1º de Maio na ditadura militar: repressão e resistência da classe trabalhadora

1º de Maio na ditadura militar: repressão e resistência da classe trabalhadora

A resistência construída durante a ditadura permanece como referência histórica e política. (Foto: Depredação do Sindicato dos Metalúrgicos – Arquivo Nacional, fundo Correio da Manhã/Wikipedia)

POR MARCOS AURÉLIO GOMES RIBEIRO
Desacato

O Dia do Trabalhador, durante a ditadura instaurada com o Golpe empresarial-militar de 1964, foi marcado por forte controle estatal, repressão e tentativas de esvaziamento de seu conteúdo histórico de luta. Como observa o historiador Boris Fausto, o regime buscou integrar os sindicatos à estrutura estatal, limitando sua autonomia e capacidade de mobilização.

Nesse contexto, o 1º de Maio foi convertido em celebração oficial, controlada e despolitizada. Contudo, como destaca Daniel Aarão Reis, a repressão não eliminou a resistência, mas a deslocou e, em muitos casos, a radicalizou. Mesmo sob vigilância, trabalhadores organizaram paralisações, assembleias e manifestações que reafirmavam o caráter combativo da data.

Um episódio emblemático desse processo ocorreu em 1968. No 1º de Maio daquele ano, na Praça da Sé, em São Paulo, trabalhadores e estudantes protagonizaram o chamado “apedrejamento” do palanque oficial. Manifestantes indignados atacaram o espaço onde estavam autoridades do regime, incluindo o então governador Roberto Abreu Sodré. O episódio evidenciou o acirramento da oposição sindical e estudantil, antecipando o ciclo de grandes mobilizações que culminaria na Passeata dos Cem Mil.

Em A História do sindicalismo brasileiro nos anos de chumbo, Marcos Aurélio Gomes Ribeiro afirma que “o 1º de Maio converteu-se em espaço de disputa simbólica entre o Estado autoritário e a classe trabalhadora, revelando as contradições profundas do regime”. Em outro momento, ressalta que “cada ato reprimido e cada tentativa de silenciamento reforçavam a consciência de que os direitos seriam conquistados apenas por meio da organização e da luta”.

A repressão ao movimento sindical foi sistemática. Intervenções em sindicatos, cassações de dirigentes e perseguições políticas compuseram o cotidiano do período. Episódios como o assassinato do operário Santo Dias evidenciam o grau de violência empregado contra a organização dos trabalhadores. Segundo Jacob Gorender, o regime recorreu abertamente à força para conter a reorganização operária, explicitando seu caráter autoritário e antipopular.

Nesse cenário, a participação das mulheres foi decisiva. Lideranças como Margarida Maria Alves simbolizam a resistência no campo, enfrentando tanto a exploração quanto a violência política. Como aponta Ribeiro, “as mulheres desempenharam papel central na sustentação das lutas, articulando redes de solidariedade e garantindo a continuidade da organização sindical mesmo sob intensa repressão”. A trajetória de Olga Benário Prestes também revela a profundidade histórica da presença feminina nas lutas sociais e políticas no Brasil.

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Apesar da repressão, o final da década de 1970 foi marcado pela retomada das grandes mobilizações operárias. As greves desse período recolocaram o movimento sindical no centro da cena política e devolveram ao 1º de Maio seu caráter de enfrentamento. Como analisa Ricardo Antunes, o chamado novo sindicalismo emergiu como resposta às limitações impostas pelo modelo autoritário, afirmando a autonomia e a combatividade dos trabalhadores.

Retomar essa trajetória é fundamental para compreender o presente. A classe trabalhadora brasileira segue enfrentando profundas transformações, marcadas pela precarização das relações de trabalho, pela ampliação da terceirização e por reformas que fragilizam direitos historicamente conquistados. A persistência de jornadas exaustivas, como a escala 6×1, expressa a continuidade de um modelo que subordina a vida ao lucro.

Como aponta Ribeiro, “as transformações recentes do mundo do trabalho não eliminaram a luta de classes; ao contrário, a reorganizaram sob novas formas de exploração e precarização”. Nesse sentido, o 1º de Maio mantém plena atualidade: mais do que uma data comemorativa, é um momento de memória, denúncia e mobilização.

A resistência construída durante a ditadura permanece como referência histórica e política. Em um contexto de novos ataques aos direitos trabalhistas, recordar essas lutas é reafirmar que nenhuma conquista foi fruto de concessão — todas nasceram da organização e da luta coletiva da classe trabalhadora.

Referências:

Ribeiro, Marcos Aurélio Gomes. A História do sindicalismo brasileiro nos anos de chumbo.
Fausto, Boris. História do Brasil.
Reis, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil.
Gorender, Jacob. Combate nas trevas.
Antunes, Ricardo. O privilégio da servidão.

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