Venezuela: o mito do “Cartel de los Soles”, desmontando uma narrativa política

Venezuela: o mito do “Cartel de los Soles”, desmontando uma narrativa política

O Cartel dos Soles não existe; é mais uma construção política para continuar criminalizando o processo chavista na Venezuela do que uma realidade criminosa estruturada.

Nos círculos políticos antivenezuelanos, sobretudo sob liderança de Donald Trump, o termo “Cartel de los Soles” tem sido amplamente utilizado como justificativa para medidas duras contra o governo de Nicolás Maduro. A narrativa, reforçada por ações simbólicas como a recompensa de US$ 50 milhões pela captura do presidente venezuelano, parece fornecer um pretexto claro para intervenção militar e diplomática, tendo enviado já navios de guerra ao Caribe, enquanto milhares de venezuelanos formam filas para se alistarem em milícia convocada pelo presidente Maduro.

1. A construção política do “cartel” como ameaça externa

Reportagens recentes, como as do El País, indicam que Trump expôs uma ordem secreta ao Pentágono para combater cartéis de droga no exterior, classificando o “Cartel de los Soles” — supostamente liderado por Nicolás Maduro — como organização terrorista internacional. Essa estratégia oferece uma narrativa conveniente: um inimigo claro para justificar ações extremas, como operações militares ou doutrina antiterror.

2. Ausência de hierarquia e dinâmica típica de cartel

Ao contrário dos cartéis tradicionais — como os do México ou Colômbia — o “Cartel de los Soles” carece de estrutura narrativa: não há evidências de liderança clara, hierarquia operacional ou rede logística centralizada. É um termo genérico usado para descrever casos isolados de corrupção dentro da FANB (Força Armada Nacional Bolivariana), transformados em uma acusação coletiva e inflamada por mídia, opositores e governos externos.

3. Casos individuais sendo travestidos de organização

Testemunhos históricos apontam que o nome surgiu nos anos 1990 a partir das insígnias solares usadas por generais investigados por vínculos com o narcotráfico — como Ramón Guillén Dávila e Orlando Hernández Villegas. Com o tempo, essa narrativa foi amplificada, se transformando em um suposto cartel institucionalizado.

4. Guerra híbrida e narrativa de segurança nacional

O autor do ensaio “El mito del cartel de los soles” enfatiza o uso dessa narrativa em uma lógica de guerra híbrida. Assim como nos casos líbano-iraquianos com alegações de armas de destruição em massa, o termo aqui serve como justificativa para sanções, pressões militares e intervenção política em nome da segurança nacional.

5. Realidades diferentes no combate ao narcotráfico

Mesmo admitindo que Venezuela é rota de cocaína em direção aos Estados Unidos e Europa, os responsáveis não seriam um cartel organizado, mas indivíduos corruptos dentro das forças. A maioria das apreensões de drogas tem sido realizada por autoridades locais — inclusive membros da própria FANB, contrariando a ideia de um “cartel oficial” que opera impunemente.

6. A retórica de Trump e sua função geopolítica

A acusação de que Maduro lideraria um “cartel terrorista de Estado” encaixa-se na narrativa de subversão e perigo imposto ao hemisfério ocidental. O reforço bélico — como o envio de navios de guerra estadunidenses ao Caribe, conforme reportado por diversas fontes — revela a aplicação dessa narrativa como instrumento de dissuasão e poder geopolítico.

7. Interesse nos recursos naturais

Os Estados Unidos têm um claro interesse estratégico nos vastos recursos naturais da Venezuela, principalmente no petróleo — o maior em reservas no mundo —, por sua proximidade geográfica e compatibilidade com as refinarias estadunidenses. Historicamente, empresas como a Creole Petroleum (subsidiária da Standard Oil of New Jersey/Exxon) e a Lago Petroleum — ambas norte-americanas — dominaram a extração no Lago de Maracaibo até a nacionalização de 1976.

Mais recentemente, o governo dos EUA utiliza as sanções e licenças especiais para pressionar o governo de Maduro enquanto preserva canais de acesso à produção de petróleo; um exemplo disso é a permissão para que a Chevron operasse em certos campos, com cláusulas que excluem o repasse de royalties ao governo venezuelano.

Um caso emblemático é a empresa Citgo, controlada pela estatal venezuelana PDVSA: apesar das tensões políticas, ela continuou a operar nos Estados Unidos, servindo como importante fonte de receita para o país; os EUA chegaram a congelar seus pagamentos ao regime de Maduro como forma de aumentar a pressão.

