AdaptaCidades: uma oportunidade para Itabuna planejar seu futuro climático
Por Elissandro Santana / Desacato
A discussão sobre a necessidade de preparar Itabuna para as enchentes, inundações e alagamentos ganha ainda mais relevância diante de uma oportunidade institucional que o município não pode desperdiçar. Itabuna está entre os municípios baianos selecionados para a iniciativa AdaptaCidades, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, no âmbito do Programa Cidades Verdes Resilientes. Ao lado de outros municípios estratégicos da Bahia, Itabuna foi incluída em uma iniciativa que busca fortalecer a capacidade dos governos locais para compreender, planejar e enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
A escolha dos municípios não ocorreu de maneira aleatória. A seleção considerou critérios relacionados à vulnerabilidade climática, incluindo riscos hidrológicos, deslizamentos, secas, população exposta a riscos geo-hidrológicos e vulnerabilidade social. Isso significa que a própria inclusão de Itabuna nessa iniciativa deve ser compreendida como um reconhecimento da necessidade de ampliar a capacidade municipal de planejamento e adaptação diante de um cenário climático que exige respostas cada vez mais estruturadas.
Mais do que a elaboração de um documento, o AdaptaCidades oferece a possibilidade de construção de uma nova forma de pensar a gestão urbana. A iniciativa trabalha com capacitação técnica, apoio metodológico, informações sobre riscos climáticos, governança e articulação entre diferentes níveis de governo. No início de 2026, representantes de Itabuna participaram, juntamente com os demais municípios baianos selecionados, da primeira oficina estadual voltada justamente à estruturação dessa governança climática e à elaboração dos planos municipais de adaptação.
É justamente nesse ponto que o AdaptaCidades pode assumir importância estratégica para Itabuna.
O município não deve enxergar o plano de adaptação climática como mais um documento a ser produzido e posteriormente arquivado. Ao contrário, esse processo precisa ser utilizado como uma oportunidade para reorganizar a própria maneira de planejar a cidade. A adaptação climática deve atravessar as políticas de saneamento, drenagem, urbanismo, habitação, mobilidade, meio ambiente, infraestrutura, saúde, agricultura, defesa civil e gestão dos recursos hídricos.
Uma gestão urbana climaticamente eficiente não pode atuar apenas depois que o evento extremo acontece. Ela precisa antecipar cenários, identificar vulnerabilidades, estabelecer prioridades, produzir informações, orientar investimentos e incorporar o risco climático às decisões cotidianas de governo.
É nessa perspectiva que o AdaptaCidades pode representar um ponto de inflexão para Itabuna.
A elaboração do Plano Municipal de Adaptação pode servir para aproximar aquilo que muitas vezes é tratado de maneira separada: o conhecimento climático, os mapas de risco, o planejamento urbano, a drenagem, a infraestrutura, a proteção ambiental e a redução de riscos de desastres. Em vez de políticas públicas fragmentadas, o município pode começar a construir uma estratégia integrada de resiliência.
E uma das expressões mais concretas dessa estratégia pode ser justamente a construção de uma Itabuna-esponja.
O conceito de cidade-esponja pode ser incorporado ao planejamento de adaptação climática como uma diretriz para transformar a relação do território com as águas. Jardins de chuva, áreas de biorretenção, pavimentos permeáveis, parques lineares, recuperação de áreas verdes, proteção de nascentes, sistemas de captação de águas pluviais, reservatórios, telhados verdes e outras soluções baseadas na natureza podem deixar de ser iniciativas pontuais para fazer parte de uma política municipal integrada.
O Plano Municipal de Adaptação, nesse sentido, pode identificar onde essas soluções são mais necessárias, quais territórios apresentam maior vulnerabilidade e onde os investimentos podem produzir maior redução de riscos. A cidade-esponja deixaria, assim, de ser apenas uma ideia urbanística e passaria a integrar uma estratégia de adaptação baseada nas características concretas do território itabunense.
Essa integração é particularmente importante porque adaptação climática não significa apenas preparar a cidade para o clima futuro; significa também corrigir vulnerabilidades que já existem no presente.
Itabuna não precisa esperar que os cenários climáticos futuros se concretizem para começar a agir. As grandes cheias, os alagamentos e as inundações já demonstraram que existem vulnerabilidades que precisam ser enfrentadas agora. O planejamento climático deve, portanto, olhar simultaneamente para o que já acontece e para aquilo que poderá acontecer.
É nesse sentido que a participação de Itabuna no AdaptaCidades pode ser aproveitada como uma oportunidade histórica. O município possui a possibilidade de utilizar conhecimento técnico, planejamento, governança e articulação institucional para construir uma agenda própria de adaptação, adequada às suas características ambientais, sociais e territoriais.
Mais do que elaborar um plano para cumprir uma exigência institucional, é preciso construir uma política permanente de gestão climática urbana.
