‘Rito do Amor Selvagem’ traz a arte de Maria Esther e Agrippino de Paula

Em cartaz na Fatoflix, ‘Rito do Amor Selvagem’ conta a história da peça da dupla de artistas montada em 1969, no primeiro ano de vigência do AI-5. Confira entrevista com a diretora do filme, Lucila Meirelles.
POR TATIANA CARLOTTI
Brasil, 1969. Nos corredores do Theatro São Pedro, gansos corriam desgovernados enquanto a plateia era convocada a experimentar o rito do amor selvagem, composto por 22 cenas e 19 improvisações, sob a batuta da dupla icônica de artistas: Maria Esther Stockler e José Agrippino de Paula.
Essa história é contada pela cineasta Lucila Meirelles, guardiã de boa parte do acervo dos artistas, no documentário Rito do Amor Selvagem. Em cartaz na Fatoflix, o filme é mais uma das contribuições da pesquisadora na divulgação da obra Agrippino.
Lucila produziu Sinfonia PanAmérica em 1988, salvou os filmes Super 8 do armário do artista, promoveu diversas mostras e debates, além de curadorias como a que fez para o box Exu 7 Encruzilhadas, que reúne a produção audiovisual de Agrippino.
Agora, ela vem batalhando pela publicação de um tesouro: dois cadernos escritos por ele entre 1968 e 1969.
Em entrevista à Fatoflix, ela conta sobre a explosão criativa da dupla, relata sobre a sua amizade com Maria Esther e Agrippino e como conseguiu fazer um documentário de uma peça quase sem registros e permeada por performances e improvisações.
“A produção inteira do Agrippino questiona a falta de controle”, salienta Lucila, ao destacá-la como um antídoto contra o engessamento do pensamento tecnológico, em que “tudo é pensado segundo as regras do algoritmo”.
Confira a entrevista:
F21 – Lucila, você conviveu com o Agrippino e a Esther. Como começou essa amizade e quando essa história virou documentário?
Lucila Meirelles – Eu fui casada com o [José Roberto] Aguilar que era muito amigo do Agrippino. Ele frequentou nossa casa na Eugênio de Lima, ficava passeando pelos cômodos, dizendo coisas em grego. Depois que eu me separei, eu me tornei muito amiga da Esther, que morou um tempo comigo.
Em 1988, fiz o primeiro ciclo de mostras sobe o trabalho do Agrippino na Cinemateca. Havia uma dificuldade porque nós não tínhamos os negativos de Hitler Terceiro Mundo. Um pesquisador holandês estava fazendo os negativos de vários artistas da Cinemateca, e incluímos os do Agrippino. Depois, tiveram outras restaurações.
Na sequência, eu fiz o Sinfonia PanAmérica e, por causa desse documentário, passei a ir ao Embu para conversar com ele. Acabei descobrindo que havia muitos filmes Super 8 no armário e disse a mãe dele, Dona Clodomira, “eu preciso desses Super 8 para restaurar, porque, nesse armário eles vão se perder. Fala para o Agrippino comprar o arroz integral dele — ele era macrobiótico — que eu pego os filmes”. Ela concordou e assim fizemos.
Eu consegui restaurar O Céu sobre a Água, Danças na África, Candomblé no Togo, e outros. Levei para lavar, restaurar e armazenamos na Cinemateca. Em 1988, apresentei esse material no Festival Videobrasil, produzido pela Solange Farkas, que é bienal e sobre trabalhos experimentais. Naquela mostra, eu chamei toda a turma do Agrippino: Caetano [Veloso], [Jorge] Mautner, [Jorge] Bodansky entre outros.
O Agrippino não foi, disse que era difícil, complicado. Ele já estava recluso e até para pagá-lo foi difícil porque ele não tinha sequer RG. Ele vivia totalmente à parte.
F21 – Como foi realizar Sinfonia PanAmérica?
Lucila Meirelles – Sinfonia surgiu da ideia, em voga, de apresentar uma imagem em 20 televisores, mas nós fizemos o contrário: havia um televisor e nós fizemos três imagens. Hoje isso é fácil, mas era tudo analógico em 1988. Imagine a dificuldade — e nós ainda apresentamos em uma televisão super pequena.
Na primeira gravação, ele queria 16 câmeras, esse era o Agrippino. Eu disse que seria apenas uma e ele topou. Tudo o que eu propunha, ele contestava, mas acabava fazendo; pelo menos eu consegui com que ele saísse um pouco de casa. Nesse período, eu fui conhecendo o Agrippino e, aos poucos, levando poesias e pessoas no Embu, como o Arnaldo Antunes, para ele saber o que estava acontecendo.
A Esther e o próprio Agrippino deixaram o material impresso que produziram comigo, desde Planeta dos Mutantes, Mustang Hibernado, o material de Hitler Terceiro Mundo. O Mustang Hibernado também chamado Tarzan Terceiro Mundo foi o primeiro trabalho do Agrippino e da Maria Esther. Era um espetáculo que já misturava linguagens como a dança, o teatro e a música. Eles ganharam uma verba da Secretaria da Cultura de São Paulo para realizá-lo.
