México: “Nosso clamor por justiça por nossos familiares desaparecidos precisa chegar ao mundo da mesma forma que os gols da Copa do Mundo”
A CIVICUS conversa sobre os esforços para aproveitar a Copa do Mundo da FIFA de 2026 para chamar atenção para a crise de desaparecimentos forçados no México com Ana Enamorado (na foto acima / reprodução), cidadã hondurenha que continua procurando seu filho desaparecido no México e fundadora da Rede Regional de Famílias Migrantes.
Os desaparecimentos forçados no México atingem de maneira particularmente severa as famílias migrantes, já que sua situação migratória precária agrava a falta de apoio do Estado. Famílias e grupos de busca estão aproveitando o fato de que a atenção internacional está voltada para a Copa do Mundo realizada no México para conscientizar sobre essa crise e exigir que o governo mexicano procure e encontre as pessoas desaparecidas.
Como seu filho Óscar desapareceu e o que se sabe sobre o caso?
Meu filho Óscar tinha 19 anos quando desapareceu. Ele deixou Honduras em 2008, fugindo da violência, e estava nos Estados Unidos quando alguns jovens o convidaram para ir ao México com a promessa de um emprego, um bom salário, acesso à educação e a possibilidade de me reencontrar. Tudo não passou de um engano.
Naquela época, o México vivia os anos da guerra às drogas declarada pelo presidente Felipe Calderón em 2006, quando os cartéis começaram a recrutar jovens à força para integrar suas fileiras. Óscar foi levado para El Carrizo, no município de San Sebastián del Oeste, no estado de Jalisco. É um lugar isolado, sem transporte público e marcado por extrema pobreza, o que torna muito difícil qualquer tentativa de fuga. Falei com ele pela última vez em 19 de janeiro de 2010. Desde então, nunca mais ouvi sua voz.
Pouco se sabe sobre seu caso, e o pouco que se sabe está marcado pela negligência. Em dezembro de 2009, poucas semanas antes de nossa última conversa, corpos carbonizados foram encontrados na mesma região, mas a investigação não levou a lugar algum. Em 2013, as autoridades forenses de Jalisco tentaram me entregar algumas cinzas sem qualquer exame de DNA que comprovasse que pertenciam ao meu filho. O instituto forense chegou a cremar cerca de 1.560 corpos não identificados em menos de uma década, prática que deixou inúmeras famílias sem qualquer possibilidade de conhecer a verdade.
O Estado mexicano só começou a procurar Óscar em 2020, dez anos depois de eu registrar seu desaparecimento. Até hoje continuo procurando por ele e exigindo justiça.
Quais obstáculos as famílias migrantes enfrentam na busca por seus familiares desaparecidos?
Um dos principais obstáculos é a indiferença das autoridades do país de origem, que, no meu caso, é Honduras. Nós, familiares, ficamos completamente sozinhos, sem ninguém para nos orientar. O consulado deveria ser a primeira autoridade a nos prestar assistência, e isso deveria ocorrer rapidamente, porque as primeiras horas são decisivas para encontrar uma pessoa com vida. Mas isso quase nunca acontece. Como consequência, registrar um boletim de desaparecimento e apresentar uma denúncia formal torna-se praticamente impossível. E, sem isso, não é possível abrir uma investigação nem acessar os direitos que nos cabem.
A isso se soma minha situação migratória. Embora eu viva no México há 14 anos, continuo sendo considerada uma “visitante por razões humanitárias” e, para manter esse status, preciso comprovar todos os anos que meu filho continua desaparecido. Ter de provar repetidamente minha tragédia apenas para poder permanecer no país é uma forma de revitimização.
Por isso, iniciei um processo judicial contra o Instituto Nacional de Migração para que meu status fosse alterado para o de residente permanente. No entanto, meu pedido continua sendo rejeitado, deixando-me em uma situação de vulnerabilidade no acesso aos meus direitos básicos.
Por que vocês decidiram protestar durante a Copa do Mundo?
Fomos às ruas das cidades-sede para mostrar o outro lado do México: a corrupção, a violência, a impunidade e a indiferença do Estado diante dos milhares de desaparecidos. Embora o governo mexicano queira projetar, por meio da Copa do Mundo, uma imagem de celebração e modernidade, não pode haver comemoração enquanto o país enfrenta uma crise humanitária provocada pelos desaparecimentos.
