Muribeca: um filme sobre memória, moradia e o Brasil que luta

Muribeca: um filme sobre memória, moradia e o Brasil que luta

Muribeca, um filme sobre o Brasil que luta todos os dias, o mesmo que chora suas perdas, mas se recusa a desaparecer sob os escombros da injustiça.

POR JOANNE MOTA

O documentário Muribeca (Brasil, 2020, 77’), dirigido por Alcione Ferreira e Camilo Soares, é um retrato sensível e contundente desse país que insiste em sobreviver. Não é apenas a história de um conjunto habitacional demolido; é a história de uma comunidade que viu seus prédios ruírem, mas não permitiu que suas memórias fossem soterradas junto com o concreto.

O Conjunto Habitacional Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes (PE), foi construído em 1982 com 69 blocos e 2.208 unidades. Durante décadas, foi casa, foi quintal coletivo, foi ponto de encontro, foi infância e futuro para milhares de famílias trabalhadoras. Entre 2005 e 2014, porém, o que era lar virou ameaça: interdições por risco de desabamento abriram uma ferida profunda na vida dos moradores. Após disputas judiciais longas e dolorosas, os blocos foram demolidos entre 2015 e 2019. No lugar das moradias, projeta-se um parque urbano.

Mas como bem ecoa no filme: Muribeca não tem preço, porque sonhos e experiências como as vividas ali não se compram. Retroescavadeiras podem derrubar paredes, mas não conseguem demolir lembranças. O abandono pode rachar estruturas físicas, mas não apaga o que foi semeado no cotidiano de quem construiu, com afeto e luta, aquele pedaço de cidade.

A sinopse resume com precisão o que a câmera transforma em poesia política: diante da transformação iminente de seus lares em uma cidade fantasma, moradores expressam a morte física de uma comunidade ainda viva na memória e nos sentimentos. A narrativa acompanha resistências, paisagens afetivas e lembranças que oscilam entre a nostalgia e a chama firme da esperança. Não é um filme sobre concreto; é um filme sobre vínculos.

Dirigido, roteirizado e fotografado por Alcione Ferreira e Camilo Soares, o documentário carrega a marca de dois profissionais profundamente conectados com Pernambuco e com as lutas sociais. Alcione, formada em jornalismo pela UFPE, foi fotojornalista sênior do Diario de Pernambuco e é vencedora de prêmios como o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Camilo, fotógrafo e professor de cinema na UFPE, também acumula reconhecimento: assinou a direção de fotografia de King Kong em Asunción, vencedor do Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado de 2020. A equipe conta ainda com som de César Ricardo, montagem de Paulo Sano, produção de Camilo Soares e produção executiva de Alba Azevedo. A trajetória e os prêmios desses realizadores ajudam a explicar a potência estética e política do filme.

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A força de Muribeca está em revelar que políticas públicas, quando tratadas apenas como números e laudos técnicos, podem se tornar frias a ponto de ignorar o elo fundamental do viver em comunidade. O filme denuncia a combinação perversa entre problemas estruturais, especulação imobiliária e um imbróglio burocrático que deixou moradores à deriva. Ao mesmo tempo, devolve humanidade àquilo que muitas vezes aparece apenas como estatística.

E o que aconteceu em Muribeca não é exceção. A história se repete em diversas cidades do país: conjuntos desapropriados, prédios interditados, populações removidas em nome de projetos que raramente dialogam com quem ali construiu sua vida. O documentário amplia o caso local para um espelho nacional, mostrando que a crise habitacional no Brasil é também uma crise de escuta, de planejamento e de compromisso social.

Há, no entanto, algo que insiste em florescer. O filme mostra que a comunidade não morreu — ela se transformou em denúncia, em memória ativa, em legado, cultura, em energia coletiva para enfrentar novas ameaças. Como uma árvore que brota no asfalto, Muribeca permanece viva nas histórias, nos afetos e na luta por moradia digna. Como se diz lá em Pernambuco, Muribeca é madeira que cupim não rói.

Assistir Muribeca é olhar para o Brasil profundo, aquele que resiste mesmo quando tudo parece ruir. É compreender que o direito à moradia vai muito além de paredes e telhados: é o direito de pertencer. Essa história de luta e resistência pode ser conferida na plataforma FatoFlix. Vale o tempo, vale a reflexão — e, sobretudo, vale a memória de quem nunca desistiu de existir. Assista!

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