Memória, memória e mais memória

Memória, memória e mais memória

Participamos de um evento em Porto Alegre em comemoração ao 50º aniversário do dia 24 de março de 1976. O evento foi organizado pelo Movimento Brasileiro por Justiça e Direitos Humanos, presidido por nosso querido companheiro Jair Krischke, em conjunto com a Associação de Imprensa do Rio Grande (ARI), que serviu de anfitriã. Alfredo Culleton, doutor em Filosofia e psicanalista, exilado no Brasil desde a ditadura, também participou.

Por Gustavo Veiga / De Porto Alegre / Desacato

Em memória de Eduardo Kimel, querido amigo e grande jornalista

Jair Krischke é um homem incansável. Caminha lentamente com sua bengala, mas suas iniciativas em prol da memória, sua busca incansável por justiça e seu compromisso inabalável com aqueles que ignoram a tragédia causada pelas ditaduras cívico-militares na América Latina são verdadeiramente notáveis. Desde 1979, Jair preside o Movimento Brasileiro por Justiça e Direitos Humanos, que salvou a vida de dezenas de exilados de países do Cone Sul, mesmo correndo o risco de perder a própria vida em diversas ocasiões.

Nos encontramos novamente, desta vez na sede da ARI, Associação de Imprensa do Rio Grande do Sul. Conosco estava Alfredo Culleton, psicanalista e doutor em Filosofia, argentino que se exilou no Brasil após o massacre de San Patricio, o assassinato de três padres e dois seminaristas palotinos no bairro de Belgrano, em 4 de julho de 1976. Ele vive aqui desde então. Conheceu as figuras religiosas porque frequentava a igreja da Rua Estomba; ele fazia parte de um grupo maior que compartilhava dessas opiniões.

Na reunião, discutimos as consequências do golpe que instaurou a ditadura genocida e, sobretudo, as continuidades que esse evento maldito ainda apresenta na Argentina. Os julgamentos de militares que se arrastam indefinidamente, os repressores que morrem sem confessar seus crimes, as mães e avós que nos deixam sem respostas sobre seus filhos e netos e, além disso, a política de negacionismo que avança, impulsionada pelo regime de Javier Milei.

Chegam notícias sobre uma nova rodada de indultos, semelhante à concedida por Carlos Menem, mas desta vez como uma provocação ainda maior devido à data de 24 de março. Eles seriam anunciados naquele dia, segundo o La Política Online. Sabemos — nós, da ARI, sabemos disso — e a maioria de nós é brasileira — que na nação governada por Lula, não houve justiça para as vítimas do Terrorismo de Estado que durou de 1964 a 1985. Houve denúncias, mas nenhum julgamento; houve avanços tímidos e retrocessos; e o máximo que se conseguiu foi a criação de uma Comissão da Verdade durante o governo de Dilma Rousseff.

Pode-se argumentar que a Argentina avançou muito mais em políticas de memória, verdade e justiça. Mas o que está acontecendo hoje nos leva a crer que tudo o que resta delas pode ruir devido à nostalgia que esse período evoca no regime de extrema-direita. Seus altos funcionários já deram sinais do que pensam. Defendem o que chamam de “justiça completa”, minimizam o roubo sistemático de bebês e silenciam sobre a tortura, os desaparecimentos e os voos da morte. São a continuação desse processo por outros meios. Os filhos da ditadura. Mauricio Macri estava à frente de todos quando, durante sua presidência, se referiu à “farsa dos direitos humanos”.

É crucial, diante do que está acontecendo no mundo de Trump, Netanyahu, Milei e outros neofascistas que governam países importantes, sair às ruas e gritar, repetidamente, “Nunca mais”. Dizer a todos nesta região, que foi definida como zona de paz, que a memória é o melhor antídoto para o esquecimento, como refletido no evento organizado pelo Movimento Justiça e Direitos Humanos, presidido por Jair Krischke.

Obrigado pelo espaço concedido à ARI. Obrigado a todos que se juntaram a nós. Obrigado à Daniela Sallet por conduzir o evento. Obrigado aos nossos camaradas desaparecidos, porque eles são a nossa força motriz para continuar, pelos seus sonhos não realizados que permanecem os nossos.

O planeta tornou-se irrespirável de Gaza à Venezuela e de Cuba ao Irã. O imperialismo mais criminoso da história, antes e depois das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, nos fala repetidamente sobre o poder nuclear que a República Islâmica estava construindo. Isso serviu de pretexto para os ataques conjuntos com Israel contra uma escola primária feminina, entre outros alvos militares. A hipocrisia política prospera em Wall Street. As democracias são cascas vazias nas mãos de criminosos de guerra como Trump e Netanyahu — tão criminosos quanto aqueles que perpetraram o genocídio na Argentina há cinquenta anos.

Gustavo Veiga é docente e jornalista argentino. Escreve em Página 12 e edita Derribando Muros em Buenos Aires

Na imagem, a sede da ARI junto com Jair Krischke e Alfredo Culleton / Reprodução

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