Eleições 2026: O escudo das Américas e a reeleição de Lula

Eleições 2026: O escudo das Américas e a reeleição de Lula

O Brasil é o principal alvo da disputa geopolítica na América Latina. Em meio ao avanço de governos alinhados aos interesses de Washington, a eleição brasileira é decisiva para o futuro da soberania regional e da integração latino-americana e caribenha.

Por Raul Fitipaldi, para Desacato.info.

A Doutrina Monroe, atualizada aos nossos tempos pelo governo de Donald Trump, é uma política de estado, independentemente de quem for o inquilino da Casa Branca. Desta vez, deram um formato novo, fantasiado de democracia, para uma nova versão do Plano Condor, agora estendido por toda a América do Sul. Por via do voto ‘democrático’, e suspeito em alguns dos casos, foram caindo, em efeito dominó, todos os governos progressistas da região, com exceção do Brasil e do Uruguai.

Para sustentar essa nova política de intervenção, quando a democracia não lhes funciona a contento, reprogramaram o roubo e o ataque ao progressismo, independentemente de matizes, criando o Escudo das Américas. Na prática, alicerçaram uma aliança obrigatória com governos de corte conservador e fascista, baseada num roteiro comum escrito na casa do Tio Sam. Não importa quem seja o novo presidente de cada país; são apenas peças de descarte convenientes. No entanto, essas peças têm um papel a cumprir à risca: acabar com a soberania nacional, liberar as riquezas do país em favor dos Estados Unidos e seus parças, e destruir a Classe Trabalhadora.

Esse plano está de olho na cereja do bolo para as tentativas gangsteris de Trump: o Brasil. Já na reta final da eleição brasileira, precisamos repassar o atual elenco de fantoches da América do Sul e lembrar como foi a correlação de forças nas derrotas do progressismo, verificando alguns atores que agem conforme o projeto do escudo intervencionista. Comecemos por esse escudo.

O Escudo das Américas

O Escudo das Américas é uma iniciativa norte-americana, vendida pela mídia hegemônica de cada país como ferramenta de segurança e cooperação militar, aprovada em março de 2026. O amontoado de serviçais reúne governos latino-americanos alinhados e alavancados pelo governo trumpista, sob a narrativa de um suposto combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional. Mas, de fato, é um ferrolho contra a influência da China e outras potências emergentes integradas no BRICS, como a Rússia e o Irã. Isso tudo faz parte do corolário Trump, que transformou a doutrina Monroe em Donroe: a receita para voltar a dominar o quintal.
Quem são os cruzados de Trump?

No início, eram 17 nações e territórios da América do Sul, da América Central e do Caribe. Com a derrota de Iván Cepeda nas eleições presidenciais colombianas, esse número aumentou. Mais adiante, repassaremos dados eleitorais restritos à América do Sul e aos vizinhos do Brasil. Antes, porém, precisamos falar de duas figuras centrais desse projeto.

A primeira é Kristi Noem. Tão controversa e identificada com a agenda trumpista que Trump precisou retirá-la do cenário local, dar-lhe um descanso e realocar toda a sua perversidade a serviço do Escudo das Américas. Noem foi alvo de questionamentos no Comitê Judiciário do Senado devido ao suposto uso inadequado de fundos governamentais e de ativos da Guarda Costeira. O rosário dela é longo, e aqui não temos espaço para tanto. Mas é de temer.

Ele é Marco Rubio, advogado, também republicano, e um dos principais candidatos para um dia substituir Trump, do qual já foi rival nas internas e hoje é o mafioso de estimação. De perfil agressivo e anticubano, é secretário de Estado neste segundo mandato de Donald Trump. Espaçoso, ocupa a função de conselheiro de segurança nacional interino. É o primeiro latino — ou antilatino — a ocupar o cargo de secretário de Estado dos Estados Unidos. Como todo anticubano que se preze, nasceu em Miami, cidade controlada há décadas pela máfia anticastrista.
Rubio teve um papel destacado na invasão da Venezuela, seguida de sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua companheira, a deputada Cilia Flores. Pivô principal de todos os bloqueios e sanções econômicas contra a Venezuela para derrocar o governo chavista, também liderou as ações do tarifaço contra o Brasil, onde é aliado político da gangue bolsonarista.

