Mostra Esporte e Sociedade: conheça o Brasil que existe para além do placar
Essa Mostra apresenta um olhar para o esporte não apenas como espetáculo, mas como um espelho das contradições, das resistências e das esperanças que moldam o Brasil.
POR JOANNE MOTA
Em ano de Copa do Mundo, é quase inevitável que o país volte seus olhos para a bola. As ruas ganham bandeiras, os bares se enchem, as conversas de família terminam em escalações improvisadas e o futebol recupera seu lugar como idioma comum entre milhões de brasileiros. Mas a Mostra Esporte e Sociedade propõe um exercício mais profundo: olhar para o esporte não apenas como espetáculo, mas como um espelho das contradições, das resistências e das esperanças que moldam o Brasil.
O campo nunca foi apenas um campo. A quadra nunca foi apenas uma quadra. Desde sempre, esses espaços funcionam como territórios onde se disputam pertencimento, identidade e direitos. Atletas transformaram medalhas em protesto, camisas em manifestos e vitórias em plataformas para denunciar racismo, machismo, desigualdades sociais e violências estruturais. O esporte brasileiro atravessa todas as gavetas da cultura porque também atravessa todas as dimensões da vida.

A seleção de filmes da mostra traduz essa ideia com rara sensibilidade. Em Viventes, Fabrício Basílio acompanha a corrida cotidiana de um trabalhador desempregado para imprimir um currículo e revela que, muitas vezes, a maior maratona acontece longe dos estádios. A luta pela sobrevivência é apresentada como um esporte invisível, onde persistir já significa vencer.

Já Pelada, Futebol na Favela, de Alex Miranda, devolve ao futebol sua origem mais democrática. Antes dos grandes contratos, dos centros de treinamento milionários e dos gramados impecáveis, existe a rua de terra, o campinho improvisado e a criatividade de quem transforma qualquer espaço vazio em possibilidade de jogo. O documentário mostra que o sonho do futebol nasce muito antes dos holofotes, alimentado por comunidades que enxergam na bola uma linguagem coletiva.
Essa dimensão comunitária também pulsa em Sou Favela. Ao acompanhar a trajetória do A.E.C. Favela Futebol Clube, o filme revela que uma equipe de várzea pode ser muito mais do que um time: pode ser rede de apoio, memória afetiva e ponto de encontro entre gerações. O pertencimento construído ali desafia a lógica individualista e reafirma que o esporte é uma forma poderosa de produzir laços sociais.

Em Alcateia, o futebol se torna espaço de acolhimento e resistência para pessoas trans. O Trans United FC aparece não apenas como um time, mas como um território onde identidades encontram reconhecimento e afeto. Em um país marcado por altos índices de violência contra essa população, entrar em campo significa reivindicar o direito básico de existir, competir e celebrar coletivamente.
Talvez seja justamente por isso que Futebóis escolha o plural em seu título. O documentário de Bruno Badain e Luiz Ferraz rompe com a ideia de um único futebol brasileiro para mostrar que existem muitos: o do quilombo, o da periferia, o da várzea, o das crianças que improvisam traves com chinelos e o das comunidades que transformam o jogo em ferramenta de organização social. São histórias diferentes unidas pela certeza de que o esporte produz cultura e também produz cidadania.

Em tempos em que grandes competições movimentam bilhões e transformam atletas em marcas globais, a Mostra Esporte e Sociedade convida o público a reencontrar aquilo que o mercado muitas vezes tenta esconder: o esporte continua sendo um espaço de encontro humano. Nele cabem os sonhos individuais, mas também as lutas coletivas. Cada passe, cada corrida e cada campeonato carregam marcas profundas das relações sociais que os cercam.
Não por acaso, muitos dos maiores gestos políticos da história recente aconteceram justamente dentro das arenas esportivas. Quando atletas levantam a voz contra o preconceito ou quando comunidades organizam seus próprios campeonatos para ocupar territórios esquecidos pelo poder público, o esporte deixa de ser entretenimento e se transforma em linguagem de resistência. A disputa continua existindo, mas o verdadeiro adversário passa a ser a exclusão.

Assistir aos filmes da Mostra Esporte e Sociedade durante uma Copa é lembrar que o Brasil nunca coube apenas em noventa minutos. Nossa cultura é feita de dribles e também de enfrentamentos, de arquibancadas e de assembleias, de torcidas e de movimentos populares. Ao reunir histórias tão diversas, a mostra revela que o esporte não está separado da sociedade: ele é uma das formas mais intensas de contar quem somos, o que sonhamos e quais futuros ainda insistimos em construir juntos.
Confira a Mostra. Bons filmes!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
