O fio de Ariadne: arte contra o negacionismo e a guerra cultural – parte 1
Ensaio sobre realidade, consciência e cultura trata do avanço do tecnofeudalismo, a crise do real e o papel da arte como caminho para enfrentar a guerra cultural, o negacionismo e a manipulação algorítmica.
POR CÉLIO TURINO
O grande desafio do momento atual é caracterizado por um descolamento da noção de realidade, não se trata apenas de relativização conceitual ou epistemológica, mas de algo mais profundo, como uma fissura na própria experiência histórica. O presente torna-se contínuo e sem espessura, como se o tempo tivesse perdido a memória de si mesmo. Aquilo que antes se apresentava como mundo vivido, partilhado no tempo e no espaço, dissolve-se agora em fluxos de imagens, signos e representações. No entanto a realidade não se esgota no que já existe e transita entre a herança recebida e a antecipação do vir-a-ser. A proposta desse ensaio é incitar a distinção entre memória e ilusão até que volte a ser possível enxergar aquilo ainda não parido, mas que pode nascer. Ou não. Dessa capacidade de discernir o real em meio à poluição informacional conseguiremos recuperar na história as possibilidades que permanecem abertas em seu interior, voltando a compreender a realidade de modo a transformá-la.
Com a espetacularização da vida, realidade aumentada, redes sociais alimentadas pelo hedonismo, individualismo e superficialidade, manipulação algorítmica, a inteligência artificial, e tudo o mais que se soma a esse cenário, o deslocamento da realidade acontece em progressão geométrica, via bits e bytes. O desafio da Cultura está em auxiliar a humanidade a se assenhorar da realidade, rompendo com a afirmação da aparência para superar esse ambiente triste e opressor. Em tempos de espetáculo permanente, a verdade raramente se apresenta como evidência estável, surgindo apenas como um lampejo que rasga a superfície lisa das imagens.
“O espetáculo domina os homens vivos quando a economia já os dominou totalmente. Ele nada mais é que a economia desenvolvendo-se por si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores.”[1]
“Tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação. […] O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo”[2]. O livro A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, antecipou análises que, na terceira década do terceiro milênio, tornam-se assustadoramente evidentes. A espetacularização da vida consolidou uma visão de mundo que se objetivou na relação social mediada por imagens e aparências, quando a “…realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo”[3]. Essa invasão não ocorre de forma ruidosa, ao contrário, instala-se de maneira silenciosa, como se fosse natural, produzindo uma alienação recíproca fundada na afirmação da aparência, até que as pessoas já não tenham clareza de como foram coisificadas. É o império do nada que chega tão somente a ele mesmo, criando o “nada idiotizado”.
Um vazio que se multiplica em imagens e ecos de imagens, como se a própria civilização passasse a contemplar as ruínas de seu sentido enquanto continua a caminhar. Realiza-se, assim, um Poder Absoluto a gerir uma sociedade aprisionada e incapaz de perceber as paredes de sua própria prisão. O “nada idiotizado” produz uma sociedade inapta ao diálogo e à reflexão, movida por impulsos e aparências. Essa perda de sentido e de unidade do mundo, em que a linguagem comum da separação prevalece, vai fabricando a alienação em estado concreto. Consequentemente, a compreensão da própria existência dissolve-se em uma acumulação que se torna imagem e a grande fonte de reprodução do Capital, agora sob a forma de tecnofeudalismo, também conhecida como o mundo das BigTechs e do Capitalismo de Plataforma. Nesse regime, o domínio não se organiza apenas pela propriedade das fábricas, mas pela captura dos fluxos de atenção, dados e desejos. Ainda em Debord, em texto de 1967:
“As pessoas admiráveis em quem o sistema se personifica são conhecidas por aquilo que não são; tornam-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida individual mínima. Todos sabem disso.”[4]
Atualíssimo. Cabe, ou melhor, caberia, à Cultura possibilitar a fusão do conhecimento e da ação, produzindo condições práticas para o florescimento de uma consciência coletiva emancipatória. Pessoas só se movimentam no mundo com autonomia e liberdade quando conseguem perceber a realidade em que vivem. A Classe da Consciência não constitui uma posição econômica determinada e sim uma condição histórica alcançada quando indivíduos e coletividades deixam de viver apenas como objetos dos processos sociais e passam a reconhecer-se como sujeitos da transformação. Não se trata apenas da relação clássica entre detentores dos meios de produção e força de trabalho, ela está além, pois ultrapassa essencializações e identidades cerradas. Trata-se de uma relação mais profunda entre aqueles que ainda conseguem perceber-se como sujeitos da história e aqueles que estão sendo tragados pelo tsunami da coisificação.
