Trabalho é tempo de vida e nossa chave de conexão com o mundo

O trabalhador sangra no relógio, mas segue de pé: cada hora arrancada do abuso é uma semente de futuro. Neste 1º de Maio, assista O Futuro é Nosso!
POR JOANNE MOTA
O Futuro é Nosso, de Silvio Tendler, chega como quem bate à porta sem cerimônia e senta à mesa para conversar sério. Não é filme para distração passageira; é filme para acordar nervos adormecidos. Ao olhar para a reforma trabalhista, a robotização e a inteligência artificial, o documentário pergunta algo essencial: quem colherá os frutos do progresso — o povo que trabalha ou os poucos que lucram com o suor alheio?
Tendler tem longa estrada no cinema político brasileiro e conhece o peso da memória. Aqui, ele reúne vozes diversas para mostrar que o trabalho não é apenas contrato, folha de pagamento ou estatística. Trabalho é tempo de vida. Trabalho é o corpo que volta cansado para casa, a mãe que sai cedo, o jovem que sonha entre um turno e outro, o professor que insiste apesar do desgaste. Quando se atacam direitos, ataca-se a própria dignidade cotidiana.



O filme acerta ao mostrar que o sindicalismo nunca foi luxo nem capricho. Foi trincheira. Foi escudo. Foi ferramenta coletiva para transformar medo em reivindicação. Em tempos de campanhas que tentaram pintar sindicatos como problema, o documentário devolve a perspectiva histórica: sem organização popular, a balança pende sempre para o lado mais pesado do capital. É uma lição antiga, ainda urgente.
E falar disso no dia 1º de Maio tem força simbólica imensa. O Dia de Luta dos Trabalhadores e das Trabalhadoras não nasceu de festa oficial, mas de luta, sangue e enfrentamento. No Brasil, essa data carrega greves, marchas, conquistas salariais, férias, descanso semanal, carteira assinada, previdência e tantas vitórias que hoje alguns tratam como se tivessem caído do céu. Não caíram. Foram arrancadas com organização e coragem.
Em 2026, uma das bandeiras mais vivas dessa história atende por um nome simples e contundente: o fim da escala 6×1, sem perdas salariais. E neste cenário, o filme ajuda a compreender por quê. Não se trata de preguiça, como repetem os velhos moralistas da exploração. Trata-se de saúde mental, convivência familiar, estudo, lazer, tempo para viver. O ser humano não nasceu para existir apenas entre ponto eletrônico e exaustão.
Há momentos em que o documentário lembra João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina: a secura da vida narrada sem enfeite, para que a verdade apareça inteira. O trabalhador brasileiro muitas vezes vive na conta exata, sem sobra de dinheiro, de descanso ou de esperança. Tendler filma esse aperto estrutural sem melodrama barato. Basta olhar para reconhecer.
O Futuro é Nosso olha para quem quase sempre é reduzido a número. Entregadores, professores, operários, servidores, informais, terceirizados: gente que sustenta cidades inteiras e, ainda assim, costuma aparecer apenas quando falta ou protesta. O filme recoloca essas vidas no centro da narrativa.

Ao abordar tecnologia e inteligência artificial, a obra evita tanto o deslumbramento ingênuo quanto o pânico vazio. A pergunta não é se as máquinas avançarão — elas avançam. A pergunta é quem controla esse avanço e para qual projeto de sociedade. Se a inovação servir para reduzir jornadas, melhorar condições e distribuir riqueza, haverá horizonte. Se servir apenas para demitir, vigiar e concentrar renda, será só velho abuso com roupa nova.
Há, no conjunto, uma generosidade política rara: o filme não trata trabalhadores como massa abstrata, mas como sujeitos de pensamento e ação. Isso muda tudo. Porque quando o povo se reconhece protagonista, a resignação perde terreno. Drummond escreveu sobre a pedra no caminho; aqui, a pedra continua posta, mas agora se vê muita gente empurrando junta.
No fim das contas, O Futuro é Nosso sustenta uma verdade simples e poderosa: nenhum direito veio de presente, nenhum futuro virá por caridade. O Brasil que trabalha sabe disso na pele. E enquanto houver memória do 1º de Maio, luta pelo fim da escala 6×1 sem perdas e disposição para organizar esperança, haverá amanhã.
Corre e assista o filme na plataforma Fatoflix!
Bom filme!

Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.
