‘Saúde tem Cura’ mostra por que o SUS é a maior conquista do Brasil

Mais do que um documentário apaixonante, ‘Saúde tem Cura” de Silvio Tendler é uma ferramenta de conscientização sobre a resiliência de um sistema crucial à promoção da justiça social no Brasil.
POR TATIANA CARLOTTI
O documentário Saúde tem Cura, de Silvio Tendler, é mais do que um filme: é um manifesto em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), o maior programa público do mundo. É também a prova viva do que pode acontecer quando a sociedade civil se une em torno de um objetivo comum.
O filme traz depoimentos de usuários do sistema, profissionais de saúde, especialistas e protagonistas da história de um modelo forjado na luta social, que atende gratuitamente mais de 190 milhões de pessoas e é a única alternativa de tratamento para 80% dos brasileiros.
Com uma linguagem hipnotizante, o documentário de Tendler percorre a história da saúde brasileira, partindo das epidemias do século XIX, passando pela consolidação do SUS como direito universal na Constituição de 1988, até seu papel central na redução das mortes pela Covid-19.
O documentário mostra a revolução que foi – e ainda é – a instituição de um atendimento gratuito e igualitário no combate às nossas desigualdades. Logo no início, Tendler evidencia o contraste entre o público e o privado, mostrando como um simples exame, como um ecocardiograma, pode custar R$ 358,70 na rede particular – um valor inviável para a maioria da população.

História
Ao mergulhar na história, o filme reconstrói a brutal realidade de um Brasil sem SUS, quando surtos de varíola, febre amarela, peste bubônica e tuberculose devastavam uma população miserável e desassistida. Hospitais eram poucos e destinados apenas aos mais ricos ou à caridade.
Foram tempos de Vital Brazil, Adolfo Lutz e Oswaldo Cruz, que, ao combaterem epidemias, gestaram instituições como o Instituto Butantan e a Fiocruz, pilares da saúde pública nacional. Por décadas, apenas quem contribuía com a previdência social tinha direito à assistência médica, deixando uma multidão de trabalhadores informais desamparados.
Frente à situação calamitosa, o documentário mostra as lutas a partir dos anos 1960 que deram origem às sementes do que viria a ser o SUS. Sementes abafadas pela ditadura militar, que financiou a construção de hospitais privados e os transformou em prestadores de serviços ao Estado, gerando fraudes absurdas, como registros de cesarianas em homens e contas hospitalares nababescas.
Foi a mobilização pela redemocratização que deu força à luta por uma saúde pública para todos. O documentário mostra como a luta pela saúde universal e pela democracia estão umbilicalmente ligadas. O momento decisivo veio na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, a primeira aberta à participação popular, com metade dos delegados vindos da sociedade civil. Dessa conferência nasceu a Comissão Nacional da Reforma Sanitária, cujas diretrizes foram incorporadas à Constituição de 1988, transformando a saúde em um direito universal.

Desafios
O filme também dedica atenção especial à pandemia de Covid-19, mostrando como o SUS foi decisivo para evitar uma tragédia ainda maior. Hospitais lotados, profissionais exaustos e comunidades vulneráveis só tiveram acesso a diagnóstico, tratamento e vacina graças à rede pública.
Como afirma o padre Júlio Lancellotti: “A pandemia não foi maior porque não conseguiram destruir o SUS.” O documentário lembra que foram os investimentos realizados em 2010 que fortaleceram a Fiocruz e o Butantan, permitindo ao país produzir a vacina contra a Covid.
A narrativa também destaca a presença do SUS em praticamente todos os serviços de saúde, do transplante de órgãos – ele é responsável por 95% dos procedimentos no país – à saúde preventiva nas comunidades. Em um único dia, cerca de 10 milhões de crianças são vacinadas contra poliomielite, sarampo, tétano, coqueluche e tuberculose nas campanhas do Programa Nacional de Imunização.
Tendler também aborda os problemas e traz uma denúncia detalhada sobre os desafios do SUS, em particular a absurda situação do maior programa de saúde do mundo, que detém o menor nível de financiamento público entre os sistemas universais. Boicotes, redução de gastos e uma série de tentativas frustradas são abordadas, como o caso da CPMF, uma batalha do doutor Adib Jatene que propôs reforçar a rede de saúde universal por meio do imposto.
O filme traz ainda uma forte reflexão sobre os desafios atuais, num momento em que a medicina se alia às novas tecnologias, cujas patentes estão concentradas nas mãos de poucos países, ampliando as desigualdades globais.
Mais do que um documentário apaixonante, Saúde tem Cura de Silvio Tendler é uma ferramenta de conscientização sobre a resiliência de um sistema crucial à promoção da justiça social no Brasil.
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Imagens: cenas de animação do documentário.

Tatiana Carlotti é repórter do Fórum 21 desde 2022. Cobre política e sociedade, confira aqui.
