Influenciador Felca escancara a urgência de medidas contra a exploração infantil online

Por Gabriel Cesar Brunório
O yotuber Felca (foto) usou seu alcance para denunciar comportamento suspeito do influenciador Hytalo Santos e reacendeu debate sobre omissão das plataformas, falhas legais e silêncio cultural diante de crimes contra crianças
Felca, conhecido pelo humor irreverente e pelas críticas afiadas à cultura digital, surpreendeu seu público com um vídeo que vai muito além do entretenimento. No conteúdo, publicado recentemente, ele investiga e denuncia práticas criminosas envolvendo o influenciador Hytalo Santos, que teria feito publicações e interações de cunho sexual com menores de idade.
A repercussão foi imediata: no dia seguinte à publicação, Hytalo Santos teve sua conta no Instagram desativada. A medida ocorreu após a exposição feita pelo criador de conteúdo, que apresentou capturas de tela, áudios e outros registros apontando comportamentos suspeitos.
Um trabalho de denúncia em um terreno perigoso
O vídeo de Felca não se limita à acusação direta. Ele explica como funcionam redes que exploram crianças e adolescentes no ambiente online, demonstrando que esses crimes se apoiam na negligência das plataformas, na falta de fiscalização e na normalização de certos comportamentos por figuras públicas.
Embora o caso específico tenha como foco um influenciador, o problema é muito maior. Um relatório da SaferNet de 2024, citado pela CNN, revelou que cerca de um milhão de brasileiros participam de grupos com pornografia infantil. Esses ambientes digitais — que se escondem tanto em redes sociais abertas quanto em canais fechados e na chamada “deep web” — funcionam de forma organizada, com divisão de tarefas, aliciamento e compartilhamento de conteúdo ilegal.
O Senado Federal, em estudos recentes, também apontou que o Brasil figura entre os países com maior volume de denúncias relacionadas à exploração sexual infantil na internet, reforçando a urgência de políticas públicas, campanhas de conscientização e ação coordenada entre autoridades e empresas de tecnologia.
Nós infelizmente ainda falhamos no combate à exploração infantil online
O caso exposto por Felca deixa evidente um ponto incômodo: mesmo quando crimes contra crianças e adolescentes acontecem de forma pública, documentada e denunciada por milhões de pessoas, a reação das plataformas costuma ser lenta, reativa e insuficiente. No caso de Hytalo Santos, a exclusão da conta do Instagram só veio após grande repercussão e pressão popular — e não como resultado de uma política preventiva ou de monitoramento efetivo.
Esse padrão não é exceção. Relatórios de organizações como a SaferNet e dados do Senado Federal mostram que as empresas de tecnologia, embora possuam recursos avançados de moderação e inteligência artificial, ainda falham em aplicar medidas consistentes e proativas para identificar e remover conteúdo de exploração infantil. Muitas vezes, o lucro e o engajamento são priorizados em detrimento da segurança.
A legislação que não acompanha o crime
O Código Penal brasileiro e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) preveem punições severas para crimes sexuais contra menores, inclusive no ambiente online. No entanto, a aplicação da lei enfrenta obstáculos técnicos e jurídicos: dificuldade de rastrear usuários, falta de cooperação internacional, morosidade judicial e, em alguns casos, a ausência de tipificação adequada para novas modalidades de crime digital.
Além disso, as mudanças tecnológicas acontecem em velocidade muito maior do que a atualização legislativa. Grupos criminosos se aproveitam disso para criar redes efêmeras, migrar entre plataformas e burlar sistemas de detecção.
Outro elemento que perpetua o problema é cultural. No Brasil, falar de sexualidade infantil ainda é tabu, o que dificulta tanto a prevenção quanto a denúncia. Muitas vítimas e famílias não reconhecem sinais de abuso online ou têm medo de procurar ajuda, especialmente quando o agressor é alguém com influência ou posição de poder.
Esse silêncio é funcional para os agressores — e a falta de campanhas públicas consistentes sobre segurança digital infantil só reforça a invisibilidade do tema.
Ao trazer essa pauta para milhões de espectadores, Felca cumpre um papel que deveria ser compartilhado por mais criadores de conteúdo, jornalistas e influenciadores: transformar o alcance digital em ferramenta de proteção e conscientização. Porém, não podemos depender apenas da coragem individual de quem decide expor esses casos.
É urgente que o Brasil fortaleça políticas públicas, amplie a cooperação entre autoridades, invista em educação digital e cobre das plataformas uma atuação muito mais firme e transparente. A responsabilidade é coletiva — mas a ação precisa ser imediata.

Gabriel Cesar Brunório é historiador, comunicador e pesquisador da área da Educação, formado em História pela UNILA e em Comunicação Visual pela ETEC, é atualmente mestrando em História na UEPG. Atua na produção de análises críticas sobre políticas educacionais e na área da comunicação política, com experiência em redes sociais e divulgação científica com ênfase nas políticas educacionais.
