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“Nunca mais” na Argentina

“Nunca mais” na Argentina

“Argentina, 1985” perdeu a disputa do Oscar mas em abril receberá o Prêmio Platino do Cinema Ibero-Americano, a ser entregue em Madri

Por Léa Maria Aarão Reis

Três motivos nos fazem entender por que o documentário político “Argentina, 1985” vem fazendo tanto sucesso, em particular no Brasil, desde o começo da sua carreira em festivais internacionais. O primeiro, o fato de esmiuçar os bastidores políticos do país vizinho e relatar alguns dos impressionantes testemunhos nas audiências, momentos eletrizantes do filme do julgamento de comandantes militares argentinos numa corte civil; e não em tribunal militar. Um processo que culminou com uma sentença histórica de condenação da maioria deles proferida no dia 18 de outubro de 1985.

A segunda explicação vem do relato de como os procuradores que trabalharam nesse processo conseguiram conquistar a opinião pública conservadora das classes médias portenhas de forma que, na sua maioria, elas reconheceram culpa e responsabilidade em crimes de tortura cometidos por generais, almirantes e brigadeiros na rotina das prisões, nos desaparecimentos de centenas de pessoas, em assassinatos praticados durante a ditadura argentina entre 1976 e 1983.

O general Jorge Rafael Videla e o almirante Emilio Massera foram julgados e condenados segundo as leis vigentes contrariando o que antes uma parte da burguesia reacionária portenha considerava: opositores do regime militar eram inimigos e, portanto, deveriam ser eliminados.

O terceiro motivo para o sucesso de “Argentina 1985” em particular aqui, entre nós, é o fato, mais uma vez denunciado e reforçado em entrevista recente de Luis Moreno Ocampo, advogado, professor e promotor que trabalhou no julgamento de Buenos Aires com o procurador Julio Strassera: ”Países que não puniram militares, como Brasil e Espanha, sentem reflexos até hoje nas práticas de assassinato e tortura nas polícias. No Brasil, vocês não investigaram o passado,” ele diz.

E acrescenta o que estudos e pesquisas já nos informaram seguidas vezes: não investigar a ditadura de 1964 no Brasil faz a polícia continuar praticando tortura e assassinatos até hoje. Para juízes, promotores e jornalistas ouvidos inclusive pela BBC, os relatos  da maioria de vítimas e dos seus familiares, durante os cinco meses de duração do processo de Buenos Aires foram decisivos para as condenações e para ganhar o apoio da opinião pública.

”Os especialistas em ciência política, na época, diziam que “não se devia incomodar os regimes anteriores”, OCampo lembra.

Algumas frases, cenas e sequências do doc têm um peso especial: ”O sadismo não é ideologia; é perversão moral”, Strassera escreve na sua sentença. E um dos militares, aos berros, gritando ao sair da sala do tribunal onde acabara de ser condenado e se dirigindo ao público que aplaudia: ” Filhos da p…”

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Algumas Mães da Praça de Maio nas audiências, em silêncio, não autorizadas a cobrirem os cabelos com seus lenços brancos de protesto. E outra frase desferida aos advogados de defesa dos chefes militares silenciados: ”Quantas vítimas (desses crimes) eram inocentes”?

Ocampo em entrevista à TV na fase final do processo: “É o fim da morte e da violência como instrumentos da política”. Luta de classes no ambiente familiar do jovem Ocampo: “Temos que conquistar a opinião da classe média para alcançarmos legitimidade junto a ela”. Presente em uma sequência de jantar festivo, filho de classe média e sobrinho de general, o jovem procurador enfrenta parentes e a própria mãe.

“Nas leis há brechas. Podemos responsabilizar, sim, os ditadores militares”. Um diálogo entre o procurador e seu adjunto.

Com as ameaças anônimas a Strassera e à sua família, ele passa a andar de metrô e não dirige mais seu carro; guarda-costas são contratados.

Hoje, Luis Moreno Ocampo é professor e dá aulas no curso de Cinema da Universidade do Sul da Califórnia, nos EUA. Aulas sobre filmes de tribunal. “Um caso bem contado na tela pode consolidar e renovar uma vitória no julgamento real”, ele argumenta e acrescenta:

 “Penso que filmes de memória da prática de crimes políticos podem evitar novas rupturas institucionais como ocorreram com algumas  investidas depois do julgamento de 1985. Quando houve novas tentativas de golpes militares o povo reagiu”.

Cerca de trinta mil pessoas morreram durante o período da ditadura militar na Argentina. Julio Strassera faleceu com 82 anos em 2015. Campo hoje tem 70 anos. Eles popularizaram a expressão “Ditadura na Argentina, nunca mais”.

O contundente filme de Santiago Mitre, de 42 anos, é produzido pelo astro do cinema Ricardo Darín (que faz Strassera) e co-protagonizado por Peter Lanzani, de 32, (personifica o então estreante Ocampo), um dos atores mais populares entre os jovens argentinos de hoje.

Apesar de Darín, pessoalmente, estar acompanhando a estréia do documentário em vários países, ”um filme em defesa da democracia”, como ele diz, com o objetivo declarado de dar visibilidade máxima ao assunto, e dele ter sido pré-indicado ao Oscar deste ano na categoria Filme Internacional, mesmo assim “Argentina, 1985” perdeu para uma das bilionárias produções ao estilo antigo de Hollywood premiadas esta semana com a maioria das estatuetas douradas.

Mas o documentário de Santiago Mitre está em exibição na plataforma Amazon Prime enquanto não entra nos cinemas em cadeia nacional. No próximo dia 22 de abril receberá o importante Prêmio Platino do Cinema Ibero-Americano, a ser entregue em Madri e o Canal Brasil transmitirá a festa.

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