A tentativa de intromissão e o visto negado
Marco Rubio é o responsável pela fracassada tentativa de enviar ao Brasil “observadores eleitorais”. A reação do Itamaraty foi imediata e foi negado o visto aos espiões de Rubio, Riley Barnes e Samuel Sanson. O Brasil viu, porque disso se tratava, uma tentativa de intromissão nos assuntos da democracia brasileira, com a pretensão de interferir no processo eleitoral, com a manjada história da insegurança das urnas eletrônicas, reconhecidas no mundo pela sua eficiência e transparência. A dupla viria organizar um golpe midiático e jurídico, como fizeram nos países do Pacífico Sul-americano e em Honduras.
O “quintal” está rodeado
É necessário lembrar a correlação de forças eleitorais que derrubou os governos progressistas do Cone Sul, lembrando rapidamente o resultado das eleições em cada país. Sejam resultados honestos ou forjados, todas as vitórias conservadoras contaram com a militância das mídias hegemônicas de cada país, a maioria dos sistemas judiciários, amplos setores das forças armadas, as big techs e as oligarquias nacionais.
Na Argentina, um indivíduo de turva passagem legislativa, mais conhecido por uma produção feita à medida por uma grande rede de comunicação, que o alçou como comentarista e influenciador, Javier Gerardo Milei ganhou as eleições contra o peronismo e seus aliados com 40,84% dos votos, frente aos 31,66% do que poderíamos identificar como campo nacional e popular.
Se, por um lado, o governo muito ruim de Alberto Fernández contribui para a vitória libertária, o aporte dos Estados Unidos, Israel e a campanha de ódio através das redes foram ainda mais importantes. Ódio contra a ex-presidenta Cristina Kirchner e seus candidatos, forjado pelas oligarquias locais alimentadas e comandadas pelo Grupo Clarín, que deixaram em claro seu profundo desconforto com as políticas sociais inclusivas da ex-mandatária e com um estado protagonista.
Ganhou Milei e a Argentina virou um país de extrema pobreza, de desemprego, endividado com o Fundo Monetário Internacional e com um equilíbrio fiscal forte às custas dos trabalhadores.
No Uruguai, em teoria, o cenário é diferente e dialogaria com a realidade progressista brasileira. Yamandú Orsi, da Frente Ampla, venceu as últimas eleições presidenciais do Uruguai, realizadas em novembro de 2024, com um 49,84% dos votos. Ele venceu o Partido Nacional, do ex-presidente conservador, Luis Lacalle Pou. Orsi obteve uma maioria confortável no Senado uruguaio, mas perdeu a câmara baixa para os conservadores, por uma cadeira.
Orsi e a Frente Ampla governam, mas as medidas e atitudes de Orsi, com relação a temas sensíveis para a esquerda uruguaia histórica, o tornaram pouco confiável para amplos setores da coligação. As condutas amáveis relacionadas com os Estados Unidos e a entidade sionista de Israel e outras matérias de política externa, com uma pátina de neutralidade, não convencem boa parte dos seus eleitores e não deveriam convencer aos observadores como o Brasil.
No Paraguai, as eleições aconteceram em abril de 2023, venceu o histórico Partido Colorado. Conservador, vinculado historicamente às políticas dos Estados Unidos e, em boa medida, herdeiro e beneficiário do ditador Alfredo Stroessner, elegeu como presidente o economista Santiago Peña com maioria simples de votos. Ele venceu com 42,74% dos votos. As forças principais derrotadas representavam políticas semelhantes às que executa hoje Peña. Tem uma vida tranquila, tanto no Senado como na Câmara de Deputados.
Nos últimos dias, o Paraguai pretendeu acender um litígio com o governo brasileiro, como fez o presidente argentino na sua ofensiva ingerencista de apoio a Flávio Bolsonaro. Faz parte da trama que começa a ser desenhada explicitamente contra o Brasil. Por outro lado, o Paraguai, em troca de um suposto bem-estar econômico favorecido pelo governo Trump, permitiu a instalação de bases militares no território guarani.
Na Bolívia o senador de centro-direita Rodrigo Paz foi eleito presidente no segundo turno das eleições gerais de outubro de 2025 com 54,5% dos votos, contra o também direitista Jorge Quiroga. A vitória encerrou um ciclo de quase duas décadas de governos de esquerda sob o controle do Movimento ao Socialismo (MAS).

Essa derrota do campo popular foi planejada muitos anos antes da vitória de Paz, e teve um ator destacado. O uruguaio Luis Almagro, ex-secretário-geral da OEA, urdiu um plano de desestabilização contra Evo Morales. Ante a reação popular em favor do líder indígena e nos velhos moldes golpistas, uma ditadura de ocasião foi imposta. Uma advogada de duvidosa carreira e senadora, Jeanine Áñez, foi indicada como presidenta. Áñez protagonizou um dos processos mais violentos da história regional do século XXI, perseguindo e matando representantes dos povos originários e jornalistas.

