O MURO

POR CÉLIO TURINO
Clique aqui e confira a leitura do poema O Muro de Célio Turino.

PORTUGUÊS
Cultura Viva Comunitária,
fraternidade sem muros,
povo sem fronteiras,
humanidade sem limites.
Silêncio…
Psiu!
Silêncio…
Vamos escutar
a claridade,
o sol que nos aquece.
Dissipem-se…
Desvaneçam-se…
Vamos enxergar
o vento,
a corrente de ar que nos atravessa.
Sintam os raios de luz,
pensem na brisa…
Para eles
não há fronteiras,
nem limites,
nem muros.
Escutaram?
Enxergaram?
Sentiram, pensaram?
Gente da Cultura Viva Comunitária,
povo da fraternidade sem muros,
de todos os cantos
de todas as danças,
de todas as histórias,
de todos os lugares.
Gente desse nosso vasto continente
que cruza o mundo
do sul ao norte
como espinha dorsal
a sustentar o planeta.
Gente dos mil povos,
da humanidade sem limites.
Escutem, enxerguem, sintam, pensem…
Esta terra que pisamos não tem dono,
não tem pátria, nem patrão,
nem bandeira, nem rei…
apenas trilhas abertas pelo passo antigo.
A humanidade se fez migrando
desde os primeiros que partiram da savana africana,
eles cruzaram rios,
desertos, florestas e montanhas,
oceanos…;
a humanidade se fez em mistura,
mestiçagem,
do homo sapiens com neandertais
até os dias atuais,
até estarmos aqui.
Vejam!
não há muro que detenha o vento,
não há fronteira que impeça o sol,
não há limite que barre a humanidade.
Sintam!
E digam:
Também não haverá soldado que pare o passo,
nem trator que corte raízes.
Vejam novamente!!
Mirem nos olhos de cada um,
percebam as cores, as formas,
expressões,
tão diferentes e tão iguais,
somos humanos
não importa onde nascemos,
nem a história de nossos pais,
carregamos vida na bagagem
fogo no coração
voz no pulmão.
Sintam mais uma vez!
Somos coração e razão,
nosso verbo,
o verbo da Cultura Viva,
é Corazonar,
verbo dos seres sentipensantes,
daqueles que agem com razão e emoção.
Somos verbo, vento, passo, raízes…
E ação!
Raízes resistem
racham paredes,
derrubam muros,
rompem cicatrizes.
Passos empurram,
levam adiante,
caminham ao horizonte,
arremetem ao futuro.
Ventos sopram,
rasgam fronteiras,
arejam o ambiente
atravessam barreiras.
Ação é verbo,
são pessoas, tempo, modo e voz;
pelo verbo
arrebentaremos muros,
atravessaremos barreiras,
caminharemos ao horizonte,
à utopia,
ao infinito.
Pelo verbo
a humanidade
ainda vai
reencontrar
suas raízes
para florir e semear.
Escutem, vejam, sintam e pensem:
O Muro…,
alto, frio, armado…
Dizem que é para proteger;
mas proteger quem?
De quem?
Contra quem?
Do outro lado
há gente como nós.
Podem vir soldados,
decretos, deportações,
podem odiar,
ameaçar e prender,
mas não podem aprisionar
a humanidade inteira.
II
Aqui nesse chão de pó seco
defronte ao ferro cortante,
segue o passo sofrido,
o grito calado,
o sonho rasgado.
Aqui nesse chão de pó seco
da fronteira que não é linha,
é ferida aberta,
um muro de terror
ameaça.
Aqui nesse chão,
nós, de cá e de lá,
diremos em alto e bom som,
para que todo mundo
escute, enxergue, sinta e pense:
– Derrubaremos todos os muros!
– Atravessaremos todas as fronteiras!
– Nos abraçaremos em humanidade sem limites!
Atrás do muro, o que há?
Uma criança sem colo,
um trabalhador sem sustento,
uma terra sem chegada.
Não permitiremos
que em quaisquer lados do Muro
se arranque uma criança dos braços da mãe;
isso não é segurança, nem cuidado,
é crime!
Não podemos assentir
que deportem trabalhador por trabalhar,
algemado, acorrentado;
isso não é lei, é covardia!
