme sabe que a dor maior mora em outro lugar: no susto que fica, no medo que se instala, no gesto simples que vira ameaça. Sair de casa, voltar ao trabalho, cruzar olhares na rua — tudo se transforma em campo minado. É nesse terreno íntimo que o curta acerta em cheio.
Há algo de Clarice Lispector nisso: a percepção de que o verdadeiro drama acontece no silêncio entre duas pessoas, naquele espaço em que ninguém sabe nomear o que sente.

Quando Luciano se revolta com a solidariedade instantânea das redes, o roteiro encosta numa verdade desconfortável do nosso tempo. Vivemos a era do luto performático, da indignação que expira em vinte e quatro horas, do abraço digitado que não vira presença real. Quantos ataques ganham hashtags e perdem acompanhamento? Quantas vítimas recebem curtidas, mas não recebem proteção, emprego, escuta, justiça?
Se o filme evita detalhar demais o cenário político, o espectador brasileiro completa as lacunas sem dificuldade. Sabemos em que solo cresce esse tipo de violência: no discurso que desumaniza, na piada repetida na mesa de almoço, no líder que legitima o preconceito, na covardia coletiva que normaliza agressões. Homofobia não nasce do nada; ela é cultivada como erva daninha quando a sociedade relaxa a vigilância em defesa de princípios como humanidade e solidariedade.
Há ainda um traço de João Cabral de Melo Neto, poeta da secura e da matéria dura. Nada no filme busca melodrama fácil. A dor aparece enxuta, econômica, sem violinos emocionais. Como em Morte e Vida Severina, a existência se mostra atravessada por brutalidades concretas, e justamente por isso comove mais. Não há excesso: há verdade.



Marco e Luciano resistem nesse mesmo campo do possível estreito. Resistir, aqui, não é fazer discurso heroico. É levantar da cama. É abrir a porta. É tentar trabalhar. É tocar a mão do outro mesmo tremendo. O curta entende que sobreviver já pode ser um ato político.
Talvez alguns sintam falta de uma moldura social mais explícita, de mais contexto, mais rua, mais mundo. É uma crítica legítima. Mas há também potência em mostrar que toda violência pública desemboca numa cozinha silenciosa, num quarto frio, numa rotina desmontada – ou seja, no cotidiano real As estatísticas moram em casas concretas. Os números têm rosto inchado, sono ruim e medo de campainha.
Aquele Casal termina como o Brasil muitas vezes termina seus dias: sem triunfo pleno, sem catarse, sem garantias — apenas com um gesto discreto de esperança. E às vezes é isso que nos salva. Não a vitória grandiosa, mas o pequeno aceno entre sobreviventes, dizendo um ao outro: seguimos.
Assista e depois me conta o que você achou! Bom filme e boa sorte!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
