Precisamos refletir por dever e prevenção

Precisamos refletir por dever e prevenção

Por Raul Fitipaldi
Portal Desacato

Refletir de forma ativa exige reconhecer que a situação continua delicada, que para 2026 não há nada assegurado

O ódio e a violência são convocantes. Da América do Norte até as Ilhas Malvinas convocam e pautam. Não tem nada de espontâneo nessa convocação que, especialmente afeta aos jovens, mas não só, atraindo para um mundo ilusório de vingança contra o outro e a outra. É um projeto de toma do poder e destruição do tecido social.

Muitos e muitas pensam que o Brasil já está imune a essas manifestações totalitárias, ou que aqui existem sim esses arroubos mas, são frágeis e foram derrotados nas urnas, então podem-se derrotar de novo e marginalizá-los da política. Até pode se pensar dessa maneira mas não se deve. É um erro que pode custar muito caro à nossa sempre incipiente democracia apenas representativa.

A simples observação das ações das oligarquias locais, seus veículos de imprensa e as armas digitais de comunicação; o reforço que os governos Trump, Milei e Bukele aportam à causa direitista e a lentidão em reagir aos projetos neofascistas que existe nos setores da sociedade que, há décadas, lutam por um outro mundo de justiça, igualdade, amor e tolerância, sugere um cenário turvo para nossa democracia.

O permanente, insaciável projeto golpista, neocolonial e escravista que está instalado já, em todas as capas sociais, exige de nós estudo, análise e proposta ativa para desmantelar ideias, estruturas contaminantes e essas tentativas que não ficaram extintas pela vitória do presidente Lula contra o nazifascista Bolsonaro. A tolerância exercida para ter governabilidade e gestionar a coisa pública numa órbita desenvolvimentista “para todos” (entre aspas, porque se você quer mudar a lógica do sistema brutal de dominação imperialista e capitalista, não pode e não deve governar para todos e sim para quem precisa; nada menos que a imensa maioria que produz a riqueza e em troca recebe a exclusão e a pobreza), a tolerância dizia, tem limites, precisa ter um marco que se imponha para ter, sim, uma sociedade civilizadamente tolerável. E o fascismo não é tolerável.

Por mencionar alguns vizinhos da Pátria Grande: El Salvador, Equador, Peru, Argentina têm modelos de governo intoleráveis. E o Brasil poderá ter experiência semelhante se pensarmos que só com o voto está resolvido o pleito. A judicialização da política continua viva no Brasil. O sentimento inaceitável de que há que anistiar protagonistas dos mais vis ataques à democracia anda pelos corredores legislativos com total impunidade. Refletir sobre a presença real do golpismo, dos partidos judiciais (embora mais moderados nestes dias). Nos debruçar sobre impunidade dos autores intelectuais das aventuras fascistas, e de alguns autores materiais. Reconhecer as experiências históricas das ditaduras e sobre a tentativa de reimplantação das mesmas é central agora, não depois do fascismo reassumir o controle de todos os poderes por estarmos desavisados; e até para que isso não aconteça como já aconteceu.

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Lembro quando colegas argentinos tinham muita dificuldade em compreender a possibilidade sequer de viver na situação que hoje vive o país irmão. Colocávamos para eles e elas a experiência bolsonarista e falávamos que era uma experiência incompleta. Dissemos que a experiência Bukele, vitaminada, era o possível futuro da Argentina, se um produto do sistema, um invento à medida, com Javier Milei triunfasse eleitoralmente. Porque atrás de fantoches como Milei e Bolsonaro está a máquina da oligarquia e do imperialismo sustentada no parlamento, em setores do poder judiciário e na mídia. Aquilo tudo que deu o golpe contra Dilma Rousseff, que derrocou muito depois Pedro Castillo, que conclui em outro golpe, desta vez com armas na rua para a instalação de uma impostora como Jeanine Áñez na Bolívia, a fraude para legitimar um oligarca neofascista como Daniel Noboa no Equador. Tudo numa saga que começou com uma tentativa de golpe contra Hugo Chávez em 2002 e que já passou por Honduras, Paraguai, Equador, Brasil e por governos ultraconsevadores em vários países como o Uruguai, Paraguai e no Chile, do falecido Sebastião Piñera, substituído, graças à mobilização social, por uma administração, lamentavelmente medrosa e frágil como a de Gabriel Boric.

Refletir de forma ativa exige reconhecer que a situação continua delicada, que para 2026 não há nada assegurado, que a mídia monopólica já intensificou sua campanha para desprestigiar o atual governo e os movimentos sociais, e que o imperialismo em fase decadente se tornou mais perigoso do que nunca para nossa região. Que o Brics é um processo ainda incipiente como para representar mudanças significativas para o presente imediato e que é necessário, como começou a fazer o governo, por fim na semana que passou e esperemos não tardiamente, pautar a discussão, até agora pautada pelos interesses dos oligarcas, do império e da mídia conservadora.

Tendo essa leitura, o Portal Desacato organiza mais um seminário de conhecimento e reflexão que discutirá “Golpes, Anistias e Lawfare no Brasil e na América Latina’, no próximo dia 18 de julho, em Florianópolis (cartaz abaixo). É uma sequência do debate iniciado em 2024 com o seminário sobre o fascismo no Brasil em Santa Catarina. Na presente o Portal defenderá o Plebiscito Popular pelo fim da escala 6 x 1 em favor da taxação dos ricaços do país.

É uma proposta de compromisso editorial, modesta, porém, com a responsabilidade de, à luz dos fatos no Brasil e na Pátria Grande, compreendermos, não só os acontecimentos, como também as formas de luta para que uma nova aventura fascista não nos pegue de surpresa. Que seja útil às lutas pela democracia, sua vigência, sua consolidação e seu alargamento no país para bem dos empobrecidos pelo sistema agressor capitalista.

*Raul Fitipaldi é jornalista e co-fundador do Portal Desacato e da Cooperativa Comunicacional Sul.

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