A ideia de Classe da Consciência não nasceu agora, ela me acompanha há décadas, ainda que sob diferentes nomes e formulações. Em minha dissertação de mestrado, posteriormente publicada no livro Na Trilha de Macunaíma, já estava presente a percepção de que a emancipação humana não depende apenas das condições materiais de existência, mas também da capacidade de produzir sentido sobre a própria vida. Ao refletir sobre a redução da jornada de trabalho compreendi que o Tempo Livre não representa apenas descanso ou lazer, devendo ser entendido como a fresta, o respiro em que as pessoas podem encontrar a possibilidade de elaborar identidades transversais, desenvolvendo sensibilidades, compartilhando experiências e transformando vivências dispersas em consciência coletiva. Mais que no ambiente de trabalho, cada vez mais fragmentado e colonizado por metas, isolamento, cansaço e competição. Nascida no território do tempo livre, a Classe da Consciência poderá fazer germinar com mais força as lutas sociais na contemporaneidade, impulsionando projetos de futuro e a percepção que o indivíduo tem de si como sujeito da história.
Essa mesma questão reaparece na interpretação que faço sobre a obra Macunaíma, de Mário de Andrade. O embate entre Macunaíma e o Gigante Piaimã não pode ser reduzido à oposição simplista entre herói e vilão. Trata-se também de um confronto simbólico entre a potência criadora da cultura popular e as forças que buscam capturá-la, domesticá-la ou convertê-la em objeto de dominação. Macunaíma vence não pela força bruta, mas pela astúcia, pela imaginação, pela capacidade de transitar entre mundos e reinventar significados. É um combate travado no campo da cultura, da sensibilidade e da inteligência coletiva.
Logo após haver escrito “Na trilha de Macunaíma” fui trabalhar no Ministério da Cultura e, ao formular a Cultura Viva, aprofundei essa intuição; mais que isso, encontrei e experimentei na prática. Não concebi o conceito de Ponto de Cultura apenas como equipamento, projeto ou política pública de transferência de recursos para organizações culturais de base comunitária; reduzi-lo a isso[5] não é apenas um equívoco, como também um grave erro, demonstração de desprezo com a energia criadora dos povos que, na aparente benevolência, mantém intocadas as hierarquias culturais. Ponto de Cultura é um conceito que transforma beneficiários em sujeitos, espectadores em criadores, indivíduos isolados em comunidades de sentido, um espaço de produção de consciência, lugar onde pessoas historicamente tratadas como objetos das decisões alheias descobrem-se autoras de suas próprias narrativas. O protagonismo cultural é, antes de tudo, protagonismo existencial.
Dessa trajetória emergiu a noção de Classe da Consciência, que encontrei primeiro como citação pouco desenvolvida em Debord e fui aprofundando, ainda que de forma incompleta e inicialmente um tanto quanto intuitiva [6]. Não uma classe definida pela posição econômica, ou relação com o trabalho, renda ou ocupação profissional, mas pela capacidade de reconhecer-se como sujeito da transformação histórica. Uma classe que atravessaria posições sociais, territórios, gerações e identidades, formada quando seres humanos recusam a condição de coisa, rompem as amarras da alienação e assumem a responsabilidade de interpretar criticamente o mundo para nele agir. Não é um conceito que substitui as classes sociais duras, nem desconsidera os conflitos materiais que estruturam a sociedade, ao contrário, surge nesse ambiente. Mas procura dar um salto prático como dimensão reflexiva e emancipadora, e pode ser a força motriz presente em todas as lutas que buscam afirmar a dignidade humana, a liberdade e o direito de imaginar futuros diferentes daqueles que o poder considera inevitáveis. Num mundo em desmaterialização, quem sabe não seria essa classe, igualmente imaterial, a classe da emancipação no século XXI.
Nem tudo deu certo, talvez nem pudesse dar. O mundo mudou menos do que sonhávamos e mais do que imaginávamos, algumas conquistas permaneceram, outras se perderam, outro tanto ainda aguardam seu tempo. Não há motivo para triunfalismo. Tampouco para desistência. O que foi semeado continua vivo, ainda que por vezes quase invisível. Há épocas em que a esperança parece reduzir-se a um fio, mas um fio não é nada desprezível, com ele se tecem redes, se costuram feridas e se encontra a saída dos labirintos. O futuro depende justamente da capacidade de reconhecer esse fio e segurá-lo com firmeza quando tudo ao redor convida ao abandono.
Hoje, um explorado também pode ser proprietário de parte dos meios de produção. O trabalhador por aplicativo possui seu automóvel, motocicleta ou bicicleta -ou arrenda-, assume os custos de manutenção de seus meios de trabalho e submete-se a jornadas estafantes. Ao mesmo tempo em que se sente dono de seu tempo e meios, é explorado pelo aplicativo que intermedeia a conexão e apropria-se da maior parte do valor gerado por seu esforço. É burguês ou proletário? O dono de uma cozinha com equipamentos e instalações, trabalhadores assalariados a seu serviço, igualmente dependente das plataformas digitais para vender seus produtos, com ponto comercial, mesas, garçons e serviço de entrega, também se vê submetido ao capitalismo de plataforma. O que era um pequeno burguês torna-se o que?
