O cinema que não viraliza e a força em ‘Pela Passagem de uma Grande Dor’

O cinema que não viraliza e a força em ‘Pela Passagem de uma Grande Dor’

Há histórias que o cinema comercial não conta — e é justamente nelas que mora a urgência de existir. Confira ‘Pela Passagem de uma Grande Dor‘ na Fatoflix.

POR JOANNE MOTA

Dirigido por Bruno Polidoro e inspirado na obra de Caio Fernando Abreu, Pela Passagem de uma Grande Dor é mais do que um curta de 16 minutos. É uma prova viva de por que o cinema alternativo segue sendo uma trincheira essencial na disputa por narrativas, memória e humanidade.

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Longe das fórmulas prontas e dos roteiros pasteurizados, o filme mergulha no cotidiano de personagens atravessados por afetos, desejos e dores que raramente encontram espaço nas grandes telas. Aqui, não há concessões: o que se vê é a vida como ela é para muitos corpos dissidentes — marcada por preconceito, solidão e, sobretudo, resistência.

O cinema alternativo cumpre exatamente esse papel: abrir frestas onde o sistema tenta erguer muros. E Polidoro faz isso com precisão. Sua adaptação respeita a densidade da escrita de Caio e traduz para o audiovisual aquilo que o autor sempre fez com maestria — expor fragilidades humanas sem filtros, mas com uma sensibilidade cortante.

Em tempos de algoritmos e conteúdos pensados para agradar a todos, Pela Passagem de uma Grande Dor escolhe o caminho oposto: incomoda, provoca, desloca. E é aí que reside sua força. Como escreveu Caio Fernando Abreu, “não existe isso de final feliz, o que existe é história bem contada” — e este filme é exatamente isso: uma história que não busca conforto, mas verdade.

A solidão que atravessa o curta é profundamente contemporânea. Mesmo em um mundo hiperconectado, os personagens vivem o desencontro, o não-dito, o afeto interrompido. É uma solidão coletiva, compartilhada por uma comunidade que historicamente teve suas experiências invisibilizadas.

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E é justamente nesse ponto que o cinema alternativo se torna indispensável. Ele não apenas representa — ele reconhece, valida e cria pertencimento. Ao colocar no centro as subjetividades LGBTQIAPN+, o filme rompe com a lógica de marginalização e afirma: essas histórias importam, essas vidas importam.

A estética enxuta, os silêncios carregados e os diálogos densos reforçam que não é preciso grandes orçamentos para produzir impacto. O que move o filme é a verdade que ele carrega. E, muitas vezes, é no pequeno, no independente, no fora do circuito que encontramos as narrativas mais potentes.

Premiado como Melhor Curta de Ficção no 17º SET Universitário da PUCRS, o filme reafirma a força de uma produção que nasce à margem, mas que dialoga diretamente com o centro das questões humanas. Como diria Carlos Drummond de Andrade, “o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente” — e é exatamente isso que o curta entrega.

Mais do que assistir, é preciso se deixar atravessar por obras como essa. Porque o cinema alternativo não é apenas uma escolha estética — é um ato político, um gesto de escuta e um compromisso com aquilo que insiste em não ser silenciado.

Pela Passagem de uma Grande Dor está disponível na plataforma FatoFlix. Dá o play — e permita que essa história te encontre.

Bom filme!

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