Israel usa privação de água como arma de guerra em Gaza, diz MSF

Quase 90% da infraestrutura de água e saneamento foram destruídas em Gaza; crianças foram mortas enquanto buscavam água no território ocupado. (Imagem: MSF)
Correspondente IPS
Inter Press Service
GENEBRA – Israel tem usado o acesso à água como arma contra os palestinos, privando sistematicamente a população da Faixa de Gaza de água em uma campanha de punição coletiva, afirmou a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) em um novo relatório.
Claire San Filippo, responsável pela área de emergências da MSF, relatou que “as autoridades israelenses sabem que sem água a vida acaba, e mesmo assim destruíram deliberadamente e sistematicamente a infraestrutura hídrica de Gaza, ao mesmo tempo em que bloqueiam constantemente o acesso a fontes de água”.
Durante dois anos, até outubro de 2023, a Faixa de Gaza foi palco de uma ofensiva militar em larga escala, com a qual Israel respondeu ao ataque lançado pela milícia islâmica Hamas contra o sul de Israel em 7 de outubro de 2023, no qual mais de 1.100 pessoas morreram e 251 foram feitas reféns.
A resposta de Israel resultou na morte de mais de 72.000 palestinos, ferimentos em 172.000 e na destruição da maioria dos edifícios e serviços em Gaza, um território de 365 quilômetros quadrados com 2,2 milhões de habitantes, muitos dos quais ainda sobrevivem com ajuda internacional em acampamentos improvisados.
O exército israelense ainda ocupa mais da metade da Faixa de Gaza, controla e limita o acesso à ajuda humanitária e, apesar do cessar-fogo acordado em outubro passado, a violência continua, tendo custado a vida de centenas de palestinos.
Com sua infraestrutura destruída, a população de Gaza depende de ajuda externa para obter água, alimentos, itens de higiene, suprimentos médicos e combustível.
A MSF afirmou em seu relatório “Água como arma: a destruição e a privação de água e saneamento em Gaza por Israel” que “a privação deliberada de água aos palestinos é parte integrante do genocídio de Israel ”.
“O uso repetido da água como arma pelas autoridades israelenses não é um ato isolado, mas parte de um padrão recorrente, sistemático e cumulativo”, enfatiza o documento.
Essa utilização da água como arma “ocorre em paralelo ao assassinato direto de civis, à devastação de centros de saúde e à destruição de casas, provocando deslocamentos em massa. Em conjunto, constituem uma imposição deliberada de condições destrutivas e desumanas à população palestina de Gaza.”
San Filippo afirmou que “há palestinos que foram feridos e perderam a vida simplesmente por tentarem ter acesso a esse bem básico”.
O relatório inclui depoimentos como o de Hainan. “Meu neto estava em julho (de 2025) em Nuseirat – um campo de refugiados no meio da Faixa de Gaza – e foi buscar água potável. Ele estava na fila com outras crianças, e eles [as forças israelenses] o mataram. Ele tinha 10 anos. Ir buscar água não deveria ser perigoso”, afirmou.
“Nossas equipes documentaram como o exército israelense disparou contra caminhões-tanque claramente identificados e destruiu poços que eram vitais para dezenas de milhares de pessoas”, afirma o relatório da MSF.
O texto menciona que “incidentes violentos têm ocorrido frequentemente durante a distribuição de água à população, causando ferimentos a palestinos e trabalhadores humanitários, bem como danos aos equipamentos”.
“A falta de água, aliada a condições de vida deploráveis, superlotação extrema e um sistema de saúde em colapso, cria a tempestade perfeita para a propagação de doenças”, observou San Filippo.
O relatório afirma ainda que Israel destruiu ou danificou quase 90% da infraestrutura de água e saneamento de Gaza, incluindo usinas de dessalinização, poços, tubulações e esgotos, de acordo com as Nações Unidas, a União Europeia e o Banco Mundial.
A MSF afirma que “depois das autoridades locais, somos o maior produtor e um dos principais distribuidores de água potável em Gaza; no entanto, entre maio e novembro de 2025, uma em cada cinco distribuições de água que realizamos ficou sem água”.
Isso ocorreu porque “os caminhões não conseguiam transportar água suficiente para todas as pessoas que precisavam. As ordens de despejo do exército israelense impediram que nossas equipes acessassem áreas onde haviam fornecido água para centenas de milhares de pessoas”, lamenta o relatório.
Além disso, a entidade denuncia que as autoridades israelenses têm obstruído a entrada de materiais essenciais de água e saneamento em Gaza, a ponto de “um em cada três de nossos pedidos para trazer suprimentos críticos de água e saneamento ter sido rejeitado ou não ter sido respondido”.
O relatório especifica que “esses suprimentos incluem unidades de dessalinização de água, bombas, cloro e outros produtos químicos para tratamento de água, tanques, repelente de insetos e latrinas. Muitos dos itens que foram aprovados pelas autoridades israelenses foram posteriormente rejeitados na fronteira.”
MSF conclui instando as autoridades israelenses a restabelecerem imediatamente o abastecimento de água para a população de Gaza aos níveis necessários e afirma que “os aliados de Israel devem usar sua influência para pressioná-las a parar de obstruir o acesso humanitário”.

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