Nessas zonas de ambiguidade entre propriedade dos meios de produção e relações de trabalho, também surge uma nova classe. A classe do cansaço? (como desdobramento do que aponta Byung-Chul Han). Entre os demais fazeres e saberes há também os descartáveis e descartados, a classe dos excluídos, abandonados e desvalidos. Outros acreditam estar escalando ao topo e, subitamente, percebem-se rolando encosta abaixo. Esse deveria ser também o território das políticas culturais, mas elas hoje sequer o tangenciam. Tudo o que vemos, ouvimos e sentimos tornou-se relativizado e negado. Nesse terreno instável, consolidou-se aquilo que aqui pretendo chamar de Poder Absoluto, conforme busco descrever.
O Poder Absoluto não é um sujeito oculto, ou um governo secreto ou uma vontade única conduzindo a história, não se trata de conspiracionismo, mas da convergência histórica entre capital financeiro global, plataformas digitais, militarismo e supremacismo, combinados com sistemas algorítmicos de controle da atenção e estruturas de produção simbólica. Essa fusão é capaz de moldar percepções, desejos e comportamentos em escala planetária como um poder difuso. Justamente por isso, mais difícil de ser percebido. Um poder que não precisa impor-se pela força direta – mas também a utiliza e mata com crueldade, quando se faz necessário para sua preservação – porque coloniza e aprende a habitar a própria formação das consciências. Ele é o resultado histórico da concentração sem precedentes dos meios de produzir riqueza, informação e sentido. O Poder Absoluto estabelece-se para “dar as cartas” em um jogo que só é plenamente real para a microminoria situada no topo das estruturas de poder. A Classe dos multimilionários, alguns deles trilionários. Essa classe não deveria existir, é parasita e cancerígena, sendo resultado, por meio da chamada Inteligência Artificial, do grande roubo do mundo; ou melhor, pilhagem, saqueio de todos os conhecimentos da humanidade. As Bigtechs deveriam ser expropriadas e transformadas em Bem Comum, porque, se continuarem existindo, levarão o planeta ao colapso.
A forma histórica do Poder Absoluto constitui uma arquitetura de poder que arromba fronteiras, governos e instituições sem rosto único ou trono identificável. Seu caráter absoluto não deriva da onipotência, mas da pretensão de converter tudo em mercadoria, subjetividades em dado e imagens, e fluxo em acumulação. É nesse terreno que a realidade passa a ser administrada como representação e a experiência humana, em todas as suas dimensões, é convertida em ativo econômico via coisificação. Mas há uma fresta, tambor de dentro, um fio de esperança que vai nos dar força para derrotar o Gigante Piaimã, como na alegoria de Macunaíma. Ao menos quero crer, pois a esperança também se segura por um fio. Ainda assim, resiste.
A complexidade dessas relações afeta a consciência para além de momentos mais estruturados da história. As pessoas (nós, eu, você) estão em desarmonia consigo mesmas; vive-se de um jeito, trabalha-se de outro, pensa-se de forma diferente daquela com que se age. É um sentir, pensar e agir em permanente contradição; inclusive na relação com a própria existência.
A humanidade do século XXI está sendo expropriada do sentido do real e devorada no labirinto do Minotauro de forma espetacularmente banal. Esse labirinto já não é apenas arquitetura, tornou-se Sistema em que cada corredor conduz a outro, e nesses corredores há espelhos, e a cada novo espelho, outra imagem, até que a saída desaparece na multiplicação das passagens. A autonomização da esfera cultural sob a sociedade do espetáculo é chave para compreender a lógica de acumulação tecnofeudal. O fato é que esses Senhores da Guerra (em sentido literal), da vida e da morte (igualmente em sentido literal) recorreram a Dédalo para a construção de labirintos infinitos, com entradas e saídas múltiplas. Mas cuja saída jamais é encontrada.
Sob esse admirável mundo novo, simultaneamente avançado e regressivo, a atividade central da acumulação já não depende da aquisição real dos produtos, mas da sensação de prazer produzida pela imagem do produto. Em muitos casos o produto sequer precisa existir plenamente, basta sua representação. Como num grande mercado de espectros, o desejo passa a circular antes do objeto. Muitas vezes sem ele, porque seguir um influencer pode bastar.
[1] DEBORD, Guy – A sociedade do espetáculo, pgs. 17/18 – Ed. Contraponto, 2004
[2] Idem, pg. 13
[3] Idem, pg 15
[4] Idem, pg. 41
[5] Como considero que está acontecendo atualmente
[6] Pretendo aprofundar o conceito em reflexão futura, que nasce da convergência entre Marx, Mário de Andrade, Debord, a experiência da Cultura Viva e a reflexão sobre o Tempo Livre como espaço de formação da consciência. Nesse trabalho, que já iniciei a escrita, também irei aprofundar os conceitos de Poder Absoluto, classe do cansaço e classe dos descartáveis (e matáveis). Também trato do conceito no poema “A era das indignações” (in. FIOS DA HISTÓRIA – ed Clóe)

Historiador, escritor, formulador do Cultura Viva e do Programa Pontos de Cultura e Secretário do Ministério da Cultura na gestão Gilberto Gil e Juca Ferreira no Governo Lula
