Por Vlado, por nós: cinquenta anos depois

Por Pedro Tierra*
Para Paulo Frateschi, militante.
A gigantesca Catedral da Sé, no centro do S. Paulo, ficou pequena para acolher o número de pessoas que atenderam ao chamado do Instituto Herzog, do Sindicato dos Jornalistas e da Comissão Arns. Mais que um convite, foi uma convocação para participar do Ato inter-religioso em memória dos 50 anos da morte do Jornalista Vladimir Herzog (foto reprodução), assassinado sob tortura em 25 de outubro de 1975, nas dependências do Doi-Codi do II Exército.
A Catedral vai sendo preenchida pela geração de perseguidos políticos, seus filhos, netos, parentes próximos, amigos, companheiros, jornalistas, advogados, ex exilados, sobreviventes das prisões da ditadura, militantes solidários com as causas da democracia, da liberdade de expressão, da defesa dos Diretos Humanos.
Cabelos brancos e aquele ar desajeitado de quem está pouco afeito a frequentar ambientes religiosos, templos. Esses suaves hereges vão se acomodando como podem nas bancadas da nave central e logo nas laterais. Os que chegam mais tarde e não encontram um lugar, permanecem mesmo de pé para acompanhar melhor os passos da cerimônia. Um grupo coral à esquerda do altar, entoa os acordes aqui e ali reconhecíveis da Missa Criolla de Ariel Ramirez.
O som não é bom, nem ruim. É inaudível… aparentemente, a acústica não estava entre as preocupações relevantes dos arquitetos celestiais. As colunas monstruosas e as abóbadas góticas dispersam o som e exigem a máxima concentração dos ouvintes para discernir o que está sendo cantado: “O bêbado e o equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc) e “Cálice” (Chico Buarque e Gilberto Gil).
Cinquenta anos depois, a manifestação busca reproduzir a histórica liturgia ecumênica, realizada em outubro de 1975, conduzida por D. Paulo Evaristo Arns, Cardeal de S. Paulo, pelo Pastor Presbiteriano James Wright e pelo Rabino Henry Sobel no sétimo dia após a morte de Vlado, como era conhecido o jornalista. O objetivo claro daquele ato religioso era desmentir diante do Brasil a versão de suicídio apresentada pelo Exército. E restabelecer a verdade dos fatos, diante de uma sociedade acossada pela violência e pelo medo.
A mobilização silenciosa de diferentes segmentos sociais ignorou as ameaças do aparato repressivo do regime e marcou uma virada na percepção dos brasileiros a respeito da brutalidade, da tortura, dos assassinatos, dos desaparecimentos forçados em que o regime mergulhara o país.
A sociedade sinalizou ao poder ditatorial um ponto de não retorno. Não era mais possível tolerar “Tanta mentira, / tanta força bruta”. Menos de três meses depois – 17 de janeiro de 1976 – a “tigrada”, para lembrar a expressão de Elio Gaspari, deu o sinal de que seguia viva e operante: o operário Manoel Fiel Filho foi assassinado nas mesmas dependências do Doi-Codi. E o anúncio de sua morte repisou a mesma causa: suicídio. Dessa vez o general Ednardo D’ávila Melo foi sumariamente demitido, por Geisel, do comando do II Exército.
Neste 25 de outubro de 2025, o Estado Democrático reconquistado pela sociedade brasileira se fez presente numa iniciativa da sociedade civil – sindicatos, movimentos sociais de defesa dos direitos humanos, Comissão Arns, Instituto Herzog, personalidades do campo do direito e da cultura – para afirmar seu compromisso com a liberdade de expressão e com a vigilância em defesa de uma democracia permanentemente ameaçada. E para pedir perdão.
Ouvimos atentos o discurso do Presidente da República, em exercício, Geraldo Alckmin reafirmando o compromisso com a democracia e os direitos humanos e, sobretudo, da Presidente do Superior Tribunal Militar, Ministra Maria Elizabeth Rocha com o pedido de perdão pelos erros e omissões cometidos pelo Estado brasileiro durante mais de 20 anos de ditadura impostos ao Brasil.