Não daremos os ombros
enquanto dividirem famílias;
isso não é fronteira, é desumanidade!
O mundo sempre foi travessia,
parte-se sem passaporte,
sem mapa,
sem dono,
apenas com os pés e a fome de ver.
Em idioma indo-europeu,
há milhares de anos,
alguém apontou ao horizonte
e partiu,
apenas uma palavra foi dita: – Sent!
Sent!
O sentido, o caminho…,
e tantos se colocaram a caminhar,
a descobrir os sentidos
da terra que não tem cerca,
do horizonte que não tem dono.
Apontemos o caminho novamente:
Sent!
III
Olhem aquele trem!
Escutem em silêncio.
Em verdade são muitos trens,
muitas linhas,
e todas levam o mesmo nome:
La Bestia.
La Bestia,
dorso de aço
que leva esperança,
mesmo no cansaço.
Sobre sua espinha,
no teto dos vagões,
homens, mulheres, crianças,
todos na mesma viagem,
penduram-se em latões.
Trem a ligar rios,
do Usumacinta ao Rio Grande,
máquina de ferro
a transportar corpos e promessas
que a miséria empurra
e o futuro chama.
La Bestia,
o comboio dos sonhos devorados,
Olhem novamente aquele trem.
Pensem com o coração,
sintam com a razão.
Ao longo da linha,
o milagre!
Percebam os sonhos que viajam,
os olhos que atravessam,
as esperanças que não descarrilam.
A humanidade migra
desde sempre,
e quem põe cerca na estrada
esquece que o passo
é mais antigo que o mapa.
Enxergaram? Escutaram?
Não um milagre vindo dos grandes palácios,
pois de grandes palácios não vem milagre,
nem de governos omissos,
ou frios organismos internacionais.
Mas o milagre advindo
das mãos generosas
do povo mexicano.
Mirem!!!
Basta olhar, auscultar.
O milagre
brota
do povo
que planta à beira do trilho,
entre árvores e ganchos,
pão, frutas e garrafas d’água.
O milagre
de quem semeia vida
no deserto da morte,
como Maná
a saciar sede e fome
com o gesto aberto
do afeto.
Maná caindo do céu?
Não,
caindo do coração
do povo que é irmão.
IV
Há outra força em marcha,
ela vem de cada canto do continente latino-americano:
Cultura Viva Comunitária,
uma força que não ergue muros,
abre portas;
uma força que não separa,
une;
uma força que não é arma,
é cantoria, dança,
palhaçaria;
é luta.
Quando a Cultura Viva se levanta,
muros tremem.
Muros não detém quem anda junto,
muros não calam quem canta em coro,
muros não resistem quando o povo insiste:
Abaixo dos muros!
Abaixo as cercas e fronteiras!
Todos os muros,
todas as cercas,
todos as demarcações
e limites.
O mundo é nosso caminho,
vamos juntos,
não com ódio,
mas com coragem,
não com barreiras,
mas com acessos.
Cultura Viva é força
que semeia e espera,
não ergue muralhas,
ergue destinos.
Ponto de Cultura é abraço,
ponto que atravessa o rio,
chama que aquece no frio,
povo do mundo sem fronteiras,
da humanidade sem limites.
Nenhum muro conterá nossa voz.
Muros cairão,
não sob bombas, mas sob flores,
não por soldados, mas por palhaços e artistas,
não com ódio, mas com amores.
Estamos aqui para erguer Plataformas, não muro.
Plataforma Vida,
Plataforma Gente,
enfim, liberdade.
Liberdade
que nasce da Arte para a Transformação Social,
que se fez Plataforma Puente,
que se faz Cultura Viva Comunitária
em todo nosso continente.
E o muro?
Ainda falando dele.
Alto,
armado até o dente,
orgulhoso de sua geometria estúpida,
pensa que é eterno.
Mas o que o muro não sabe,
e não sabem aqueles que o ergueram,
é que dentro da humanidade
há outra força
que vai derrubar esse
e todos os outros muros.
Como?
O que fazer diante do muro?
Bater a cabeça, ferir os punhos?
Não.
Derrubá-lo com aquilo que ele mais teme:
a vida,
a cultura,
a povo.
