‘Feminicídio é problema de toda a sociedade – não somente das mulheres’, afirma Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora.

‘Feminicídio é problema de toda a sociedade – não somente das mulheres’, afirma Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora.

Fórum 21 entrevista Ana Fontes, fundadora e presidente da Rede Mulher Empreendedora, que participará na próxima quarta-feira (04/03) do seminário “Brasil pela Vida das Meninas e Mulheres”, organizado pelo CDESS, o “Conselhão” da Presidência da República, para debater estratégias de combate à violência contra as mulheres no país, no âmbito do “Pacto Brasil entre os Três Poderes para o Enfrentamento do Feminicídio”. (Foto: Ana Fontes / Arquivo pessoal)

POR TATIANA CARLOTTI

O Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o “Conselhão” da Presidência da República, promove na próxima quarta-feira (04/03), o seminário “Brasil pela Vida das Meninas e Mulheres”, a partir das 10h, no Palácio do Planalto, em Brasília, com a participação do Presidente Lula.

O seminário reunirá especialistas e integrantes da sociedade civil para debater estratégias de enfrentamento da violência contra as mulheres, no escopo do Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio. A proposta anunciada pelo governo Lula objetiva combater e erradicar o feminicídio e as demais formas de violência contra as brasileiras, a partir de um pacto entre o poder público, o setor privado, as organizações da sociedade civil e os movimentos populares.

Ana Fontes integra o “Conselhão”, é fundadora da primeira e maior rede de apoio a mulheres empreendedoras no país, a Rede Mulher Empreendedora (RME), e será uma das palestrantes do evento. Em entrevista ao Fórum 21, ela explica que o diferencial do Pacto Brasil é justamente o engajamento das lideranças dos Três Poderes com a sociedade civil em torno de ações que, de fato, promovam e façam a diferença no combate à violência contra as mulheres no país.

Fontes explica o que é o feminicídio, como podemos enfrentá-lo e as demais violências contra as mulheres; discute o papel da independência financeira nesse processo e faz um apelo a todas e todos pelo pleno engajamento nesta luta; afinal, o feminicídio, que mata uma brasileira a cada seis horas, “não é um problema apenas das mulheres, mas de toda a sociedade”.

Acompanhe a entrevista:

Fórum 21 – Ana, o que podemos esperar do seminário “Brasil pela Vida das Meninas e Mulheres”, que ocorre na próxima quarta-feira, no Palácio do Planalto?

Ana Fontes – O seminário será um marco não somente para mostrar informações e dados, nós já sabemos quais são as questões relacionadas à violência contra as mulheres, mas especialmente para trazer, através dos especialistas, as ações possíveis de serem feitas tanto no curto ou médio prazos, quanto a longo prazo.

Precisamos ter em mente que o combate à violência contra as mulheres não é questão de uma única camada ou única solução. Isso exige uma solução sistêmica que envolva poder público, setor privado e sociedade civil organizada para realizarmos as mudanças necessárias.

O diferencial do seminário é a união do Executivo, Judiciário e Legislativo em torno do objetivo único de acabar com o feminicídio e com a violência contra as mulheres. Esse é o grande produto, com ações práticas e objetivas, para podermos caminhar para uma sociedade onde as mulheres não sofram mais violência.

Qual é sua avaliação sobre o “Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio”? Em que medida a iniciativa se diferencia de outras anteriores e como ela poderá, de fato, mudar a realidade de meninas e mulheres do país?

A primeira diferenciação do pacto entre os Três Poderes, como o próprio nome diz, é o fato de os Três Poderes da República se unirem com o único propósito de combater todas as formas de violência contra as mulheres.

O feminicídio é a ponta do iceberg em relação à violência, nós temos a violência psicológica, violência patrimonial, violência física, violência doméstica e uma série de outras camadas e questões.

O que diferencia este pacto das medidas anteriores é um pacto com comprometimento real, objetivo e efetivo dos três poderes para colocar o tema, de fato, em todas as suas dimensões.

Neste pacto, você tem o envolvimento do presidente da República, do presidente do STF, do presidente da Câmara e do Senado. Então, é importante e fundamental termos essa visão das altíssimas lideranças do país envolvidas, com propósito e de verdade, nas mudanças.

Cerimônia de assinatura do Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, em 4 de fevereiro, em Brasília. Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil.

O que não podemos perder de vista quando falamos em feminicídio? Como as pessoas podem atuar contra ele, no seu dia a dia?

No Brasil, a cada seis horas, uma mulher é assassinada. Ela é assinada pelo fato de ser mulher e, normalmente, pelo companheiro. O feminicídio é a etapa final de todo um processo.

Como é possível atuar? Olhando para o futuro, educando as crianças desde a primeira infância na escola sobre o combate à violência e a questão do consentimento em relação à vida das mulheres e meninas. Este é o primeiro trabalho para pensarmos o futuro.

O segundo é avaliar a conscientização atual, ou seja, das pessoas adultas no país, mostrando a questão do consentimento, levando conhecimento e despertando a consciência de que violência não é um problema das mulheres, mas sim um problema da sociedade. Esse é um ponto extremamente importante.

O feminicídio não é um problema das mulheres, mas da sociedade brasileira e, por isso, enquanto um problema da sociedade, todas as pessoas precisam se envolver. O setor privado deve se envolver; o setor público, como está fazendo agora, também.

