Vivência do cinema político após os anos 1970s

Vivência do cinema político após os anos 1970s

Após os anos 1970, o cinema político deixou de se organizar em torno da esperança revolucionária coletiva. Passou progressivamente a refletir a respeito de desencanto, fragmentação social, crise das utopias, financeirização, manipulação midiática, subjetividade neoliberal, vigilância e niilismo contemporâneo.

Por Fernando Nogueira da Costa

Embora a geração de 1968 tenha vivido o momento mais explosivo de politização cultural do cinema moderno, as décadas posteriores continuaram oferecendo filmes marcantes para intelectuais interessados em crítica ao capitalismo, autoritarismo, alienação, colonialismo, mídia, violência estatal e crise da modernidade.

Houve, entretanto, uma mudança importante. Após os anos 1970, o cinema político deixou de se organizar em torno da esperança revolucionária coletiva. Passou progressivamente a refletir a respeito de desencanto, fragmentação social, crise das utopias, financeirização, manipulação midiática, subjetividade neoliberal, vigilância e niilismo contemporâneo.

Logo, a formação política continuou ocorrendo, mas sob outro clima histórico. Alguns filmes tiveram enorme impacto formativo sobre intelectuais públicos críticos.

Na década de 1970, o desencanto e a crítica estrutural foram mostrados no filme Z (1969 /na foto acima), dirigido por Costa-Gravas. Foi um grande paradigma do cinema político moderno sobre conspiração estatal, repressão e manipulação institucional. Influenciou profundamente universitários latino-americanos sob ditaduras.

A Confissão (1970) era uma crítica devastadora ao stalinismo e aos mecanismos burocráticos da confissão política.

Todos os Homens do Presidente (1976) transformou o jornalismo investigativo em mito democrático moderno. Influenciou gerações de intelectuais públicos e jornalistas.

Taxi Driver: Motorista de Táxi (1976) foi um símbolo da alienação urbana, da violência masculina e da decomposição subjetiva no capitalismo tardio.

 Apocalypse Now (1979) mostrou a guerra do Vietnam como loucura imperial e colapso civilizatório.

A partir da década de 1980, a direita internacional espraiou o neoliberalismo, dominando a  grande mídia e levando à distopia. O cinema, então, começou a captar a ascensão do neoliberalismo, da cultura empresarial e da espetacularização comercial.

Blade Runner: O Caçador de Androides (1982) foi o filme de ficção científica mais influente para pensar megacorporações, urbanização distópica, tecnologia, pós-humanismo, degradação social, capitalismo global.

Brazil (1985) espelhou a burocracia totalitária, misturada ao consumo de massa e à paranoia administrativa. Essa sátira, logo após o fim da ditadura militar no Brasil real, critica um Estado tecnocrata e hiper industrial. Um pequeno erro leva a uma morte desnecessária e à escalada absurda desse problema.

Eles Vivem (They Live, 1988) foi assistido como um filme de crítica ideológica ao conformismo: OBEY-CONSUME-SLEEP. Transformou-se em metáfora permanente da alienação pelo consumo e pela mídia.

Wall Street: Poder e Cobiça (1987)  tornou-se símbolo do ethos financeiro dos anos Reagan-Thatcher. A continuação Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (2010) foi filmada após a Grande Crise Financeira (GCF) de 2008.

Na década de 1990, o cinema mostrava a globalização e a crise subjetiva provocada pelo neoliberalismo. Após a queda da URSS, o cinema político tornou-se mais fragmentado e existencial.

JFK (1991) questionava narrativas oficiais e aprofundava a desconfiança institucional.

A Lista de Schindler (1993) recolocou memória histórica, fascismo e responsabilidade moral no centro da cultura global.