Cultura Viva Comunitária
não conhece aduanas,
não carimba passaporte,
ela passa,
ela vai.
Atenção!
Olhos e ouvidos,
sentidos,
todos os sentidos,
razões,
todas as razões;
corações, cabeças e mãos,
harmonizem-se,
ponham
o sentir, o pensar e o agir
em uma só direção.
Atravessem o muro,
façam uma viagem em sonho
e saibam que
sonhos não descarrilam
nem envelhecem,
nem são detidos.
Sonhos,
acreditem neles,
atravessem o muro!
Que parede segura a canção?
Que muralha resiste à memória?
Que muro sobrevive à imaginação
quando a fantasia se chama
Cultura Viva Comunitária
em oração?
E então…
O muro,
tão sólido
e tão frágil,
vai desmanchar,
como tudo que é sólido desmancha no ar.
ESPAÑOL LITERAL
El muro
Cultura Viva Comunitaria,
Fraternidad sin muros,
Pueblo sin fronteras,
humanidad sin límites.
Silencio…
Shh!
Silencio…
Escuchemos
la claridad,
el sol que nos calienta.
Disípense…
Desvanézcanse…
Miremos
el viento,
la corriente de aire que nos atraviesa.
Sientan los rayos de luz,
Piensen en la brisa…
Para ellos
No hay fronteras,
ni limites,
ni muros.
¿Escucharon?
¿Miraron?
¿Sintieron, pensaron?
Gente de la Cultura Viva Comunitaria,
pueblo de fraternidad sin muros;
de todos los rincones
de todos los bailes,
de todas las historias,
de todas partes.
Pueblos de nuestro vasto continente
que cruzan el mundo
de sur a norte
cual columna vertebral
que sostiene el planeta.
Gente de mil pueblos,
De la humanidad sin límites.
Escuchen, miren, sientan, piensen…
Esta tierra que pisamos no tiene dueño,
no tiene patria ni patrón
ni bandera ni rey…
solamente sendas abiertas por el paso de nuestros antecesores.
La humanidad se hizo migrando
desde los primeros que partieron de la sabana africana,
cruzando ríos,
desiertos, selvas y montañas,
oceanos;
la humanidad se ha hecho de mezclas,
de mestizaje,
del homo sapiens a los neandertales
hasta el día de hoy,
hasta que estemos aquí.
¡Miren!
no hay muro que detenga el viento,
no hay frontera que detenga el sol,
no hay límite que impida la humanidad.
¡Sientan!
Y digan:
Tampoco habrá soldado que detenga el
paso,
ni tractor que corte raíces.
¡Miren nuevamente!
Miren a los ojos de cada uno,
perciban los colores, las formas,
expresiones,
tan diferentes y tan iguales,
somos humanos
no importa donde nacimos,
ni la historia de nuestros padres,
cargamos vida en la maleta
fuego en el corazón
voz en el pulmón.
¡Sientan una vez más!
Somos corazón y razón,
nuestro verbo,
el verbo de la Cultura Viva
es Corazonar,
verbo de los seres sentipensantes,
de los que actúan con razón y emoción.
Somos verbo, viento, paso, raíces…
¡Y acción!
Las raíces resisten
se agrietan las paredes,
se derrumban los muros,
rompen cicatrices.
Los pasos empujan,
llevan adelante,
caminan hacia el horizonte,
arremeten al futuro.
Los vientos soplan,
derriban fronteras,
ventilan el ambiente
cruzan barreras.
La acción es un verbo,
son personas, tiempo, modo y voz;
por el verbo
derribaremos muros,
cruzaremos barreras,
caminaremos hacia el horizonte,
a la utopía,
al infinito.
Por el verbo
la humanidad
todavía ir
encontrarnos de nuevo
tus raíces
florecer y sembrar.
Escuchen, miren, sientan y piensen:
El muro…,
alto, frío, armado…
Dicen que es para proteger;
¿Pero proteger a quién?
¿De quién?
¿Contra quién?
Del otro lado
hay gente como nosotros.
Los soldados pueden venir,
decretos, deportaciones,
puede odiar,
amenazar y arrestar,
pero no pueden encarcelar
la humanidad entera.
II
Aquí en este suelo de polvo seco
frente a la plancha,
sigue el paso del sufrimiento,
el grito silencioso,
el sueño desgarrado.