Com isso em mãos, eu consegui reeditar o PanAmérica pela Max Limonad e depois a editora Papagaio, do Sérgio [Almeida], editou. Tenho todo o material do Agrippino telecinado, em fita beta, entrevistas, tudo.
Eles moraram um tempão em uma casa na Santa Cecília, onde fizeram muitos Super 8. Certa vez, estavam sem som, então levaram os moradores de rua para dentro de casa e gravaram as pessoas. No documentário, eu uso esse material que me chegou através do cineasta Hermano Penna. Ele entregou um CD e a partir dele, foi feito o box Exu 7 Encruzilhadas. Eu fui curadora desse projeto.
Fiz também vários ciclos sobre os filmes do Agrippino no Sesc TV e em outros lugares. Nesses eventos, as pessoas comentavam que Hitler Terceiro Mundo era sensacional porque não tinha roteiro. O Jorge Bodansky chegava com a câmera e eles decidiam o que filmar. Como o Agrippino não tinha dinheiro para realizar o filme, o Bodansky aproveitava as sobras, começos e finais de outras produções que realizava na época, para filmar o longa Hitler Terceiro Mundo.
Há uma cena em que eles entram num camburão. O Bodansky diz que não sabe como eles não foram presos. Era tudo muito livre, como a cabeça do Agrippino, um cara cheio de ideias, que surgiam no momento em que as cenas eram feitas. O áudio da primeira parte do filme é em reverse, um som de trás para frente. O Agrippino achou aquilo o máximo.
F21 – É neste momento que eles fazem o Rito?
Lucila Meirelles – Sim, junto com o filme. Eles ganharam um edital no segundo festival de dança, de 43 mil cruzeiros. Então, pegaram Nações Unidas, uma peça do Agrippino, e a transformaram em Rito do Amor Selvagem. Ela foi montada em 1969 e estreou no Theatro São Pedro. Eles espalhavam gansos na entrada do teatro, cada dia faziam uma fuzarca diferente.
Antes disso, eles produziram o Mustang Hibernado, o show Planeta dos Mutantes com a Rita Lee, que eram projetos encomendados; e estavam fazendo Hitler Terceiro Mundo. Foi tudo junto, uma explosão. Eu brinco que quando estavam juntos, eles produziam tudo. Depois que se separaram, ninguém fez mais nada. É impressionante.
F21 – Como eles se encontraram?
Lucila Meirelles – Na casa do Aguilar, se não me engano. A Esther era uma super dançarina, vinha da família do Banco Safra e estudou dança em Nova York. Ela levou todos para o universo da dança contemporânea e foi uma das primeiras alunas de Maria Duschenes, pioneira do gênero no Brasil.
Esther e Agrippino foram morar juntos e tiveram uma liga incrível no trabalho. Ela era a diretora, coordenadora, coreógrafa; ele era o escritor, o roteirista. Ela totalmente chão, mas parecia uma bruxa. Era uma mulher muito inteligente e preparada.
Anos depois, eles se separaram porque o Agrippino engravidou outra pessoa quando a Esther estava grávida, então, houve a ruptura. Ela nunca mais quis vê-lo, mas foi viver em Itapecerica da Serra, do lado de Embu. Ele quis ser meu amigo porque sabia que eu era amiga da Esther. O Agrippino gostou dela até morrer.
F21 – Como surgiu a ideia do Rito?
Lucila Meirelles – Quando eu percebi que só fazia ciclos dos filmes e essa peça estava esquecida. O problema é que não havia nenhum material da peça. No armário, eu descobri uma entrevista de 1979, da Sofia Carvalhosa, que namorou com o Agrippino. A partir dela e do estudo que fiz sobre Nações Unidas, surgiu o documentário.
Eu busquei fazer uma nova versão do Rito, peguei os elementos da peça, que tinha 22 cenas e 19 interrupções, e compus as cenas me obrigando a ter essas interrupções a partir de depoimentos de várias pessoas que participaram daquele momento.
O Aguilar fez uma performance, recusou-se a dar uma entrevista porque o Agrippino era performático, e ficou lindo, meio realismo fantástico. Colocamos o jogo de xadrez, que é importante na peça, e eu fui pegando aquilo tudo. Incluí a performance da múmia com luz negra, que também havia na peça original.
O Rito do Amor Selvagem foi uma realização do SESCTV. Eu disse a eles, “é um documentário experimental, vocês topam?” Levou um bom tempo, mas eu pude assimilar tudo aquilo. Como os dois já tinham morrido, fiz um roteiro baseado na peça, nas fotos, nos depoimentos dos que estiveram envolvidos na peça, Stênio Garcia, Bodansky, Cláudia Alencar, Aguilar, Sergio Mamberti, Tom Zé, entre outros.
Eu consegui o estúdio da USP e iluminação com o Pedro Farkas e fiz como se estivesse produzindo um filme experimental nos anos 60. Busquei o mesmo ambiente com aquelas moças do circo, e tive um editor maravilhoso, o Augusto Calçada. Passamos várias horas editando e reeditando esse material para dar movimento às imagens.