Essa política precisa responder a perguntas fundamentais: onde estão as maiores vulnerabilidades? Quais áreas precisam ser protegidas? Onde a água pode ser retida? Onde é possível ampliar a infiltração? Quais bairros precisam ser priorizados? Quais obras são necessárias? Quais áreas verdes precisam ser recuperadas? Como o crescimento urbano deverá ocorrer daqui para frente? Como os novos empreendimentos deverão considerar as águas pluviais? Como os investimentos públicos podem reduzir riscos em vez de reproduzi-los?
Responder a essas perguntas significa transformar informação climática em decisão pública.
E é justamente essa transformação que pode fazer do AdaptaCidades muito mais do que um programa de capacitação. Pode fazer dele uma ferramenta para construir uma nova cultura de planejamento em Itabuna.
A cidade precisa aproveitar esse momento para avançar de uma gestão predominantemente reativa para uma gestão urbana climática, preventiva, integrada e territorialmente orientada.
Se o século XXI exige cidades mais resilientes, Itabuna tem diante de si uma oportunidade concreta para começar essa transformação.
O AdaptaCidades pode oferecer o caminho metodológico. O conhecimento produzido pelas universidades e pelos órgãos técnicos pode oferecer a base científica. A Defesa Civil pode contribuir com a experiência acumulada na identificação e gestão dos riscos. As secretarias municipais podem integrar as diferentes políticas públicas. A sociedade pode participar da construção das prioridades. E a cidade-esponja pode representar uma das expressões físicas mais visíveis dessa nova política. Assim, a participação de Itabuna no AdaptaCidades precisa ser compreendida não como um acontecimento isolado, mas como uma oportunidade para pensar o município no longo prazo. Uma oportunidade para que planejamento climático, redução de riscos, gestão das águas e desenvolvimento urbano deixem de caminhar em direções paralelas e passem a constituir uma única estratégia.
Itabuna precisa aproveitar o AdaptaCidades para planejar a cidade que terá de enfrentar o clima das próximas décadas. E, nesse planejamento, aprender a absorver, armazenar, infiltrar e manejar suas águas precisa estar no centro da estratégia. Porque uma cidade preparada para o futuro não é aquela que tenta controlar o clima. É aquela que compreende seus riscos, reduz suas vulnerabilidades e se adapta inteligentemente às condições que não pode controlar.
Uma experiência pessoal na construção dessa agenda
Cabe aqui uma breve consideração de natureza pessoal e institucional. No período em que atuei na Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente do Município de Itabuna, participei do processo de encaminhamento da documentação necessária para que o município pudesse ser contemplado pelo Programa AdaptaCidades. Naquele momento, a iniciativa já representava uma oportunidade importante para que Itabuna avançasse na construção de estratégias de adaptação às mudanças climáticas e no fortalecimento de sua capacidade de planejamento diante dos riscos ambientais e climáticos.
Atualmente, entretanto, minha atuação profissional ocorre em outra Secretaria, com lotação na Defesa Civil do Município de Itabuna. Por essa razão, não disponho de informações institucionais atualizadas que me permitam afirmar em qual etapa se encontra, atualmente, a implementação do AdaptaCidades no município, nem quais foram os encaminhamentos mais recentes relacionados à elaboração do Plano Municipal de Adaptação. Essa distinção é importante para que não se confundam minha participação naquele momento do processo com informações sobre a situação atual do programa.
Ainda assim, considero importante mencionar essa experiência porque ela reforça uma convicção que permanece presente em minha reflexão sobre o futuro de Itabuna: a adaptação climática precisa deixar de ser compreendida como uma agenda setorial e passar a ocupar posição estratégica no planejamento do município.
Independentemente da etapa em que o AdaptaCidades se encontre atualmente em Itabuna, a oportunidade permanece extremamente relevante. O município pode utilizar esse processo para integrar informações climáticas, gestão de riscos, planejamento urbano, saneamento, drenagem, meio ambiente, infraestrutura e proteção e defesa civil. Mais do que produzir um documento, trata-se de construir uma cultura permanente de prevenção e adaptação.
É justamente nesse contexto que a proposta de transformar Itabuna em uma cidade-esponja ganha força. A cidade precisa aproveitar todas as oportunidades institucionais disponíveis para construir uma gestão urbana capaz de antecipar riscos, reduzir vulnerabilidades e manejar melhor suas águas.
Minha atuação atual na Defesa Civil também reforça essa percepção por outra perspectiva. Se anteriormente participei do processo relacionado à agenda ambiental e climática no âmbito da Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente, hoje acompanho a temática a partir do campo da proteção e defesa civil. São perspectivas diferentes, mas complementares. Ambas convergem para uma mesma necessidade: Itabuna precisa se preparar antes que os eventos extremos aconteçam.
A experiência demonstra, portanto, que a adaptação climática não deve pertencer a uma única secretaria, a uma única gestão ou a um único período administrativo. Ela precisa constituir uma política transversal e permanente do município.
E, nesse processo, pensar Itabuna como cidade-esponja pode ser uma das formas mais concretas de transformar a ideia de adaptação climática em território, infraestrutura e proteção da vida.
Elissandro Santana é analista em Infraestrutura e Urbanismo e Supervisor de Estágio – Defesa Civil de Itabuna.
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