Aquí en este piso de polvo seco
de la frontera que no es una línea,
es una herida abierta,
un muro de terror
amenaza.
Aquí en este piso,
nosotros, de aquí y de allá,
lo diremos alto y claro,
para que todo el mundo
escuche, mire, sienta y piense:
– ¡Derribaremos todos los muros!
– ¡Cruzaremos todas las fronteras!
– ¡Nos abrazaremos en humanidad ilimitada!
Detrás del muro, ¿qué hay?
Un niño sin regazo,
un trabajador sin sustento,
una tierra sin llegada.
No permitiremos
que en cualquier lado del Muro
se arranque un niño de los brazos de su madre;
Esto no es seguridad, ni cuidado,
¡Es un crimen!
No podemos estar de acuerdo
que deportan a los trabajadores por trabajar,
esposado, encadenado;
¡Eso no es ley, es cobardía!
No nos encogeremos de hombros
mientras separan familias;
¡Esto no es una frontera, es inhumanidad!
El mundo siempre ha sido una travesía,
salir sin pasaporte,
sin mapa,
sin dueño,
sólo con tus pies y el hambre de ver.
En lengua indoeuropea,
hace miles de años,
alguien señaló el horizonte
y se fue,
sólo se dijo una palabra: – ¡Sent[1]!
¡Sent!
El significado, el camino…,
y tantos empezaron a caminar,
descubriendo los sentidos
de la tierra que no tiene cerca,
del horizonte que no tiene dueño.
Señalemos de nuevo el camino:
¡Sent!
III
¡Miren ese tren!
Escuchen en silencio.
De hecho, hay muchos trenes,
muchas líneas,
y todos tienen el mismo nombre:
La Bestia.
La Bestia,
espalda de acero
que trae esperanza,
incluso cuando esté cansado.
Sobre tu columna vertebral,
en el techo de los vagones,
hombres, mujeres, niños,
todos en el mismo viaje,
cuelgan de latones.
Tren que conecta ríos,
desde Usumacinta hasta Río Grande,
máquina de hierro
llevando cuerpos y promesas
que la miseria empuja
y el futuro llama.
La Bestia,
el tren de los sueños devorados,
Miren aquel tren otra vez.
Piensen con el corazón,
Sientan con la razón.
A lo largo de la línea,
el milagro!
Perciban los sueños que viajan,
los ojos que los atraviesan,
las esperanzas que no descarrilan.
La humanidad migra
desde siempre,
y el que pone valla en el camino
olvida que el paso
es más antiguo que el mapa.
¿Han visto? ¿Han escuchado?
No el milagro procedente de los grandes palacios,
porque de los grandes palacios no sale ningún milagro,
ni de gobiernos omisos,
o de frías organizaciones internacionales.
Sino el milagro proveniente
de manos generosas
del pueblo mexicano.
¡Vean!
Basta mirar, escuchar.
El milagro
brota
de la gente
que planta junto al sendero,
entre árboles y ganchos,
pan, fruta y agua embotellada.
El milagro
de los que siembran vida
en el desierto de la muerte,
como Maná
para calmar la sed y el hambre
con un gesto abierto
de cariño.
¿Maná cayendo del cielo?
No,
cayendo del corazón
del pueblo hermano.
IV
Hay otra fuerza en marcha,
viene de todos los rincones del continente latinoamericano:
Cultura Viva Comunitaria,
una fuerza que no construye muros,
abre puertas;
una fuerza que no separa,
une;
una fuerza que no es un arma,
Es canto, danza,
payasería;
es lucha.
Cuando la Cultura Viva se levanta,
las paredes tiemblan.
Los muros no detienen a quienes caminan juntos,
Los muros no callan a los que cantan a coro,
Los muros no pueden resistir cuando el pueblo insiste:
¡Abajo los muros!
¡Abajo los cercos y fronteras!
Todos los muros,
todas las vallas,
todas las demarcaciones
y límites.
El mundo es nuestro camino,
vamos juntos,
no con odio,
sino con coraje,
no con barreras,
sino con acceso.
La Cultura Viva es fuerza
que siembra y espera,
no construye muros,
construye destinos.
