São Vito: Um marco da luta por moradia na cidade de São Paulo

São Vito: Um marco da luta por moradia na cidade de São Paulo

Para quem busca uma obra que provoque reflexão e emoção, “São Vito” é uma escolha imperdível, uma história de luta e resistência por um Brasil mais justo e humano.

POR JOANNE MOTA

No Brasil, a luta é diária. A cada esquina, uma nova batalha se desenha. E, como disse o poeta Adélia Prado, “a vida é um constante recomeço”. Isso nunca foi tão verdadeiro quanto ao assistir “São Vito”, um documentário que mergulha nas memórias e nas vidas de quem habitou o Edifício São Vito, carinhosamente conhecido como Treme-Treme. Uma obra que nos confronta com a dura realidade de uma população que luta, que perde, mas que jamais desiste.

Dirigido por Camila Mouri e Pedro Caldas, o filme não é apenas uma coletânea de imagens e histórias; é um grito de resistência. Nos primeiros minutos, somos apresentados a uma São Paulo pulsante, onde o olhar e a voz dos moradores se entrelaçam numa dança de resistência. O Treme-Treme, um edifício de quitinetes construído na década de 1950, abrigava uma comunidade vibrante, porém invisibilizada pela narrativa dominante. A força da imagem aqui é reveladora, e cada frame nos lembra que as vidas alheias não são apenas estatísticas.

A trajetória do São Vito é marcada por intervenções e políticas públicas que, sob o manto da valorização econômica, encobriram a verdadeira face da realidade. O filme expõe como a mídia, com seu poder de fogo, ajudou a construir um estigma que tratava os moradores como ocupantes irregulares, quando, na verdade, eram cidadãos com histórias legítimas e dignidade. É um alerta sobre como o “senso comum” é moldado, e como isso impacta profundamente a vida das pessoas.

A narrativa nos leva a conhecer os rostos por trás do edifício. Moradores que, ao longo de suas vidas, aprenderam sobre política, cultura e a luta por seus direitos. Cada um deles traz à tona uma história que, embora única, ecoa a história de muitos brasileiros.

O que a política urbana tem a ver?

O filme não se limita a abordar a desocupação do prédio; ele também provoca reflexões sobre urbanismo e as políticas públicas em um dos pontos vitais da capital paulista. O Treme-Treme, com seus mais de 600 apartamentos, era um microcosmo da cidade, refletindo as tensões sociais e a luta pela moradia digna. Ao assistirmos, somos compelidos a pensar: o que significa habitar uma cidade que ignora suas raízes e parte do seu povo?

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Camila Mouri e Pedro Caldas fazem um trabalho primoroso na direção, capturando a essência de uma comunidade que se recusa a ser silenciada. A fotografia de Pedro Eliezer complementa a narrativa com uma estética que revela a beleza crua da vida cotidiana. A montagem de Juliana Munhoz, por sua vez, traz um ritmo envolvente, intercalando memórias e reflexões de forma impactante.

“São Vito” é um documentário que vai além da história de um prédio; é um testemunho da luta e da resistência de uma classe que, em meio a tantas adversidades, continua a sonhar. Enquanto assistimos à demolição, sentimos o peso da perda. Mas o que permanece são as vozes e as memórias dos moradores, que continuam a ecoar na cidade. O filem mostra que 13 anos após a desapropriação, a ausência física do São Vito é sentida, mas suas histórias ainda estão presentes, como um farol de esperança em um mar de incertezas.

Em tempos em que a urbanização muitas vezes se sobrepõe às necessidades humanas, “São Vito” nos convida a refletir e, mais importante, a agir. É um lembrete de que, apesar da luta e das perdas, a resistência é uma constante na trajetória do povo brasileiro. Que possamos, como sociedade, ouvir essas vozes e lutar por um futuro no qual todos tenham um lugar ao qual possam chamar de lar.

Para quem busca uma obra que provoque reflexão e emoção, “São Vito” é uma escolha imperdível. Que essa história de luta e resistência inspire novos capítulos na construção de um Brasil mais justo e humano.

Assista na plataforma Fatoflix!

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