Telas de março e do futuro

Junto com as águas de março que não sabemos se vão chegar este ano, com as incertezas originadas pelo agravamento das mudanças climáticas, as telonas dos cinemas vão se agitar no pós/carnaval, no pós/Oscar e no pós/Festival Internacional de Cinema de Berlim que acaba de ocorrer.
Já o futuro, como mostra a curiosa distopia cinematográfica Máquina do Tempo, talvez seja melhor não espicaçá-lo, como mostra esse filme/ensaio programado para os cinemas, dia 13 do próximo mês.
Mas uma das mais estridentes estreias do momento, que certamente se prolongará por março adentro, é O Brutalista. O filme do americano Brady Corbet, de 36 anos, correu por fora durante os dois últimos meses e não chegou a ser fortemente divulgado embora seja poderoso candidato ao Oscar 2025 a ser anunciado domingo, dia 01/03. The Brutalist foi em parte ofuscado, nas análises da mídia especializada e nas resenhas de todas as espécies, pelo filme de Walter Salles, Ainda estou Aqui, a formidável e bem-vinda surpresa cinematográfica que fascina e emociona plateias de todos os gêneros, idades, origens, idiomas e ideologias nos diversos países onde se encontra em cartaz. Um filme que provoca ressonâncias políticas e jurídicas até aqui inimagináveis no Brasil.
Na onda gigante dos filmes brasileiros que ressurgiram com toda força pós-período da pandemia do covid, Girassol Vermelho, do mineiro Eder Santos e co-dirigido por Thiago Villas Boas, chega aos cinemas no dia 20 de março. Inspirado no escritor e jornalista também mineiro, Murilo Rubião, mestre do realismo fantástico, conta a jornada de Romeu, um homem que procura ser livre e encontra uma estranha cidade onde um sistema opressor não permite questionamentos e o arrasta para uma sequência de interrogatórios e torturas.
Outro filme programado para estrear no segundo semestre de 2025 é A Melhor Mãe do Mundo, de Anna Muylaert. Críticos que já o conhecem dizem ser mais um vigoroso trabalho da diretora paulista Anna Muylaert, planejado para estrear mais adiante. O roteiro de Muylaert com Grace Passô e Mariana Jaspe acompanha uma catadora de recicláveis que decide fugir dos abusos do marido após tentar denunciá-lo e ser ignorada pela polícia. Para proteger os filhos, a mulher abandona a casa, coloca as crianças pequenas na sua carroça e as leva em uma jornada pela cidade de São Paulo. O filme foi recebido com aplausos entusiasmados na Berlinale deste ano onde a diretora já foi premiada com o seu Que Horas Ela Volta?
Hora do Recreio (Playtime), por sua vez, é documentário escrito, produzido e dirigido por Lucia Murat, outra realizadora brilhante do cinema brasileiro. Discute temas como evasão escolar, racismo, tráfico de drogas, balas perdidas e gravidez na adolescência a partir da perspectiva de estudantes entre 16 e 19 anos, de quatro escolas públicas do Rio de Janeiro. Conquistou Menção Especial do Júri Jovem na Berlinale, mistura arte e depoimentos, tem no elenco meninos da comunidade da Rocha e reflete a realidade escolar da favela. Deve estrear no Brasil ainda este ano.
O Último Azul recebeu uma consagração no recente Festival de Berlim, um dos três eventos cinematográficos mais respeitados da Europa, onde ganhou o Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri. Blue Trail, do diretor pernambucano Gabriel Mascaro, já foi vendido para 15 países e deve entrar logo em exibição nacional. A atriz protagonista, Denise Weinberg, e presente em Berlim, comentou ao receber a estatueta: “Estamos alavancando o cinema brasileiro depois de anos de trevas’’.
Outro cartaz de março aguardado com expectativa é Kontinental 25, de Radu Jude, co-produção Romênia, Suíça, Brasil (com Rodrigo Teixeira), Grã-Bretanha e Luxemburgo que também bombou na Berlinale onde ganhou o Urso de Prata na categoria de roteiro que é de autoria do diretor do filme. Trata-se de um drama abordando uma crise imobiliária, a economia pós-Guerra Fria e o nacionalismo.
Esta semana, mais uma estreia que também se prolongará março adentro. Um Completo Desconhecido, cinebiografia de Bob Dylan com direção de James Mangold, e com um dos atores queridinhos dos adolescentes, Thimothée Chamalet. É candidato também a vários Oscar e nos traz Dylan, nos anos 60, com 19 anos, caminhando rumo à sua ascensão musical. Passando de cantor folk para as salas de concerto e o topo das paradas, culmina com o desempenho inovador de Dylan no rock and roll elétrico do célebre Festival Folclórico de Newport, em 1965.
E o inglês Máquina do Tempo, com 80 minutos de duração, do britânico Andrew Legge é anunciado como ficção científica “com estética vintage”. Relata a história das irmãs Thom e Mars, inventoras de uma máquina batizada de Lola (título original do filme) que pode interceptar sinais de rádio e de televisão do futuro. Mas Lola se mostra perigosa porque quando suas inventoras compartilham essas transmissões com outras pessoas, mudanças devastadoras podem ocorrer, como acontece na máquina das moças, na Segunda Guerra Mundial. No começo do filme a guerra se encontra na fase da blitzkrieg dos alemães e dos bombardeios sistemáticos da Inglaterra.
O título adotado no Brasil para Lola remete ao clássico de H.G. Welles, A Máquina do Tempo, relato de um cientista que viaja ao futuro até o ano 802.701 onde encontra um mundo em decadência. A atmosfera do filme de Legge, produção independente que estreia no próximo dia 13 de março, é inusitada. Suas filmagens foram realizadas com câmeras e lentes da década de 1930 e o resultado foi processado em um tanque de revelação de 16 milímetros, da era soviética (!). As cenas simulam gravações feitas pelos próprios personagens com o objetivo de transportar o espectador ao passado e a iluminação é sempre indireta, com feixes de luzes distribuídos em vários pontos do ambiente das duas irmãs, na sua casa isolada no campo e imersas em um clima de nostalgia. Embora a produção de Máquina do Tempo tranquilize o espectador e prometa conforto para seus olhos, o filme é cansativo visualmente, e deve ser assistido em tela grande. Mas é uma extravagante alegoria musicada com excelente trilha sonora de autoria de Neil Hannon, o líder do grupo musical The Divine Comedy, incluindo nada menos que o som de David Bowie, de The Kinks e espetaculares composições clássicas do inglês Edward Elgar. Máquina do Tempo está em cartaz nas telonas.

Jornalista.