Punto de Cultura es un abrazo,
punto que atraviesa el río,
llama que calienta en el frio,
gente del mundo sin fronteras,
de la humanidad sin límites.
Ningún muro contendrá nuestra voz.
Los muros caerán,
no bajo bombas, sino bajo flores,
no por soldados, sino por payasos y artistas,
no con odio, sino con amor.
Estamos aquí para construir Plataformas, no muros.
Plataforma de Vida,
Plataforma de Gente,
En definitiva, libertad.
Libertad
que nace del Arte para la Transformación Social,
que se hizo Plataforma Puente,
que se hace Cultura Viva Comunitaria
en todo nuestro continente.
¿Y el muro?
Sigo hablando de él.
Alto,
armado hasta los dientes,
orgulloso de su estúpida geometría,
piensa que es eterno.
Pero lo que el muro no sabe,
y lo que nos aben aquellos que lo construyeron,
es que dentro de la humanidad
hay otra fuerza
que va a derrumbar éste
y todos los otros muros.
¿Cómo?
¿Qué hacer frente al muro?
¿Golpearte la cabeza, lastimarte los puños?
No.
Derribarlo con lo que más teme:
la vida,
la cultura,
el pueblo.
Cultura Viva Comunitaria
no conoce aduanas,
no sella el pasaporte,
ella pasa,
ella va.
¡Atención!
Ojos y oídos,
sentidos,
todos los sentidos,
razones,
todas las razones;
corazones, cabezas y manos,
armonícense,
pongan
el sentir, el pensar y el actuar
en una sola dirección.
Atraviesen el muro,
hagan un viaje de ensueño
y sepan que
los sueños no se descarrilan
ni envejecen,
ni son detenidos.
Sueños,
créanlos,
¡Atraviesen el muro!
¿Qué pared aguanta la canción?
¿Qué muralla se resiste a la memoria?
¿Qué muro sobrevive a la imaginación
cuando la fantasía se llama
Cultura Viva Comunitaria
en oración?
Y luego…
El muro,
tan solido
y tan frágil,
se desmoronará,
como todo lo que es sólido se disuelve en el aire.
[1] Raíz del proto-indoeuropeo. -sent que significa ir adelante, tomar una dirección.
ESPAÑOL INTERPRETACIÓN
El muro
Cultura Viva Comunitaria,
Fraternidad sin muros,
Pueblo sin fronteras,
humanidad sin límites.
Silencio…
Shh!
Silencio…
Escuchemos [Vamos a escuchar]
la claridad,
el sol que nos calienta.
Disípense…
Desvanézcanse…
Miremos [Vamos a mirar]
el viento,
la corriente de aire que nos atraviesa.
Sientan [Sintamos / Vamos a sentir] los rayos de luz,
Piensen en la brisa…
Para ellos [Para ellos, para ellas]
No hay fronteras,
ni limites,
ni muros.
¿Escucharon? [¿Pueden escuchar, mirar, sentir, pensar?]
¿Miraron?
¿Sintieron, pensaron?
Gente de la Cultura Viva Comunitaria,
pueblo de fraternidad sin muros,
de todos los rincones
de todos los bailes,
de todas las historias,
de todas partes.
Pueblos de nuestro vasto continente
que cruzan el mundo
de sur a norte
cual columna vertebral
que sostiene el planeta.
Gente de mil pueblos,
De la humanidad sin límites.
Escuchen, miren, sientan, piensen…
Esta tierra que pisamos no tiene dueño,
no tiene patria ni patrón
ni bandera ni rey…
solamente sendas abiertas por el paso de nuestros antecesores.
La humanidad se hizo migrando
desde quienes partieron de la sabana africana,
cruzando ríos,
desiertos, selvas y montañas,
océanos;
la humanidad se ha hecho de mezclas,
de mestizaje,
del homo sapiens a los neandertales
hasta el día de hoy,
y hasta que estemos aquí.
¡Vean!
no hay muro que detenga el viento,
no hay frontera que detenga el sol,
no hay límite que impida la humanidad.
¡Sientan!
Y digan:
Tampoco habrá soldado que detenga el
caminar,
ni tractor que corte las raíces.
¡Miren nuevamente!
