Açoitamento público rouba a dignidade das mulheres no Afeganistão.

Talibã açoitou publicamente 225 pessoas somente em Cabul. Isso significa que, na capital, pelo menos uma pessoa era açoitada a cada dois dias. Dezenas de açoitamentos públicos ocorreram em outras províncias. (Imagem: Masoud Akbaris/ Wikimedia Commons)
JORNALISTA DA IPS*
CABUL – No rigoroso inverno afegão deste ano, uma mulher foi arrastada para uma praça pública e açoitada diante de todos por um crime que pode ou não ter cometido. De acordo com a decisão da Suprema Corte do Talibã, a mulher e o homem, ambos acusados de terem um caso extraconjugal, receberam 30 chicotadas cada um e uma pena de prisão suspensa de um ano.
A sentença foi proferida na presença de diversas autoridades locais e moradores de uma província cujo nome não foi divulgado para proteger a vítima.
Para Roya (um pseudônimo), uma mulher cuja vida já foi marcada por anos de angústia psicológica e emocional, as 30 chicotadas são apenas mais um golpe em seu passado já doloroso. Ela perdeu o marido há seis anos em um acidente de carro, ficando sozinha para criar seus cinco filhos.
Em meio à pobreza extrema, Roya trabalhou como diarista em terras alheias, mas com a chegada do inverno e a escassez de trabalho agrícola, migrou para a cidade, onde limpava casas, lavava roupas e costurava à mão golas bordadas para homens sob a luz fraca de uma lamparina à noite.
Naqeeba (nome fictício), uma vizinha que conhece Roya há anos, elogia seu grande senso de dignidade. O dinheiro que ela ganhava com esse trabalho era pouco, mas Roya nunca pediu ajuda a ninguém, diz ela.
Ela tentou cobrir suas despesas de vida da melhor maneira possível, e foi a necessidade constante de criar oportunidades para procurar trabalho por meio de frequentes deslocamentos diários que foi rotulada como relações conjugais impróprias, o que lhe trouxe punição em vez de recompensa.
“Ela se tornou vítima das circunstâncias, não uma criminosa”, diz Naqeeba, acrescentando: “a acusação foi falsa”.
Segundo Naqeeba, Roya nem sequer teve a chance de se defender. Ela estava a caminho de casa, perto de sua própria residência, quando foi presa “como se fosse uma criminosa perigosa”, colocada em um veículo e levada sem que ninguém soubesse para onde estava sendo levada ou do que era acusada.
Uma acusação injusta
“Não foi apenas um golpe. Foi um golpe que, pelo resto da vida, a impedirá de voltar a andar de cabeça erguida neste bairro”, explica Naqueeba, com a voz carregada de raiva e tristeza. Ela faz uma pausa e continua: “durante uma semana, ninguém sabia se ela estava viva ou o que tinha acontecido com ela, até que a notícia de seu açoitamento público se espalhou.”
Castigos corporais públicos repetidos, especialmente contra mulheres, não apenas instilaram medo na sociedade, mas também levantaram sérias questões sobre justiça, dignidade humana e o status da mulher no Afeganistão contemporâneo.
A história de Roya não é apenas a história de uma pessoa, mas reflete o sofrimento de milhares de mulheres que vivem em silêncio sob o peso da pobreza, da solidão e das restrições, e que são punidas simplesmente por serem mulheres.
O dia em que ela foi açoitada marcou o quarto castigo corporal público de mulheres naquela província em menos de dois meses, durante dezembro e janeiro, uma tendência que alimentou ondas de medo, ansiedade e silêncio, especialmente entre as mulheres da região.
Segundo uma reportagem do jornal Hasht e Subh, em 2025, o Talibã açoitou publicamente 225 pessoas somente em Cabul. Isso significa que, na capital, pelo menos uma pessoa era açoitada a cada dois dias. Dezenas de açoitamentos públicos ocorreram em outras províncias.
O relatório revela que as confissões eram frequentemente obtidas sob coação. Os acusados tinham negado o direito a assistência jurídica e a um julgamento justo. Os talibãs recorrem a castigos corporais e demonstrações públicas de força, violando os direitos humanos e causando graves consequências sociais e psicológicas às vítimas.
Em novembro de 2021, poucos meses após retornar ao poder em agosto daquele ano, o Talibã aboliu o Gabinete do Procurador-Geral e fechou a Associação Independente de Advogados do Afeganistão, bloqueando efetivamente o acesso à defesa jurídica.
Em 2025, Richard Bennett, Relator Especial das Nações Unidas, juntamente com outros especialistas da ONU sobre a situação dos direitos humanos no Afeganistão, condenou consistentemente o aumento do uso de açoites públicos e outras formas de punição corporal pelos talibãs, classificando-os como “desumanos e cruéis”.
Ao longo do ano, ele destacou o aumento alarmante dessas práticas, observando que elas frequentemente ocorrem sem garantias de devido processo legal ou padrões de julgamento justo.
“O Talibã deve pôr fim imediatamente à pena de morte e a todos os castigos corporais que constituem tortura ou outros tratamentos cruéis e desumanos, e respeitar os direitos e a dignidade de todos os detidos”, enfatizaram Bennett e outros especialistas.
Artigo publicado originalmente na IPS.
*A autora é uma jornalista afegã, formada com apoio finlandês antes da ascensão do Talibã ao poder. A IPS mantém sua identidade em anonimato por motivos de segurança.

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