Trançatlânticas: um filme sobre a resistência que amarra a esperança fio a fio

Trançatlânticas: um filme sobre a resistência que amarra a esperança fio a fio

Em um país que insiste em ferir os seus, e insiste em se reinventar pelas mãos de quem resiste, histórias como a de Trançatlânticas nascem como quem amarra esperança fio por fio.

POR JOANNE MOTA

Há filmes que contam histórias. Outros fazem algo mais raro: abrem caminhos. Peço licença para falar, a partir do meu sentir, do curta documental Trançatlânticas (Brasil, 2025), dirigido por Isabela Leite. Uma peça que, em apenas 15 minutos, consegue atravessar continentes simbólicos — da África ancestral às periferias urbanas brasileiras — para lembrar que aquilo que muitos veem como estética é, na verdade, memória viva, tecnologia cultural e ferramenta de sobrevivência.

Assistir ao documentário no mês da luta internacional das mulheres tem um sabor ainda mais forte. Porque Trançatlânticas não fala apenas sobre cabelos. Fala sobre mulheres que sustentam mundos inteiros com as mãos. Mãos que trançam, que cuidam, que criam renda, que constroem comunidade. Mãos que contam histórias que muitas vezes não entraram nos livros, mas que vivem nos salões improvisados, nas casas, nas ruas e nas quebradas. O filme acompanha cinco mulheres que transformam o ato de trançar em conversa, manifesto e projeto de vida: Eudi Melo, Bia Kellen, Mariama, Célia Sampaio e Débora Melo. Entre cenas do cotidiano, poesia falada, música e imagens do trabalho paciente de entrelaçar fios de cabelo, o documentário constrói algo que vai além de uma narrativa linear. É uma espiral de memórias e afetos.

A escolha da palavra “espiral” não é gratuita. Em muitas cosmologias africanas e afro-diaspóricas, a espiral representa o tempo que não é linha reta — é movimento, retorno, continuidade. Como escreveu o poeta martinicano Aimé Césaire[1], um dos pais do movimento da negritude, “uma civilização que se prova incapaz de resolver os problemas que suscita é uma civilização decadente”. Mas também é verdade o inverso: quando um povo inventa novos caminhos a partir de suas raízes, ele se reinventa.

E é justamente isso que Trançatlânticas mostra. O chamado trancismo — o universo cultural, estético e econômico que envolve as tranças — aparece como tecnologia ancestral em movimento. Durante séculos, o trançar foi forma de identidade, comunicação e até estratégia de resistência. Há registros históricos de que, no período da escravidão, desenhos de tranças podiam esconder mapas de fuga ou sementes para o futuro. No documentário, essa herança atravessa o tempo e chega ao presente em forma de autonomia econômica e afirmação cultural. As protagonistas falam de trabalho, autoestima, independência financeira e pertencimento. Falam de salões conquistados com esforço, de clientes que viram amigas, de meninas que se reconhecem no espelho quando finalmente veem seus cabelos valorizados.

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Há algo profundamente emocionante na forma como o filme retrata esse reconhecimento. Não é apenas representação — é devolução de imagem. Como escreveu Conceição Evaristo[2], “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”. Cada trança feita, cada história contada, parece responder exatamente a esse pacto de sobrevivência.

Visualmente, o filme mistura cores, sons urbanos e momentos quase oníricos. Mas o onírico aqui não é fuga da realidade — é o contrário. É aquele instante raro em que a realidade se revela bela quando finalmente é contada por quem a vive. Quando a periferia deixa de ser coadjuvante e assume seu lugar de protagonista. Talvez seja por isso que Trançatlânticas pareça maior do que seus 15 minutos. Porque ele não termina quando sobem os créditos. Ele continua nos salões de bairro, nas mães ensinando filhas, nas jovens que transformam uma habilidade ancestral em profissão, autonomia e arte.

No fim das contas, o documentário de Isabela Leite lembra algo simples e poderoso: trançar é construir caminhos. Caminhos que ligam passado e futuro, África e Brasil, estética e política, sobrevivência e sonho, tudo isso fio a fio. E em um país que tantas vezes tenta desfazer esses laços, há algo profundamente revolucionário em seguir trançando — juntas.

Assista a essa bela peça na plataforma FatoFlix.


[1] Conferir ‘Textos escolhidos’: Aimé Césaire e o pensamento decolonial. Acessado em 11 de março de 2026: https://www.nexojornal.com.br/estante-trechos/2022/07/15/textos-escolhidos-aime-cesaire-e-o-pensamento-decolonial

[2] Conferir: Artigo | “Combinaram de nos matar. Mas nós combinamos de não morrer” (Conceição Evaristo). Acessado em 11 de março de 2026: https://www.brasildefato.com.br/2022/03/03/artigo-combinaram-de-nos-matar-mas-nos-combinamos-de-nao-morrer-conceicao-evaristo/

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