Miren a los ojos de cada uno,
perciban los colores, las formas,
expresiones,
tan diferentes y tan iguales,
somos humanos
no importa donde nacimos,
ni la historia de nuestros padres,
cargamos vida en la maleta
fuego en el corazón
voz en los pulmones.
¡Sientan una vez más!
Estamos hechos de corazón y de razón,
nuestro verbo,
el verbo de la Cultura Viva
es Corazonar,
verbo de los seres sentipensantes,
de los que actúan con razón y emoción.
Somos verbo, viento, caminar, raíces…
¡Y acción!
Las raíces que resisten
agrietan las paredes,
derrumban los muros,
desgarran las cicatrices.
Empujan los pasos,
llevan hacia adelante,
caminan al horizonte,
arremeten hacia el futuro.
Soplan los vientos
derribando fronteras,
airean el ambiente,
atraviesan las barreras.
La acción es verbo,
personas, tiempo, modo y voz;
y por el verbo
derribaremos muros,
atravesaremos barreras,
caminaremos hacia el horizonte,
a la utopía,
al infinito.
Por el verbo
la humanidad
continúa
reencontrando
sus raíces
para florecer y sembrar.
Escuchen, miren, sientan y piensen:
El muro…,
alto, frío, armado…
Dicen que está hecho para proteger;
¿Pero proteger a quién?
¿De quién?
¿Contra quién?
Del otro lado
hay gente como nosotros.
Pueden venir soldados
con decretos bajo el brazo, pueden deportar,
pueden odiar,
amenazar y arrestar,
pero no pueden encarcelar
la humanidad entera.
II
Aquí en este suelo seco y árido
frente al cortante hierro
sigue el paso del sufrimiento,
el grito silencioso,
el sueño desgarrado.
Aquí en este suelo seco y árido
donde la frontera no es una línea,
sino una herida abierta,
un muro de terror
amenaza.
Aquí en este suelo,
nosotros, los de aquí y de allá,
lo diremos alto y claro,
para que el mundo entero
escuche, mire, sienta y piense:
– ¡Derribaremos todos los muros!
– ¡Cruzaremos todas las fronteras!
– ¡Nos abrazaremos en humanidad sin límites!
¿Qué se oculta detrás del muro?
Un niño sin regazo,
un trabajador sin sustento,
una tierra sin llegada.
No permitiremos
que en cualquier lado del Muro
un niño sea arrancado de los brazos de su madre;
Esto no es seguridad, ni es cuidado,
¡Es un crimen!
No podemos estar de acuerdo
con que deportan a los trabajadores por trabajar,
esposado, encadenado;
¡Eso no es ley, es cobardía!
No nos encogeremos de hombros
mientras separan familias;
¡Esto no es una frontera, es inhumanidad!
El mundo ha sido siempre una travesía;
salir sin pasaporte,
sin mapa,
sin dueño,
sólo con tus pies y el hambre de ver.
En lengua indoeuropea,
hace miles de años,
alguien señaló el horizonte
y partiendo,
sólo una palabra fue dicha: – ¡Sent!
¡Sent!
El significado, el camino…,
y tantos que empezaron a caminar,
descubriendo los sentidos
de la tierra que no tiene cerca,
del horizonte que no tiene dueño.
Señalemos de nuevo el camino:
¡Sent!
III
¡Miren ese tren!
Escuchen en silencio.
De hecho, hay muchos trenes,
muchas líneas,
y todas llevan el mismo nombre:
La Bestia.
La Bestia,
dorso de acero
que carga esperanza,
incluso cuando hay cansancio.
Sobre tu columna vertebral,
sobre el techo de tus vagones,
hombres, mujeres, niños,
todos en el mismo viaje,
cuelgan de latones.
Tren que conecta ríos,
desde Usumacinta hasta Río Grande,
máquina de hierro
llevando cuerpos y promesas
que la miseria empuja
y al futuro claman.
La Bestia,
el tren de los sueños devorados,
Miren aquel tren otra vez.
Piensen con el corazón,
Sientan con la razón.
A lo largo de la línea,
el milagro!
Perciban los sueños que viajan,
los ojos que los atraviesan,
las esperanzas que no descarrilan.
La humanidad ha migrado
desde siempre,
y aquel que cierra los caminos
olvida que el caminar
es más antiguo que cualquier mapa.
