Meninas das Águas: mulheres, território e economia solidária transformam a vida em Urubici (SC)

Meninas das Águas: mulheres, território e economia solidária transformam a vida em Urubici (SC)

O Programa Direitos e Cidadania de A Noite Livre do Portal Desacato apresenta a experiência de um coletivo de mulheres da comunidade Águas Brancas que encontrou na tinturaria natural, no trabalho coletivo e na economia solidária um caminho para gerar renda e fortalecer a autonomia. (Imagem: dESACATO.INFO)

POR TALI FELD GLEISER, para Desacato.info.

Em Urubici, na Serra Catarinense, uma experiência protagonizada por mulheres mostra como a economia solidária pode nascer de necessidades concretas do território e se transformar em instrumento de autonomia, organização comunitária e valorização dos saberes locais.

Esse é o tema do programa Direitos e Cidadania, apresentado pela advogada de direitos humanos Erli Camargo, que recebeu Mariana Jabur, coordenadora de Serviço Social Acolhedora em Urubici, e Marluse de Oliveira, artesã e integrante do coletivo Meninas das Águas. A conversa revelou a trajetória de um grupo formado atualmente por sete mulheres da comunidade Águas Brancas.

A experiência começou a partir de uma aproximação da política de assistência social com a comunidade. Em vez de permanecer restrito aos equipamentos públicos, o trabalho passou a buscar as pessoas diretamente em seus territórios. A partir das rodas de conversa, oficinas e atividades comunitárias, surgiu uma demanda recorrente entre as mulheres: a necessidade de criar alternativas de trabalho e geração de renda sem que elas precisassem abandonar suas famílias e suas comunidades.

A distância entre Águas Brancas e o centro de Urubici é um dos obstáculos. A precariedade do transporte público dificulta o deslocamento cotidiano, especialmente para mulheres que são donas de casa, responsáveis pelo cuidado dos filhos ou familiares e que, em alguns casos, acompanham crianças com necessidades específicas.

Foi nesse contexto que a busca por novas possibilidades de formação encontrou a tinturaria natural e a impressão botânica.

Do quintal de casa para a produção artesanal

A oportunidade surgiu por meio de oficinas realizadas com Bárbara Melo, pesquisadora das plantas tintoriais da Serra Catarinense. As mulheres conheceram técnicas de tingimento natural e impressão botânica utilizando elementos encontrados no próprio território.

Casca de araucária, flores de marcela e folhas de goiaba-serrana, entre outras plantas, passaram a ser matéria-prima para a produção artesanal.

O que poderia parecer apenas uma técnica de artesanato ganhou outro significado. As mulheres descobriram que seus próprios quintais guardavam recursos capazes de produzir cores, texturas e estampas únicas — e que esses produtos poderiam carregar a identidade cultural e ambiental de Urubici.

Inicialmente, o grupo começou produzindo lenços, experimentando diferentes tecidos naturais, plantas e processos de tingimento. Aos poucos, porém, a experiência foi deixando de ser apenas uma iniciativa de geração de renda para se constituir como uma experiência de economia popular e solidária.

A aproximação com o Fórum de Economia Solidária foi decisiva nesse processo. Segundo Mariana, foi nesse espaço que as mulheres passaram a perceber que não estavam isoladas: faziam parte de um movimento mais amplo, formado por outros coletivos, associações e empreendimentos que também buscam construir alternativas econômicas baseadas na cooperação.

Sete mulheres, um coletivo e muitos aprendizados

O nome Meninas das Águas surgiu em referência à comunidade Águas Brancas. A denominação também expressa a identidade construída pelo próprio grupo: mulheres de diferentes idades que encontraram na convivência e na produção coletiva uma possibilidade de transformação.

Marluse relatou no programa que o começo não foi simples. Algumas mulheres desistiram, outras chegaram a questionar se o projeto realmente poderia dar certo. A persistência, porém, foi fundamental.

O grupo passou a compartilhar conhecimentos, dividir tarefas e incentivar aquelas que pensavam em abandonar a iniciativa. A experiência mostrou, na prática, um dos princípios fundamentais da economia solidária: a construção coletiva.

Não se trata apenas de produzir juntas. O processo envolve aprender a tomar decisões, organizar compras, estabelecer preços, pesquisar custos, divulgar os produtos e desenvolver novas habilidades.

Uma mulher contribui com a organização financeira; outra com as redes sociais; outras se dedicam à produção artesanal. Os conhecimentos individuais passam a compor uma capacidade coletiva.

Economia solidária também é política de cuidado

A experiência das Meninas das Águas evidencia ainda uma dimensão frequentemente invisibilizada nas discussões econômicas: o trabalho de cuidado.

São mulheres que, em muitos casos, não conseguem simplesmente sair de suas comunidades para procurar emprego. A possibilidade de desenvolver uma atividade produtiva no próprio território permite conciliar geração de renda, vida familiar e participação comunitária.

Os encontros também se transformam em espaços de convivência. Segundo Mariana, em alguns momentos os filhos acompanham as mães durante as atividades, fazendo com que o coletivo se torne também um espaço de cuidado comunitário.

Nesse sentido, a economia solidária não aparece apenas como alternativa ao mercado convencional. Ela cria relações sociais diferentes, nas quais produção, cooperação, cuidado e autonomia podem caminhar juntos.