Eu nunca tive ânimo de assistir os dois filmes seguintes. Quando fui conferir, eu me decepcionei com o elogio ra violência,

Clube da Luta (1999) captou como poucos o vazio consumista, a masculinidade em crise, o trabalho corporativo alienado e a rebelião sem horizonte coletivo. Um homem deprimido sofre de insônia e conhece um estranho vendedor, então muda para uma casa suja, depois de seu perfeito apartamento ser destruído. A dupla forma um clube com regras rígidas onde homens lutam.

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Matrix (1999) mostrou o maior mito filosófico-pop da virada do milênio: realidade simulada; controle sistêmico; alienação tecnológica; libertação cognitiva. Virou linguagem comum da crítica cultural contemporânea.

No século XXI, o cinema mostra o capitalismo financeiro, mas ao mesmo tempo critica a vigilância policial e o colapso social.

Cidade de Deus (2002) impactou profundamente intelectuais brasileiros ao articular violência estrutural, exclusão urbana, narcotráfico, ausência estatal e mídia.

O Jardineiro Fiel (2005) fez uma crítica à indústria farmacêutica global e ao neocolonialismo corporativo.

A Grande Aposta (2008) popularizou a crítica à financeirização e à crise de 2008.

Parasita (2019): o filme coreano foi o mais emblemático recentemente sobre desigualdade, segregação espacial, humilhação social e capitalismo contemporâneo.

Há também uma diferença geracional decisiva. Para a geração universitária dos anos 1970, o cinema era experiência coletiva, cineclubista, politicamente ritualizada, escassa e disputada. Já nas gerações posteriores a experiência tornou-se mais individualizada, mediada por VHS, TV a cabo, streaming e internet, menos vinculada a organizações políticas formais.

Isso alterou o tipo de formação intelectual. A geração de 1968 acreditava na transformação histórica coletiva.

O cinema posterior passou a expressar crítica sem revolução, consciência sem organização e indignação sem horizonte utópico claro.

Ainda assim, continuou formador de intelectuais públicos críticos, sobretudo, atentos às transformações do capitalismo contemporâneo, da subjetividade e das novas formas de dominação simbólica.

Onde assistir:

Z (1969), dirigido por Costa-Gravas: https://www.youtube.com/watch?v=9c0KJw5h_i8 

A Confissão (1970), dirigido por Costa-Gravas: https://www.youtube.com/watch?v=Tqt8GGTQhCk

Todos os Homens do Presidente (1976): Disponível por assinatura no Max e no Looke. Pode ser alugado no Prime Video e na Apple TV.

Taxi Driver: Motorista de Táxi (1976) – Disponível por assinatura no Max e no Looke. Pode ser alugado no Prime Video e na Apple TV.

Apocalypse Now (1979): DVD + aluguel na Apple TV

Blade Runner: O Caçador de Andróides (1982) – : Disponível por assinatura no Prime Video. Também está disponível para aluguel no Google Play Filmes e na Apple TV.

Brazil (1985): Disponível no catálogo do Disney+.

Eles Vivem (They Live, 1988): Pode ser assistido no Prime Video e na Apple TV.

Wall Street: Poder e Cobiça (1987): DVD  + Disponível no streaming do Disney+ e no Prime Video.

Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (2010): DVD + Disponível no streaming do Disney+ e no Prime Video.

JFK (1991): Disponível para aluguel ou compra digital no Prime Video e Google Play.

A Lista de Schindler (1993): DVD + aluguel/compra digital no Prime Video, Apple TV

Clube da Luta (1999): Disponível no catálogo do Disney+, Globoplay e Netflix.

Matrix (1999): Disponível no Globoplay e no Prime Video.

Cidade de Deus (2002): Disponível nos catálogos da Netflix, Globoplay e Max.

O Jardineiro Fiel (2005): Disponível para aluguel ou compra digital no Prime Video e Apple TV.

A Grande Aposta (2008): Disponível para streaming no Globoplay (através do canal Universal+) e para aluguel no Prime Video.

Parasita (2019): Disponível no catálogo da Netflix e do Globoplay.


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