O espírito de Noel na sua Vila Isabel

Em um momento em que o planeta vive dias sombrios, incidentes dramáticos e poucas expectativas de sobrevivência em paz e em segurança, se faz necessário assistir a um filme que, pelo contrário, traz luz, alegria e uma irresistível música sacudida: o samba brasileiro de raiz, da melhor qualidade, de Noel Rosa com certeza, e do bairro onde o compositor viveu. Nele, seguimos os rastros de Noel, morto aos 26 anos, deixando um legado de cerca de 250 músicas que celebram a plenitude da vida.
É terapêutico assistir ao documentário musical Um Espírito Circulante, com estreia esta semana nos cinemas. Ele vem proporcionar descontração ao ambiente soturno atual com um passeio despretensioso e encantador ao bairro histórico de Vila Isabel, fundado para moradia dos trabalhadores da fábrica de tecidos Confiança, e um dos ícones geográficos do Rio de Janeiro.
Guiando esse passeio, o personagem maior só podia ser o espírito de um Noel Rosa eterno, sem idade, orgulho da região e cultuado de diversas formas até hoje por lá. Numa calçada central, a sua estátua, de bronze em tamanho natural, com ele sentado em uma mesa de bar, tem a companhia frequente dos passantes que se sentam ao seu lado e olham o tempo passar. Ou clientes de clubes como o clássico Renascença, ou de botequins “de boa música e boa comida às duas da tarde”, como enfatiza um entrevistado.
Quem dá a direção do rumo do filme é um grupo de compositores e de intérpretes magistrais, também eles históricos, e que embalam o doc na formidável trilha organizada por Henrique Cazes e direção musical de Fábio Niño.
O desfile de minientrevistas e de trechos de sambas emblemáticos se inicia com Nilze Carvalho, Mart’nália, Moacyr Luz, José Renato, a grande Aracy de Almeida contando seu primeiro encontro com Noel e cantando Feitiço da Vila, de 1934.
Seguem Toninho Geraes, com Toda Hora e Samba do Trabalhador, Mestre Mug e os Tangarás cantando Coisas Nossas, de Noel, e Vamos Falar do Norte. Edu Krieger, com Aos 27, e as “mães de samba, mulheres do ano 2000”: Maria Flor Freire e Euza Borges.
Na deliciosa roda de conversas de Eliana Custódio, os debates: o samba nasceu na Praça Mauá ou na Lapa? O samba nasceu nos terreiros ou na Vila? E Noel, referência, usando sempre a sua camisa preta, seria um “erudito”? Braguinha lembra, mais adiante: “Ele era um grande boêmio; ele não dormia, desmaiava”.
A voz inconfundível da narração de Haroldo Barbosa; outra voz, a de Russo do Pandeiro, e Cartola dizendo “todo mundo no samba”, um primor; mais Palpite Infeliz, de 1935, cantado com vontade. “A Vila é branca e azul”, lembram os sambistas e os moradores do bairro que se estende aos pés da bonita Serra da Carioca que se vê no fundo da tela.
A diretora de Um Espírito Circulante é a jornalista carioca radicada em Curitiba, Joana Nin, que já fez dois longas, Cativas – Presas pelo Coração e Proibido Nascer no Paraíso, além de um curta premiado no Festival É Tudo Verdade e em festivais de Minas e de Pernambuco.
Sua linguagem cinematográfica é viva, os cortes são exatos, as entrevistas com músicos, cantores e compositores têm espontaneidade, timing e sem a pontuação artificial e a mesmice de alguns docs assentados em depoimentos. O espectador se vê envolvido e entretido durante pouco mais de uma hora de duração do filme, desde o longo travelling da introdução situando o bairro de Vila Isabel com a moldura da serra ondulada.
A feliz inspiração surgiu há mais de dez anos, quando Joana mudou para a rua Noel Rosa, na Vila. Um dia, fazia compras em um mercado onde funcionou a Fiação e Tecidos Confiança quando ouviu uma incompreensível sirene muito alta. Era a tradicional sirene da fábrica que continuava soando, lembrando a hora da entrada e da saída dos operários e operárias que lá trabalhavam.
“Descobri que era uma tradição mantida em respeito à memória local e aquilo me fascinou. Logo lembrei da música de Noel, Três Apitos. A inspiração estava diante de mim”, conta Joana Nin.
A conclusão do filme chega com ternura, com Edgar Duvivier e com Fita Amarela. Cartola canta A Vila Emudeceu, Ninguém é Imortal, de 1937, ano em que o jovem gênio da nossa música morreu.
E todos pedem: “A bênção, Noel!”

Jornalista.