O papel das políticas públicas

A trajetória das Meninas das Águas também demonstra a importância das políticas públicas para que iniciativas comunitárias possam se consolidar.

O grupo recebeu apoio da política de assistência social de Urubici e contou com iniciativas relacionadas à cultura, turismo e formação. O poder público também contribuiu com transporte para que as integrantes pudessem participar de encontros e atividades do Fórum de Economia Solidária em Lages.

Para Marluse, esse apoio foi construído aos poucos. Ela define o processo como um “trabalho de formiguinha”: uma ajuda aqui, outra ali, permitindo que o coletivo avance.

A experiência também recebeu apoio por meio de editais culturais. Depois de participar de uma formação, as próprias Meninas das Águas passaram a apresentar propostas e, posteriormente, conseguiram aprovação em edital para desenvolver oficinas e multiplicar os conhecimentos no território.

A mudança é significativa: as mulheres que inicialmente apareciam como beneficiárias de uma política pública passam progressivamente a ocupar o lugar de proponentes, produtoras e agentes de transformação.

Da timidez à ocupação do espaço público

Um dos resultados mais marcantes relatados durante o programa foi a transformação pessoal das integrantes.

No início, segundo os relatos, havia muita timidez. Participar de reuniões, falar em público e apresentar o próprio trabalho eram desafios.

A participação em fóruns, feiras e eventos ajudou a romper essa barreira.

Um momento considerado especialmente importante foi a participação em uma feira nacional de hortaliças. As integrantes precisaram apresentar seus produtos, conversar com visitantes e explicar as técnicas utilizadas.

Para Marluse, aquela experiência representou uma espécie de porta de entrada para uma nova etapa. A visibilidade do trabalho aumentou, as vendas tiveram impacto positivo e as mulheres perceberam que tinham conhecimento e capacidade para ocupar espaços públicos.

O processo de empoderamento, portanto, não se limita à possibilidade de vender um produto. Está também na conquista da palavra, da confiança e do reconhecimento.

Um produto com a identidade da Serra Catarinense

A tinturaria natural permite que cada peça carregue elementos do território. A utilização de plantas encontradas na região cria produtos que não são simplesmente artesanais, mas vinculados à paisagem e à cultura local.

A araucária, a vegetação da Serra e outras espécies utilizadas no processo passam a fazer parte das peças produzidas pelo coletivo.

Essa característica pode representar uma oportunidade importante para uma cidade como Urubici, marcada pelo turismo e pela valorização de sua paisagem natural.

A produção artesanal das Meninas das Águas conecta, assim, três dimensões: território, sustentabilidade e geração de renda.

Ao utilizar matérias-primas naturais e disponíveis na comunidade, o grupo também resgata conhecimentos tradicionais e desenvolve uma atividade de baixo impacto, associada à valorização da biodiversidade local.

Mulheres que multiplicam saberes

A trajetória do coletivo não termina na produção de lenços e outros objetos artesanais.

A aprovação de uma nova proposta permitiu que as próprias integrantes passassem a participar da multiplicação dos conhecimentos adquiridos. A intenção é desenvolver novas linhas de produtos, ampliar as possibilidades de comercialização e criar objetos voltados para diferentes públicos e necessidades.

Esse movimento altera a posição das mulheres dentro do projeto. Elas deixam de ser apenas participantes de oficinas para se tornarem multiplicadoras de conhecimento.

A experiência também está sendo sistematizada academicamente. Mariana prepara um capítulo sobre as Meninas das Águas para integrar uma publicação de caráter latino-americano, registrando a trajetória do coletivo e contribuindo para que essa experiência possa ser conhecida para além de Urubici.

Uma outra economia é possível

A história apresentada no Direitos e Cidadania mostra que a economia solidária pode começar de maneira simples: mulheres reunidas em uma comunidade, buscando alternativas para gerar renda e enfrentar dificuldades concretas.

Mas, quando encontram formação, políticas públicas, organização coletiva e espaços de participação, essas iniciativas podem adquirir uma dimensão muito maior.

As Meninas das Águas descobriram nas plantas de seus quintais uma possibilidade de produzir. No trabalho coletivo, encontraram uma forma de aprender. Nos fóruns e feiras, conquistaram voz. E nas políticas públicas, encontraram instrumentos para transformar uma iniciativa comunitária em um empreendimento com perspectivas de continuidade.

Ao final do programa, Mariana resumiu o espírito da experiência em uma frase: “É dar as mãos, mulheres.”

A mensagem sintetiza o sentido mais profundo da trajetória do coletivo. Em um território onde distância, falta de emprego e responsabilidades de cuidado poderiam limitar as possibilidades de muitas mulheres, a cooperação abriu um caminho.

Mais do que produzir peças artesanais, as Meninas das Águas estão produzindo autonomia, conhecimento, vínculos comunitários e novas possibilidades de futuro.

Como destacou Erli Camargo ao encerrar o programa, iniciativas desse tipo mostram a importância de construir políticas voltadas aos empreendimentos, cooperativas, associações e coletivos de economia popular e solidária.

Em Urubici, sete mulheres começaram a descobrir que seus próprios quintais podiam fornecer as cores de uma nova história. E essa história, construída coletivamente, ainda está apenas começando.

Assista ao programa completo no vídeo abaixo:

Tagged: ,