Nossa Senhora da Conceição Aparecida vive na terra ocupada

Nossa Senhora da Conceição Aparecida vive na terra ocupada

Por Luiza Soeiro, para Desacato.info

Em doze de outubro de 1717, três pescadores brasileiros lançaram suas redes no rio Paraíba do Sul, em São Paulo, e trouxeram à tona uma escultura incompleta. Nas margens de Guaratinguetá, um deles puxou do fundo do rio uma pequena imagem de madeira escura, marcada pelo tempo. Na segunda tentativa, veio o que faltava, a majestosa cabeça, a parte que devolveu sentido à figura. Diz a história que, naquele ano, o rio estava vazio, os peixes rareavam, e, depois desse encontro, as redes se encheram. As famílias voltaram a se alimentar, e a santa, parcialmente descabeçada, se tornou símbolo de fé e esperança para os que pouco tinham. O tempo passou, e a data se uniu à celebração das crianças, tornando Nossa Senhora Aparecida padroeira das infâncias brasileiras.

No mesmo 12 de outubro, trezentos e oito anos depois do milagroso achado, caminhei pela Ocupação Carlos Marighella, em Palhoça, e encontrei outros rostos que me causaram a mesma surpresa: as crianças que vivem ali. Entre hortas, cachorros, gatos e paredes improvisadas, elas corriam, riam e dividiam histórias. O chão de terra vira pista de corrida, os lençóis se transformam em castelo e a rua em campo de futebol.

É impossível não pensar no contraste entre o mito da abundância trazida pela santa e a incerteza que marca a vida dessas crianças. Mas também é impossível não perceber o mesmo fio de esperança que atravessa os dois relatos: a fé em um futuro possível e o milagre de manter a ocupação viva e presente.

O meio coletivo te provoca diferentes sensações: a esperança de manter aquilo pulsando, a curiosidade que nasce do encontro entre mundos distintos e, ao mesmo tempo, a revolta diante das políticas violentas que nos cercam.

Lá, eu conheci o João — ou Pivete, como todos o chamam. O apelido veio porque ele apronta muito. Me contou que, quando crescer, quer ser fotógrafo e cientista. E, com isso, tocou naquilo que tenho de mais precioso: a minha capacidade de fazer jornalismo.

Em horas de conversa meio picadas, interrompidas por uma aula de cerâmica e um almoço com gosto de comida de mãe, expliquei pra ele um pouco do que nós fazemos, como é ser alguém que passa a vida contando histórias. Ele me perguntou se isso viraliza na internet, ou se deixaria ele famoso. Respondi que não podia dar certeza, mas, se esse for um dos objetivos dele, tenho convicção de que pode acontecer.

Ele me trouxe a faísca que eu precisava. E, junto dele, todas as outras crianças que constroem aquele espaço: Maria Eduarda, bebê de um ano e oito meses que já demonstra ser uma oradora nata; Fernanda, adolescente que coordena o grupo de mães e reúne enfermeiras e psicólogas, prezando pela saúde de suas companheiras; Arthur, que me ensinou a fazer um apito de cerâmica e se revelou mestre na arte; e Yuri, que, mesmo tímido, observava tudo com atenção e quis saber sobre as câmeras usadas pelos nossos queridos Guilherme e Sofia.

É bonito perceber que, mesmo em meio à luta diária por um espaço no mundo, o desejo segue sendo o que move. Talvez seja esse o milagre de Aparecida, não o peixe que volta ao rio, mas a esperança que insiste em nascer.

O cotidiano da ocupação é atravessado por elas: pelas crianças que voltam da escola, que decidem o que querem comer, do que brincam, onde se escondem. E é reconfortante perceber que ser criança é ser criança — independentemente do endereço, do CEP ou do continente. A infância é o território onde tudo começa, e é dela que nasce a possibilidade de um país mais justo. Se depender da infância da Ocupação Marighella, o futuro há de ser mais limpo, mais cintilante e mais inteiro, como a imagem que um dia emergiu do rio.