O governo de Luis Arce, eleito depois do golpe, como herdeiro do Evo Morales, fracassou. Arce, acusado de trair Evo Morales e de cometer erros econômicos que dificultaram a vida de seus eleitores do campo popular, acabou destruindo a hegemonia do Movimento ao Socialismo. O terreno foi fértil para que o filho de uma família tradicional da política, conservador, jovem e alinhado com Washington, fosse eleito. O resultado é catastrófico. Bolívia vive em estado de insurreição permanente, com vítimas fatais, presos políticos e a entrega total da soberania aos Estados Unidos.

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No Chile o governo ruim e confuso do jovem Gabriel Boric, tanto na política interna como na externa, colocou um tapete azul para o retorno das ideias mais retrógradas associadas à ditadura de Augusto Pinochet e ao nazi-fascismo. Naturalmente, também alinhado ao mandato de Donald Trump. O candidato de extrema-direita José Antonio Kast, fundador Partido Republicano, venceu as últimas eleições presidenciais no Chile em 14 de dezembro de 2025. Kast venceu a candidata comunista Jeannette Jara com 58,3% dos votos válidos. Ela alcançou o 41,7% dos votos.

A campanha foi marcada por debates intensos voltados à segurança pública, crise migratória e reativação econômica, a agenda preferencial do Escudo das Américas. As mobilizações sociais voltaram e a repressão violenta está na agenda do dia.


Os outros trumpistas do Pacífico
No Peru, o paraíso das fraudes eleitorais e da derrubada de presidentes, teve 8 presidentes em 10 anos. Quando um candidato do campo popular assumiu a presidência, foi perseguido e preso injustamente. É o caso do presidente, Pedro Castillo Terrones. O Grupo de Trabalho sobre Detenção Arbitrária da ONU considerou que a prisão do ex-presidente, ocorrida em dezembro de 2022, foi arbitrária, violou normas internacionais de direitos humanos e recomendou sua libertação imediata, além do pagamento de indenização.
Atrás de toda essa instabilidade, houve um clã que não se deteve até recuperar o poder que já esteve nas mãos do seu falecido patriarca, o genocida Alberto Fujimori. Keiko Fujimori, muitas semanas depois do fechamento das urnas, supostamente venceu a eleição contra o candidato de Pedro Castillo, Roberto Sánchez. Keiko, estranhamente, ganhou por uma diferença miserável de votos obtidos nas urnas da Argentina e dos Estados Unidos.
Assim que assumiu, Keiko apresentou as medidas contra a possibilidade de mobilização popular contra seu governo, entregando todo o controle às Forças Armadas. O primeiro a visitar a quatro vezes derrotada Keiko foi Javier Milei, a marionete mais radical do Trump.

No Equador, o estadunidense Daniel Noboa, nascido em Miami, cuja família é suspeita de vínculos com o tráfico de drogas, através do porto que controla a Noboa Trading, uma importante empresa agroexportadora de bananas, fundada pelo pai do rapaz. Ele foi reeleito no segundo turno das eleições nacionais ocorridas em 13 de abril de 2025, entre denúncias de fraude da sua opositora, Luiza González, da Revolução Cidadã. O estadunidense teve 55,85 dos votos válidos e González, 44,15%, mas as evidências de diversas formas de lawfare e fraudes eleitorais são muito grandes.

Seguindo a rotina do hoje Escudo das Américas, o tema da segurança nacional foi, junto com a mídia e as redes sociais, o gatilho da vitória de Noboa. O engraçado é que o discurso de Noboa é a luta contra o narcotráfico. A narrativa serviu para que, assim que assumiu, decretasse o estado de exceção em sete províncias e em Quito, a capital equatoriana.

Na Colômbia, na derradeira derrota progressista da região, venceu um personagem que parece uma mistura de dois asseclas de Washington, Milei e Nayib Bukele; a aparente loucura do argentino e a fisionomia do salvadorenho. Abelardo de la Espriella, empresário, advogado, conservador com ideias fascistas, foi eleito presidente no segundo turno em uma disputa acirrada contra o candidato governista de esquerda, Iván Cepeda, que daria continuidade ao governo de Gustavo Petro. O Conselho Nacional Eleitoral, conhecidamente alinhado com Washington declarou a vitória do candidato que surgiu quase do nada. As denúncias de fraude, ameaças, violência política, centralizaram boa parte da discussão eleitoral.

De la Espriella já fez uma lista de países adversários e inimigos, outros com os quais romperá relações e, sobretudo, se alinhou de imediato com a entidade genocida de Israel.