Nós tivemos uma ótima sessão no CineSesc, foi uma avalanche de gente de vários estados. Ficaram 150 pessoas para fora e ainda fizemos um debate com Sérgio Mamberti, o Bodansky, que está sempre junto.
F21 – Você assistiu à peça? Existe algum registro dela?
Lucila Meirelles – Não, daí a dificuldade. Como falar de uma peça sem registro que é teatro e performance? Não havia como dizer que ‘foi assim ou assado’, porque no início do dia, eles praticamente sorteavam com qual das 22 cenas iriam começar a peça. Ela nunca era igual, as cenas se moviam e as interrupções eram puro improviso.
Quem me contou isso foi o Antonio Peticov que assistiu à peça 25 vezes. “Lucila, cada dia que eu ia era uma peça completamente diferente, eram os mesmos músicos, mas a música era ao vivo e nem eles sabiam o que ia acontecer”, ele contou. Caía um aqui, outro despencava lá, e eles continuavam tocando como se nada estivesse acontecendo. Era um happening, uma cena aberta. E o Agrippino ficava observando em um canto, dando risada.
No ano passado, apareceram trechos do Rito filmados pelo Bodansky na FAAP [Fundação Armando Álvares Penteado], que nem sabia que existia esse material. Eu tinha terminado o documentário quando o Rubens Machado, especialista em Super 8, contou que havia visto um vídeo da peça. São 20 minutos em preto e branco, com imagens daquela bola gigantesca e do encontro na ONU que eles faziam.
F21 – Desse material que você tem sobre o Agrippino, o que podemos aguardar?
Lucila Meirelles – O Agrippino escrevia em cadernos e há mais de 100 com o Sérgio. Eu tenho dois anteriores a essa leva do Embu, quando ele ainda estava em São Paulo inspirando-se para Hitler Terceiro Mundo e Rito do Amor Selvagem. Minha meta agora é conseguir publicá-los; foi o Arnaldo Antunes quem me entregou os dois cadernos. Um é totalmente erótico, o outro não.
Eu dei para o Celso Favaretto, que viu o Rito e ele me respondeu: “Lucila, isso daí vale ouro, é o prenúncio de toda inspiração, todo começo das ideias dele”. Estou agora na batalha de conseguir a edição desse material.
F21 – Lucila, por que o Agrippino é tão pouco conhecido? O que aconteceu?
Lucila Meirelles – É um absurdo não conhecerem o Agrippino. Foi ele que trouxe o cinema de invenção, experimental, para o Brasil. Naquela época, porém, as pessoas não registravam muito, como agora fazem. Nós vivemos na era da imagem; antes não era assim. As pessoas nem sabiam armazenar direito. Eu fiz um trabalho de resgate de videoarte, estava tudo dentro de armário, embolorado.
Segundo, porque estávamos sob a ditadura e tudo passou a ser escondido, inclusive as produções que existiam. A década de 1960 ficou absolutamente obscura, sem visibilidade. Hitler Terceiro Mundo foi censurado. Nós só pudemos assisti-lo em 1984. Eles estavam filmando quando passaram uma noite no DOPS. O Mário Schenberg avisou: “eles estão vigiando vocês, é melhor se mandar”, aí depois do filme, eles foram para a África.
Na Bahia, o Agrippino é muito mais conhecido do que em São Paulo e no Rio de Janeiro, porque morou em Arembepe e fez vários Super 8. Alguns foram enviados para os Estados Unidos e ninguém mais soube desse material.
O Agrippino faz parte da cultura, devia ser tema do Enem, mas ele continua totalmente subterrâneo. A crítica que ele traz é muito sofisticada, ele vai profundo nas coisas e num fôlego só. O romance PanAmérica não tem vírgulas; e ele escolheu o papel cânhamo para que as pessoas pudessem ir à praia e o sol não refletiria na página, ou seja, não estragaria a visão na hora da leitura. Olha a ideia dele, tudo tinha um sentido. Agrippino era um artista completo, atemporal.
Sua forma de narrar é diferente também. É tudo fragmentado, como um mosaico onde as partes se juntam. Hoje, as pessoas estão menos experimentais. Não sei se é essa mentalidade tecnológica em que impera o valor matemático. Se as pessoas estão mais objetivadas do que subjetivadas e não conseguem mais pensar em algo sem controle.
Hoje, existe um engessamento, um medo de errar. Tudo tem que estar segundo as regras do algoritmo. A produção inteira do Agrippino questiona a falta de controle. É o “vamos ver no que vai dar”. Liga a câmera e se der, deu; se não der, vamos ver o que fazemos. Um antídoto contra este pensamento tecnológico, em que tudo é pensado, medido.
Assista ao documentário na Fatoflix

Rito do Amor Selvagem de Lucila Meirelles (Foto: acervo pessoal)

Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022. Também trabalha em Ópera Mundi e atuou por oito anos nos veículos progressistas Carta Maior (2014-2021) e Blog Zé Dirceu (2006-2013). Tem doutorado em Semiótica (USP) e mestrado em Crítica Literária (PUC-SP).