¿Han visto? ¿Han escuchado?
No el milagro procedente de los grandes palacios,
porque de los grandes palacios no sale ningún milagro,
ni de gobiernos omisos,
o de frías organizaciones internacionales.
Sino el milagro proveniente
de manos generosas
del pueblo mexicano.
¡Vean!
Basta mirar, escuchar.
El milagro
brota
de la gente
que planta junto al sendero,
entre árboles y ganchos,
pan, fruta y agua embotellada.
El milagro
de los que siembran vida
en el desierto de la muerte,
como Maná
para calmar la sed y el hambre
con un gesto abierto
de cariño.
¿Maná cayendo del cielo?
No,
cayendo del corazón
del pueblo hermano
IV
Hay otra fuerza en marcha,
que viene de todos los rincones del continente latinoamericano:
Cultura Viva Comunitaria,
una fuerza que no construye muros,
abre puertas;
una fuerza que no separa,
une;
una fuerza que no es un arma,
Es canto, danza,
Payasería[1] [Narices rojas];
es lucha.
Cuando la Cultura Viva se levanta,
las paredes tiemblan.
Los muros no detienen a quienes caminan juntos,
Los muros no callan a los que cantan a coro,
Los muros no pueden resistir cuando el pueblo insiste:
¡Abajo los muros!
¡Abajo los cercos y fronteras!
Todos los muros,
todas las vallas,
todas las demarcaciones
y límites.
El mundo es nuestro camino,
vamos juntos,
no con odio,
sino con coraje,
no con barreras,
sino con acceso.
La Cultura Viva es fuerza
que siembra y espera,
no yergue murallas,
yergue destinos.
Punto de Cultura es un abrazo,
punto que atraviesa el río,
llama que calienta en el frio,
gente del mundo sin fronteras,
de la humanidad sin límites.
Ningún muro contendrá nuestra voz.
Los muros caerán,
no bajo bombas, sino bajo flores,
no por soldados, sino por payasos y artistas,
no con odio, sino con amor.
Estamos aquí para construir Plataformas, no muros.
Plataforma de Vida,
Plataforma de Gente,
Ante todo, libertad.
Libertad
que nace del Arte para la Transformación Social,
que se hizo Plataforma Puente,
que se hace Cultura Viva Comunitaria
en todo nuestro continente.
¿Y el muro?
Sigo hablando de él.
Alto,
armado hasta los dientes,
orgulloso de su estúpida geometría,
piensa que es eterno.
Pero lo que el muro no sabe,
y lo que nos aben aquellos que lo construyeron,
es que dentro de la humanidad
hay otra fuerza
que va a derrumbar éste
y todos los otros muros.
¿Cómo?
¿Qué hacer frente al muro?
¿Golpearte la cabeza, herirte los puños?
No.
Derribarlo con lo que más teme:
la vida,
la cultura,
el pueblo.
Cultura Viva Comunitaria
no conoce aduanas,
no sella el pasaporte,
ella pasa,
ella va.
¡Atención!
Ojos y oídos,
sentidos,
todos los sentidos,
razones,
todas las razones;
corazones, cabezas y manos,
armonícense,
pongan
el sentir, el pensar y el actuar
en una sola dirección.
Atraviesen el muro,
hagan un viaje de ensueño
y sepan que
los sueños no se descarrilan
ni envejecen,
ni son detenidos.
Sueños,
Crean en ellos,
¡Atraviesen el muro!
¿Qué pared aguanta la canción?
¿Qué muralla se resiste a la memoria?
¿Qué muro sobrevive a la imaginación
cuando la fantasía se llama
Cultura Viva Comunitaria
en oración?
Y luego…
El muro,
tan solido
y tan frágil,
se desmoronará,
como todo lo sólido que se desvanece en el aire.
[1] En español la palabra palhaçaria, no se comprende como en el portugués, te sugerimos usar Narices Rojas, la Alegría del Payaso, el Rostro del Payaso o simplemente Payaso.

Historiador, escritor, formulador do Cultura Viva e do Programa Pontos de Cultura e Secretário do Ministério da Cultura na gestão Gilberto Gil e Juca Ferreira no Governo Lula