No México, há mais de 135 mil pessoas desaparecidas. Para se ter uma ideia da dimensão desse número, ele equivale a uma vez e meia a capacidade do Estádio Azteca, onde foram disputadas várias partidas desta Copa do Mundo, incluindo o jogo de abertura. Soma-se a isso uma grave crise forense: existem mais de 75 mil corpos sem identificação. São 75 mil pessoas que nunca voltaram para casa e cujas famílias continuam procurando respostas sobre seu paradeiro.
E esse número continua crescendo. Estimamos que, desde o início da Copa do Mundo, em 11 de junho, mais de 1.200 pessoas desapareceram. Em 30 de junho, três adolescentes de 14 e 15 anos desapareceram em Guadalajara, uma das cidades-sede, em plena luz do dia e em ruas tomadas por torcedores em clima de festa. As autoridades acreditam que o caso esteja relacionado ao recrutamento pelo crime organizado. Essa prática continua ocorrendo sem interrupção, e o governo não demonstra disposição para combatê-la nem para procurar os desaparecidos, especialmente quando são migrantes.
Como o governo mexicano respondeu aos protestos?
O Estado se incomoda com nossa presença nas ruas porque, sempre que protestamos, expomos a dura e dolorosa realidade que ele prefere esconder. Por isso, em vez de nos ouvir e procurar nossos familiares, respondeu com criminalização, desqualificação e repressão.
Na entrevista coletiva realizada na manhã da cerimônia de abertura da Copa do Mundo, a presidente Claudia Sheinbaum minimizou nossa manifestação, enquanto a secretária de Governo insinuou que alguém estaria financiando nossos protestos, anunciando uma investigação sobre a origem de nossos recursos. Trata-se de uma acusação tão dolorosa quanto absurda. Sempre buscamos nossos familiares com recursos próprios.
Depois veio a repressão. Tropas da polícia de choque isolaram e cercaram nosso grupo para impedir que chegássemos aos estádios. Em 30 de junho, na Calzada de Tlalpan, uma das principais avenidas da Cidade do México, agentes agrediram e detiveram integrantes do coletivo Hasta Encontrarte (“Até Encontrá-los”) simplesmente por carregarem imagens com os rostos de seus familiares desaparecidos. A violência física se soma ao sofrimento emocional e psicológico que já carregamos. Enquanto isso, forças federais e estaduais foram mobilizadas para garantir a segurança dos turistas — um empenho que jamais demonstraram para procurar nossos familiares.
O que vocês exigem do governo e dos organismos internacionais?
Nossa principal exigência é que o Estado mexicano faça da busca pelas pessoas desaparecidas uma prioridade real. Pedimos que a presidente Sheinbaum se reúna pessoalmente com as famílias e os coletivos para construir acordos concretos sobre busca, localização e prevenção. Queremos saber quantas pessoas foram encontradas com vida, que as investigações sejam conduzidas de maneira adequada e que haja profissionais capacitados e sensíveis para nos oferecer respostas concretas.
Mas essa crise ultrapassa as fronteiras do México, e a resposta também precisa ser internacional. O Comitê das Nações Unidas sobre Desaparecimentos Forçados e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos colocaram-se à disposição para colaborar. Pedimos ao governo mexicano que aceite essa ajuda. Essa cooperação é urgente, porque dezenas de milhares de pessoas de outras nacionalidades desapareceram no México, e sua busca exige a ativação de mecanismos internacionais. Muitas delas são mulheres vítimas de tráfico de pessoas e, na maioria dos casos, são levadas para fora do país, de modo que encontrá-las depende da cooperação entre diferentes governos.
Por fim, pedimos à comunidade internacional que não feche os olhos para o que está acontecendo e conclamamos os meios de comunicação a ampliar nossas reivindicações, para que nossas vozes cheguem ao mundo da mesma forma que os gols da Copa do Mundo.
Não descansaremos até encontrá-los. Eles foram levados com vida, e é com vida que os queremos de volta.
A CIVICUS entrevista uma ampla gama de ativistas, especialistas e lideranças da sociedade civil para reunir diferentes perspectivas sobre a ação da sociedade civil e temas da atualidade, publicadas na plataforma CIVICUS Lens. As opiniões expressas nas entrevistas são de responsabilidade dos entrevistados e não refletem necessariamente a posição da CIVICUS. A publicação não implica endosso aos entrevistados nem às organizações que representam.
A CIVICUS é uma aliança global de organizações da sociedade civil e ativistas dedicados a fortalecer a ação cidadã e a sociedade civil em todo o mundo.
Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service (IPS)

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