Regalo: quando a diversidade bate à porta, a gente precisa aprender a abrir

Regalo: quando a diversidade bate à porta, a gente precisa aprender a abrir

No curta de Ricardo Martins, desejo, solidão e dignidade se encontram numa narrativa que fala menos sobre surpresa e mais sobre humanidade. Assista Regalo.

POR JOANNE MOTA

À primeira vista, o enredo de Regalo parece brincar com o inesperado. Caio ganha dos amigos um presente de aniversário inusitado: uma noite com um garoto de programa. Mas seria injusto reduzir o filme a essa premissa. “Regalo” não fala de um presente; fala daquilo que a vida nos entrega quando já estávamos desacreditados de receber algo bom. Fala do encontro entre carência e coragem.

Caio é desses personagens que conhecemos sem nunca ter visto. Ele carrega o peso de tantos brasileiros que aprenderam a esconder desejos para sobreviver. Gente que sorriu em festas enquanto desmoronava por dentro. Gente que fez do silêncio uma armadura. Quando ele se vê diante da possibilidade de se abrir ao novo, o filme toca numa ferida coletiva: quantos de nós fomos ensinados a ter medo da própria felicidade?

Há uma delicadeza rara na condução de Ricardo Martins. Nada grita, nada implora atenção. O filme confia na força dos pequenos gestos, dos olhares suspensos, dos constrangimentos que dizem mais do que discursos inteiros. É cinema que entende uma verdade simples: há revoluções que começam num quarto silencioso.

Em tempos de brutalidade cotidiana, “Regalo” escolhe a ternura como linguagem política. Isso não é pouco. Num país em que pessoas LGBTQIA+ ainda enfrentam violência, exclusão e solidão, mostrar afeto sem caricatura já é um gesto de enfrentamento. Quando a arte humaniza corpos historicamente tratados como piada ou ameaça, ela desloca o mundo alguns centímetros — e às vezes é disso que a história precisa.

A trilha emocional do filme poderia conversar com a voz de Liniker quando canta em “Calmô”: “respira”. Porque “Regalo” também pede respiração. Pede pausa num mundo acelerado demais para escutar sentimentos. Pede que se olhe com menos pressa para quem vive ao nosso lado.

Veja Também:  “Existo” e o direito de florescer mesmo em terreno hostil

Também ecoa ali algo de Ney Matogrosso, artista que há décadas transforma liberdade em presença cênica. Sua trajetória inteira parece sussurrar ao filme que existir sem pedir desculpas continua sendo um ato radical. “Regalo” entende isso: há coragem em apenas ser.

E quando o coração do filme se aproxima da vulnerabilidade, vem à memória Johnny Hooker em “Flutua”, canção-manifesto que pede amor em tempos de ódio. O curta compartilha dessa mesma pulsação: amar, desejar, se permitir tocar o outro ainda é uma forma de resistência social.

O mérito maior de “Regalo” está em recusar o cinismo. Em vez de rir dos sentimentos, ele os acolhe. Em vez de transformar personagens em tipos, devolve a eles complexidade. Num audiovisual tantas vezes seduzido pela pressa e pelo escândalo, isso vale ouro.

No fim, “Regalo” nos lembra que todo mundo quer a mesma coisa, embora nem sempre admita: ser visto sem humilhação, tocado sem violência, amado sem medo. E talvez o Brasil só comece a se curar quando entender que dignidade também mora nesses encontros íntimos e improváveis.

Assista “Regalo”.

Porque há filmes que entretêm — e há filmes que nos devolvem a capacidade de sentir. Este faz as duas coisas, e ainda nos convida a ser melhores.

Bom filme….

Tagged: , , ,