Morre Silvio Tendler, o “cineasta dos sonhos interrompidos”

Cineasta Silvio Tendler, uma das vozes mais importantes da cultura brasileira, faleceu nesta manhã aos 75 anos (Imagem: Reprodução/MST)
POR CARMEN MUNARI
Morreu na manhã desta sexta-feira (5/9), aos 75 anos, o cineasta Silvio Tendler, uma das vozes mais importantes da cultura brasileira. Conhecido como o “cineasta dos sonhos interrompidos”, Tendler nasceu no Rio de Janeiro em 1950. No fim dos anos 1960, passou a se dedicar ao cinema e, para escapar da ditadura militar, buscou exílio no Chile, mudando-se depois para a França em meados dos anos 1970, onde estudou história e cinema em Paris.
A produtora do cineasta deu a notícia da morte em postagem no Instagram: “Hoje, a Caliban se despede de seu fundador, o documentarista, utopista e admirador da vida, Silvio Tendler. Ele partiu aos 75 anos, após 57 de dedicação ao cinema nacional. Silvio deixa uma filha, um neto, mais de cem obras, incontáveis amigos, centenas de ex-alunos, uma legião de fãs e a semente da justiça social plantada em todos nós. O velório acontecerá no domingo, dia 7 de setembro, às 11h, no Cemitério Israelita do Caju, no Rio. Com amor, Equipe Caliban.”
Professor, historiador, fazedor cultural, ativista, Sílvio dedicou quase seis décadas ao cinema, transformando a sétima arte em instrumento de denúncia, reflexão e luta por democracia e justiça social. Deu voz a personagens que marcaram a história do Brasil, como Juscelino Kubitschek, João Goulart, Carlos Marighella, Leonel Brizola e Castro Alves. Foram centenas de documentários produzidos, 60 prêmios recebidos e uma contribuição inestimável para a preservação da memória nacional, com seu acervo particular de imagens, que reúne mais de 80 mil títulos sobre a História do Brasil e do mundo dos últimos 60 anos.
“Silvio Tendler acreditava, com toda a sua vida e obra, no poder transformador da cultura. Seu cinema foi espaço de memória, gesto de esperança, ato de coragem. Ele nos ensinou que cada história contada, cada imagem registrada, sustenta a esperança, mesmo nos tempos mais difíceis. Seu legado é imenso, gerações de cineastas e cidadãos conscientes, e uma obra que permanece como luz, abraço, lição. Silvio nos mostrou que a história não se domina, se atravessa, e que, mesmo quando o mundo pesa, é possível caminhar com coragem, ternura e esperança. Tendler está presente na cultura, na memória, na luta e no coração do Brasil”, disse o presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, Alexandre Santini.
Entre seus filmes, destacam-se os três documentários de maior público do cinema brasileiro: O Mundo Mágico dos Trapalhões (1,8 milhão de espectadores), Os Anos JK (1 milhão) e Jango (1,3 milhão). Tanto Os Anos JK quanto Jango acompanharam as reviravoltas da história recente do país, denunciaram o autoritarismo e alimentaram a esperança em tempos de luta.
Silvio costumava dizer: “O meu cinema é uma tentativa de participar das lutas políticas por transformação. Faça do cinema uma arma de luta, uma arma de reflexão, uma arma de pensamento.” Essa foi a marca de sua obra: um cinema comprometido com a memória e com o futuro, que jamais se rendeu ao esquecimento.
Silvio Tendler deixou um legado que transcende o cinema: um legado de coragem, compromisso e esperança. Em suas próprias palavras: “Sou movido à memória não como um refúgio no passado, mas como um refúgio para o futuro.” Hoje, o Brasil se despede de um artista imprescindível, cuja força criativa seguirá inspirando novas gerações. “Sou um utopista e acredito que a vida vai melhorar. Desistir, jamais.”
Um dos últimos trabalhos de Silvio Tendler foi o documentário “Brizola: Anotações Para Uma história”. Um mergulho na vida e nas lutas de Leonel Brizola, uma das figuras mais emblemáticas e controversas da política brasileira. Através de registros inéditos e depoimentos de aliados e críticos, o filme traça a trajetória do líder que marcou época com sua visão progressista e defesa incansável da educação pública. Uma jornada emocionante que revisita momentos decisivos da história recente do Brasil, iluminados pela coragem e paixão de Brizola, segundo a sinopse fornecida pela produção do cineasta. Segue o trailer:
Sua filmografia pode ser conferida no portal da Caliban.
(Com informações da Fundação Casa de Rui Barbosa e do portal da Caliban)

Jornalista, ex-Folha, Reuters e Valor Econômico.
