‘Grande Israel’ como espaço vital estadunidense: nova anatomia do poder global

No programa “Informação sem Fronteiras”, do Portal Desacato, Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), apresentou uma hipótese que inverte a leitura tradicional das relações entre Washington e Tel Aviv. (White House / Flickr)
POR FRANCISCO FERNANDES LADEIRA
Desacato
A compreensão contemporânea das tensões no Oriente Médio exige, muitas vezes, o abandono de narrativas superficiais para que se possa observar a engrenagem profunda dos interesses globais. Nesse sentido, em recente análise realizada no programa “Informação sem Fronteiras”, do Portal Desacato, Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), apresentou uma hipótese que inverte a leitura tradicional das relações entre Washington e Tel Aviv.
Para Ualid, no atual contexto, o projeto da “Grande Israel” – a expansão territorial entre os rios Nilo e Eufrates – não deve ser lido apenas sob a ótica mística ou de um projeto sionista revisionista. Trata-se do “nome fantasia” para o estabelecimento do espaço vital estadunidense na Ásia Ocidental e na porção setentrional do continente africano.
Esta tese refuta a percepção comum de que o lobby sionista dita as regras na política externa estadunidense. Pelo contrário, a hierarquia de poder é desenhada com clareza: Israel está a serviço dos Estados Unidos. O cachorro sempre vai abanar o rabo, não o contrário.
Na prática, o Estado sionista funciona como uma unidade militar avançada, uma espécie de “porta-aviões terrestre” que permite ao Pentágono projetar força e controle sobre uma região vital. Sem essa base de operações, a capacidade de intervenção direta de Washington no coração do mundo árabe e islâmico estaria severamente comprometida, fragilizando a manutenção da hegemonia ocidental.
O motor dessa estratégia é existencial para o império estadunidense: sufocar a ascensão dos BRICS, com ênfase especial na China e na Rússia. Ao dominar as rotas comerciais e energéticas que atravessam o Oriente Médio, os Estados Unidos garantem o poder de controlar o fluxo do desenvolvimento econômico de seus principais rivais geopolíticos. O controle territorial e político da região serve como um bloqueio geográfico estratégico à integração euroasiática, dificultando projetos de infraestrutura global, como a Nova Rota da Seda chinesa, e limitando a expansão da influência russa.
Neste tabuleiro de xadrez geopolítico, o Irã surge como o obstáculo imediato e mais resiliente. De acordo com a análise de Ualid, a escalada de agressões e o cerco militar a Teerã não são eventos isolados, mas um ponto importante no empreendimento para consolidar esse espaço vital. O Irã representa hoje o eixo central de resistência que impede a hegemonia total do projeto estadunidense na região. Portanto, neutralizar a influência iraniana é um imperativo para que o redesenho das fronteiras do Oriente Médio ocorra sem oposições de peso.
Em suma, a “Grande Israel” é a roupagem ideológica de um empreendimento colonial muito mais amplo. Ao utilizar o sionismo como ferramenta de ocupação e “guerra por procuração”, os Estados Unidos buscam assegurar sua primazia no século XXI.
Admitir essa premissa significa entender que os conflitos no Levante não são disputas locais, mas danos colaterais de uma estratégia global de sobrevivência imperial, onde o solo alheio é utilizado para plantar as bandeiras da manutenção de uma potência única em um mundo que caminha, inevitavelmente, para a multipolaridade.