Nós, como pessoas da sociedade civil, cidadãos e cidadãs, devemos nos envolver. Alertar, denunciar e não compactuar com situações de violência, sejam elas quais forem. No dia a dia, infelizmente, as pessoas ainda acham que a violência é um problema do outro, mas não é. O feminicídio e a violência contra a mulher são um problema da sociedade e, como sociedade, todos nós devemos agir.

É preciso denunciar se virmos assédio ou situação de violência. Se você vir uma mulher pedindo ajuda, ou mesmo que ela não peça, mas esteja em uma situação de violência, é preciso denunciar, porque só assim vamos mudar esse jogo.

Não compactuar com piadinhas, situações de assédio, porque a violência vem num crescente. É importante termos isso com clareza e, obviamente, não podemos deixar de lado os ambientes religiosos, independentemente de qual religião for. Líderes religiosos precisam ser um fator de proteção para que as mulheres não sejam vítimas de violência ou, quando forem, não sejam estimuladas a não denunciar seus agressores.

Nós temos canais de denúncia que vão desde as denúncias imediatas para a polícia militar até o disque 180 para denunciar alguma situação; e mesmo que não tenha certeza, na dúvida, denuncie.

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Você está à frente da Rede Mulher Empreendedora (RME) que trabalha a questão crucial da liberdade financeira. Como é este trabalho?

Há 16 anos eu fundei a Rede Mulher Empreendedora para apoiar as mulheres com geração de renda, ou seja, colocar dinheiro na mesa delas. Nós usamos uma metodologia que é educação, mentoria, conexão e acesso a recursos financeiros mediante microdoação.

Desde a fundação da Rede, eu entendi que a independência financeira é um fator absolutamente fundamental para que as mulheres não se submetam à violência dos companheiros. Ela é extremamente importante porque a violência contra as mulheres tem dois grandes fatores: a dependência emocional daquele companheiro e a dependência financeira.

Quando você tira da equação a dependência financeira, essa mulher consegue sair com menos dificuldade da situação de violência. Aí você fortalece a questão emocional, a autoconfiança para que ela consiga sair dessa situação. E mais uma vez, quando a gente fala de violência contra as mulheres, de independência financeira, isso também é uma questão social.

Nestes anos de trabalho na Rede Mulher Empreendedora, nós observamos que, quando essa mulher dá certo, ou seja, quando ela consegue receber um dinheiro que vem do seu próprio negócio ou obtém apoio, seja de políticas públicas, seja do setor privado ou de organizações sociais como a nossa, essa mulher investe esses ganhos na família, em melhorar a educação dos filhos, o bem-estar da família, a comunidade no entorno e, com isso, ela gera um impacto social mais amplo.

É por isso que é importante apoiarmos as mulheres com foco na independência financeira e na geração de renda. É o que a Rede Mulher Empreendedora vem fazendo há 16 anos em todo o país, com mais de 3 milhões de mulheres impactadas diretamente e quase 15 milhões de pessoas indiretamente, considerando as famílias e o entorno de onde elas estão.

Isso é extremamente importante porque mostra que existe uma forma, um mecanismo de conseguirmos fazer com que elas saiam da situação de violência.

Como é estar à frente dessa rede e o que essa experiência mudou na sua forma de compreender o seu (e o nosso) lugar no mundo?

Quando eu criei a Rede Mulher Empreendedora, minha intenção era ajudar outras mulheres que, como eu, estavam empreendendo. Hoje, na prática, a Rede Mulher Empreendedora é um movimento, um espaço de acolhimento, de troca e de bem-viver para as mulheres.

Nós olhamos, obviamente, para a questão da independência financeira, mas não só. Nós olhamos para essa mulher na totalidade, o que ela precisa, como precisa ser acolhida, o que está buscando, como ela está de saúde. A saúde mental é um tema que ganhou extrema importância nos últimos anos e as mulheres são as que mais respondem às nossas pesquisas mencionando questões de saúde mental.

É muito importante que a questão seja vista sob a ótica da economia do cuidado, que é uma economia, como o próprio nome diz, de cuidado com a família, os filhos, os idosos, os doentes que normalmente são atendidos por mulheres. O problema é que este cuidado, que é um trabalho, não é remunerado, nem reconhecido e tampouco compartilhado.

A minha visão mudou bastante conforme eu compreendi o quanto o impacto da economia do cuidado tem na saúde mental das mulheres, na estrutura financeira dessas mulheres e na ocupação delas em espaços de poder.

Para mudarmos esse jogo, além de criar uma política nacional de cuidado, como fez o governo Lula, é preciso colocá-la em prática, porque ela terá um efeito muito importante na vida das mulheres e também no combate à violência.

O trabalho que a gente faz na Rede Mulher Empreendedora é exatamente olhar para a mulher dessa forma mais sistêmica, estruturada e organizada, dando visibilidade ao que essas mulheres estão fazendo e pensando qual o trabalho que podemos fazer para contribuir com elas.

É o que estamos fazendo, mostrando caminhos e que é, sim, possível, enquanto sociedade civil organizada, com todas as partes, combater a violência contra as mulheres de forma organizada e estruturada.

O Pacto entre os Três Poderes contra o feminicídio e o seminário nacional nesta quarta feira em Brasília são fortes demonstrações nesse sentido.

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