A incógnita venezuelana
Um parágrafo à parte para a conjuntura venezuelana. As principais incógnitas com relação ao governo de Delcy Rodríguez na Venezuela orbitam em torno da real extensão da soberania nacional sob a tutela dos EUA, do futuro institucional do chavismo sem Nicolás Maduro, sequestrado por Trump, e do cronograma incerto para novas eleições presidenciais. O governo interino assumiu o comando após o sequestro do legítimo presidente, Nicolás Maduro, e de sua esposa e deputada Cilia Flores pelas forças estadunidenses em janeiro de 2026, numa invasão que matou mais de 100 pessoas.
Antes, os Estados Unidos, contando com a mídia hegemônica mundial e as redes sociais, acusaram Maduro de pertencer a um cartel de tráfico de drogas que a própria Justiça estadunidense verificou como já inexistente. A Venezuela, como Cuba, foi vítima de um bloqueio econômico genocida e do roubo de seus ativos no exterior, que a levaram ao padecimento do seu povo, parte do qual emigrou ao Brasil.
Desde então, o governo transita em uma linha tênue entre a sobrevivência política, reformas pragmáticas favoráveis ao mercado e pressões geopolíticas complexas. O Brasil teve uma política errática com relação à última eleição do presidente Maduro, exigindo atas do processo eleitoral e vetando a entrada do país irmão no BRICS, ação criticada por boa parte dos apoiadores do presidente Lula.


Agora é a vez do Brasil

As pesquisas eleitorais das últimas semanas consolidam a ideia de que o presidente Lula seria reeleito no segundo turno. Dispensa colocar aqui números que todos e todas conhecemos e são amplamente divulgados. No entanto, mostramos acima que o único possível parceiro ideológico do Brasil poderia ser, em tese, o menor país da América do Sul, o Uruguai. Já no que reconhecemos como Pátria Grande, o segundo país mais importante, o México, seria outro aliado, somado às perseguidas repúblicas de Cuba e Nicarágua. Também alguns pequenos países do Caribe, muito inexpressivos. O Brasil e o México estão sozinhos no enfrentamento contra o Escudo das Américas e a doutrina Donroe. Tanto Lula quanto Claudia Sheinbaum têm sido enfáticos na defesa da soberania, da autodeterminação dos povos e da necessidade de um mundo multilateral.

O verdadeiro adversário eleitoral de Lula é Trump. Flávio, o príncipe do fascismo bolsonarista, não é mais do que outro fantoche, despreparado, incapaz e manipulável pela família a serviço dos Estados Unidos. Essa falta de qualidades, seus crimes e trapaças e seu aspecto estúpido fazem com que boa parte da militância do campo progressista veja como impossível sua vitória contra o presidente Lula. E esse sentimento é muito ruim para a campanha lulista e para o progressismo em geral.

A militância e, sobretudo, os dirigentes do campo popular precisarão levar a sério o mapa apresentado pelo Escudo das Américas; as derrotas sequenciais do progressismo regional, a capacidade de intervenção dos Estados Unidos, nos planos econômico, propagandístico e de hegemonia renovada na região. Também perceber que uma pesquisa hoje é uma fotografia deste período e não um seguro de sucesso para daqui a outubro. Deverão considerar que há que derrotar a ditadura parlamentar que se empossou dos legislativos brasileiros, nacional e estaduais, e a correlação de forças não muito confortável na disputa pelos governos das unidades da federação. Terão que ficar de olho em setores do judiciário e das forças armadas.

Trump, com eleições em novembro, está disposto a tudo. Seu grupo político, encabeçado por um grupo de mafiosos, dentre os quais o já mencionado Marco Rubio, derrotado pela Rússia e pelo Irã em suas apostas bélicas de saque e dominação, precisa de fôlego interno e externo. O sócio sionista pede mais e mais. A situação interna, econômica e sanitária dos States, e o surgimento de um político de centro-esquerda democrata que concentra atenções ao futuro, como Zohran Mamdami, muçulmano e prefeito de Nova Iorque, obrigam o projeto de Trump a redobrar esforços por vitórias notáveis. Derrotar a esquerda brasileira seria uma vitória estrondosa. Para isso, qualquer sacrifício será pouco, incluso aceitar exigências, em outras circunstâncias descabidas, da gangue bolsonarista.

A militância e, por vezes, um certo chauvinismo da esquerda brasileira, embora reconheçam, com justiça, a incontestável liderança do Brasil como o país mais importante da nossa região, pecam por um ufanismo preocupante e não compreendem a verdadeira dimensão do que representariam, para a América Latina e o Caribe, uma vitória ou uma derrota de Lula nas presentes eleições. É hora de avaliar todas as conjunturas: as estaduais, as nacionais, as regionais e as mundiais. Tudo isso está diretamente relacionado à eleição brasileira. Qualquer descuido ou omissão pode fazer o continente regredir por muitas décadas. Se vencer o trumpismo brasileiro, estaremos às portas de novos anos de chumbo.

Raul Fitipaldi é jornalista, cofundador do Portal Desacato e da Cooperativa Comunicacional Sul.

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