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8. Interesse simbólico e prático na derrubada do chavismo

Além da dimensão material, existe também um interesse simbólico e político por parte de Trump e dos Estados Unidos em derrubar o governo chavista. No plano simbólico, trata-se de reafirmar a hegemonia estadunidense no hemisfério ocidental, retomando a lógica da Doutrina Monroe — “a América para os americanos” — em pleno século XXI e transmitindo ao mundo a mensagem de que nenhum projeto anti-imperialista, socialista ou autônomo será tolerado. Na prática, a mudança de regime serviria para restabelecer um governo alinhado aos interesses geopolíticos e econômicos de Washington, capaz de reabrir plenamente o setor energético venezuelano às multinacionais, garantir segurança no abastecimento de petróleo e minar o exemplo chavista como referência de soberania e resistência para outros países da região.

Esse padrão não é novo: ao longo do século XX e XXI, os Estados Unidos têm repetidamente atuado na América Latina, unindo razões estratégicas de controle de recursos com a necessidade simbólica de reafirmar sua supremacia. Três exemplos ilustram isso:

Guatemala (1954) – O governo de Jacobo Árbenz buscava implementar uma reforma agrária que afetava diretamente a United Fruit Company, empresa estadunidense que dominava terras e exportações de banana no país. A CIA organizou um golpe militar, não apenas para proteger os interesses econômicos, mas também para impedir que um país latino-americano desse o exemplo de uma política autônoma em plena Guerra Fria.

Chile (1973) – A derrubada de Salvador Allende, apoiada pelos EUA, teve um forte valor simbólico: conter o avanço de uma via democrática ao socialismo na América Latina. Além do alinhamento estratégico ao bloco soviético, Washington temia que o Chile demonstrasse que era possível combinar democracia política com independência econômica — o que poderia inspirar outros países da região.

Panamá (1989) – A invasão estadunidense para depor Manuel Noriega foi justificada oficialmente pela luta contra o narcotráfico, mas, na prática, reafirmou o controle de Washington sobre o estratégico Canal do Panamá. Simbolicamente, o episódio mostrou que os EUA estavam dispostos a recorrer à força militar direta para preservar sua hegemonia no “seu quintal”.

A Venezuela, portanto, não é apenas alvo por suas imensas reservas de petróleo, gás e minérios, mas também por aquilo que representa: um projeto político que insiste em resistir à ordem estadunidense, mesmo sob sanções e pressões internacionais. Assim, o interesse estadunidense contra o chavismo combina de maneira clara a geopolítica dos recursos e a disputa de narrativas simbólicas, repetindo um roteiro conhecido na história latino-americana, agora adicionando o argumento dos falsos cartéis da droga liderados, segundo Trump, pelo presidente Maduro.

Referências

CARNEGIE ENDOWMENT. Crude Complications: Venezuela, China and the United States. Washington, 2014. Disponível em: https://carnegieendowment.org/research/2014/10/crude-complications-venezuela-china-and-the-united-states.

CASADO, Fernando. El mito del cartel de los soles: narcotráfico, crimen organizado y política en Venezuela. Caracas: Fundación Editorial El perro y la rana, 2020.

EL PAÍS. Trump ordenó al Pentágono preparar un plan secreto contra los carteles. Madrid, 6 maio 2020. Disponível em: https://elpais.com/internacional/2020-05-06/trump-ordeno-al-pentagono-preparar-un-plan-secreto-contra-los-carteles.html.

PDVSA AD HOC. The complexities of the oil relationship between Venezuela and the U.S. 2020. Disponível em: https://pdvsa-adhoc.com/en/complexities-of-the-oil-relationship-between-venezuela-and-the-u-s/.

REUTERS. What are major pressure points in US-Venezuela relationship? Londres, 27 jan. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/what-are-major-pressure-points-us-venezuela-relationship-2025-01-27/.

THE WASHINGTON POST. How Citgo, a US oil company, became Venezuela’s lifeline. Washington, 29 jan. 2019. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/world/2019/01/29/how-citgo-us-oil-company-became-venezuelas-lifeline/.

WALL STREET JOURNAL. Trump Administration Greenlights Chevron to Resume Pumping Oil in Venezuela. Nova York, 26 jan. 2025. Disponível em: https://www.wsj.com/world/americas/trump-administration-greenlights-chevron-to-resume-pumping-oil-in-venezuela-0353262b.

WIKIPEDIA. Cartel de los Soles. Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Cartel_de_los_Soles.

WIKIPEDIA. Creole Petroleum Corporation. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Creole_Petroleum_Corporation.

WIKIPEDIA. Lago Petroleum Corporation. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Lago_Petroleum_Corporation.

Tali Feld Gleiser é cofundadora e diretora geral do Portal Desacato. Toda segunda-feira, apresenta o programa Do Rio ao Mar.

(+) Imagem em destaque: Tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Venezuela. Crédito: Criada por Inteligência Artificial

(++) Publicado originalmente em Desacato

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