O manual do estupr4d0r tem endereço digital: da “Academia do E5tupr0” à machosfera brasileira

Por Luiza Soeiro para Desacato.info
Eles levantavam as pálpebras das vítimas para confirmar que estavam sedadas. Então começavam. Em grupos de Telegram com nomes codificados como “Zzzzzzz”, homens compartilhavam orientações sobre quais substâncias utilizar, como fazer os efeitos das drogas desaparecerem rapidamente do organismo para dificultar a produção de provas e onde assistir a vídeos de outros homens abusando de suas companheiras. O que a imprensa convencionou chamar de “Academia do Estupro” não é um desvio, uma patologia individual, nem um caso isolado. É o ápice verificável de uma estrutura que a pesquisa acadêmica brasileira já vinha mapeando há anos: o patriarcado digital organizado em rede.
As investigações, deflagradas pela Polícia Federal a partir de informações repassadas pela Europol, revelaram o envolvimento de suspeitos em mais de 20 países. No Brasil, sete pessoas foram identificadas. Os investigados discutiam, em trocas de mensagens, o uso de medicamentos com propriedades sedativas, demonstrando conhecimento técnico sobre marcas comerciais e efeitos adversos. As condutas se enquadram nos crimes de estupro de vulnerável e divulgação de cena de estupro, com base na Lei 13.642/2018, que atribui à PF a investigação de crimes praticados pela internet envolvendo a propagação de conteúdo misógino. O mais perturbador nos dados não é a existência de usuários: é que muitos desses homens mantêm relações estáveis com as vítimas — casamentos de 10, 20 ou 30 anos, com filhos e rotinas compartilhadas.
Onde o ódio aprende a técnica
Para compreender como homens chegam a trocar manuais de dopagem como se fossem receitas de culinária, é preciso entender a infraestrutura que os produziu. A pesquisadora Gracila Vilaça e o professor Carlos d’Andréa, da UFMG, mapearam a chamada machosfera, versão brasileira do grupo estadunidense, manosphere, como uma rede sociotécnica multiplataforma que não apenas hospeda discursos de ódio, mas os fabrica coletivamente. O mecanismo central é a homossocialidade mediada pelo anonimato: em plataformas como Reddit, grupos de Telegram e fóruns chan, homens constroem identidades masculinas reacionárias em conjunto, num processo em que a transgressão funciona como moeda de pertencimento. Quanto mais radical o enunciado, maior o karma, maior o reconhecimento do grupo.
O design dessas plataformas não é neutro. A arquitetura de votação do Reddit, a ausência de identificação obrigatória, a pulverização em grupos fechados do Telegram — tudo isso compõe o que os pesquisadores chamam de affordances (trad: recursos) do ódio: características técnicas que encorajam determinadas práticas e dificultam outras, como a responsabilização. Não é coincidência que a “Academia do E5tupr0” tenha escolhido o Telegram.
A desumanização como método
O percurso que vai do léxico ao estupro não é metafórico. É um percurso discursivo verificável. As pesquisadoras Bruna Lima e Silva e Alessandra Chacham, da PUC Minas e da FIOCRUZ, documentaram em blogs e grupos de Telegram brasileiros o vocabulário que antecede e autoriza a violência: “merdalheres”, “diabolheres”, “conservadias”. Termos que associam mulheres a excremento, ao demônio, ao ridículo — independentemente de sua posição política. Nesse vocabulário, mesmo ministras do governo Bolsonaro eram atacadas simplesmente por serem mulheres. A misoginia, concluem as pesquisadoras, não está vinculada a uma postura ideológica feminina específica. Ela precede qualquer argumento. Seu objeto é a feminilidade como tal.
É exatamente essa desumanização prévia que torna possível o que a “Academia do E5tupr0” nomeia como “performance” ou “técnica”. Quando uma mulher já foi reduzida discursivamente a “merdalheira”, um ser sem subjetividade, sem direito ao corpo, sem estatuto moral, o estupro pode ser narrado como conquista entre pares, compartilhado com elogios, monetizado em vídeo.
A pílula que recruta
Esse vocabulário não surge espontaneamente. Ele é ensinado. A Red Pill, metáfora extraída do filme Matrix e ressignificada pela machosfera, funciona como ritual de iniciação e como tática de radicalização algorítmica. “Tomar a pílula vermelha” significa, nesse universo, “despertar” para a suposta perseguição sistemática aos homens: a “misandria” feminista, o “racismo reverso”, a “lavagem cerebral” da esquerda. Jovens em situação de frustração afetiva, financeira ou social são recrutados por essa narrativa, que os oferece um inimigo claro: a mulher. Uma comunidade de pertencimento e uma hierarquia interna baseada na capacidade de dominar e humilhar.
O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da última década: 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024. Tratar isso somente em números, parece uma curva estatística abstrata, mas podemos chamar de objetivo de uma escalada que começa em grupos fechados, passa pela normalização do ódio e chega, em seus casos extremos, ao assassinato. A mesma trajetória que os pesquisadores identificaram nos massacres de Realengo (2011) e Suzano (2019) — ambos perpetrados por frequentadores de fóruns misóginos — se reproduz, com variações, na “Academia do E5tupr0”.
Big Techs, omissão estrutural e o que vem depois
O TikTok, ao ser questionado pela CNN Brasil sobre conteúdos da machosfera viralizados na plataforma, afirmou que “os conteúdos que violam as Diretrizes da Comunidade foram removidos assim que identificados”. Acrescentou que “não permite discurso de ódio, comportamento violento e de ódio ou promoção de ideologias de ódio”. A resposta é o padrão: remoção reativa, moderação insuficiente, responsabilidade diluída. Enquanto isso, o site Motherless, plataforma de pornografia que reúne parte do material da “Academia do E5tupr0”, registrou apenas em fevereiro 62 milhões de acessos e 20 mil vídeos de abuso. Nenhuma empresa de tecnologia foi responsabilizada.
A falha das Big Techs é completamente política. A moderação reativa protege o modelo de negócio, engajamento máximo, conflito como combustível — enquanto transfere o custo da violência para os corpos das mulheres. Enquanto o Marco Civil da Internet e a Lei das Fake News permanecerem em disputa nos corredores do Congresso, e enquanto o letramento digital crítico não for política pública obrigatória nas escolas, especialmente para adolescentes homens em processo de formação de identidade, a infraestrutura do terrorismo misógino seguirá funcionando sem obstáculos.
A “Academia do E5tupr0” não é uma aberração. É o produto mais acabado de uma pedagogia do ódio que opera há décadas, e que agora tem escala industrial.
Nomeá-la com precisão é o primeiro ato político.