A cerimônia contou com a participação de centenas de familiares de mortos e desaparecidos políticos, de sobreviventes das prisões e do exílio impostos pelo regime militar para ouvir as palavras iniciais do Cardeal D. Odilo Scherer, do Rabino Rav Uri Lam e da Reverenda Anita Sue Wright.
Eles trouxeram para o presente de um país fragmentado, mais do que um eco da denúncia profética, corajosa de D. Paulo Evaristo Arns, Jaime Wright e Henry Sobel, proferida há cinquenta anos, a advertência contra a cultura autoritária, golpista, que assedia de todas as formas as instituições democráticas e se lança abertamente contra elas sempre que surja uma oportunidade, como ocorreu no 8 de janeiro de 2023.
O Rabino Rav Uri Lam, incluiu no seu pronunciamento a leitura de um dos “Poemas do enforcado”, escrito em outubro de 1975, no Presídio do Barro Branco e incluído no volume dos “Poemas do Povo da Noite”:
A ÚLTIMA NOITE
Sexta-feira. Noite. / Noite mais longa/ que os sete anos de André, / os nove anos de Ivo, / noite mais longa/ que a angústia de Clarice.
Na carne da sombra/ outras sombras se desenham/ buscando formas humanas/ (é necessário um disfarce mínimo) / contra o claro corte da luz.
Ninguém viu como chegaram. / Em torno, a treva abriga/ o passo de seus filhos.
As mãos sedentas de gritos, / de prisões, de chagas, / arrastam teu corpo / ao território da treva. / Mas não estás sozinho, / nunca mais estarás sozinho. / Teus irmãos te resgatam/ e adiam para amanhã/
o riso dos chacais.
De tuas mãos ainda brotará/ o último noticiário da noite. / Preso entre os dedos, / o endereço da morte.
(S. Paulo, Outubro de 1975).
Os nomes dos mortos e desaparecidos forçados fluem – horizontais e silenciosos – sobre as telas negras à direita e à esquerda do altar e se depositam uns sobre os outros como escombros de palavras e de vidas destroçadas ou talvez como como sementes para nomear os lutadores da geração seguinte. De todo modo, permanecem ali por alguns minutos, tempo suficiente para nos marcar como brasas vivas, a memória que o Estado ditatorial buscava apagar e nós cumprimos o dever de cultivar.
Outras imagens comovem. Os rostos de D. Paulo, Henry Sobel e Jaime Wright durante a cerimônia de outubro de 1975 evocam a tensão – e a coragem – que permearam aquele gesto de desafio aos generais. A sociedade brasileira recuperava ali o direito à verdade sobre as circunstâncias da morte dos seus filhos perseguidos pelo poder do estado: não se tratava de suicídio. Vladimir Herzog fora assassinado sob tortura numa dependência do Exército. Tratava-se de assassinato, portanto, e assim seria lavrado na sentença da História.
O nome de Audálio Dantas ressoa na fala emocionada da representante do Sindicato dos Jornalistas de S. Paulo. Audálio Dantas, então Presidente do Sindicato desempenhou o trabalho essencial de contestar mentira dos porões sobre o suicídio. E se incumbiu de mobilizar as redações e articular a resposta que resultou no ato ecumênico celebrado pelos três religiosos.
O testemunho do Dr. José Carlos Dias, decano dos defensores de Direitos Humanos, ressalta a indispensável ação dos advogados na defesa dos presos e perseguidos políticos, as tensões e os desafios que chegavam, naqueles anos, até a Comissão de Justiça e Paz, espaço de acolhimento para os acossados do Brasil e do Cone Sul, submetidos ao terror de Estado que anoitecia o continente.
Ivo Herzog conduz nosso olhar para a incontornável dimensão familiar e afetiva dessa tragédia que marcou uma virada na luta da sociedade brasileira contra o arbítrio do regime militar. Sem perder a percepção aguda do alcance do drama vivido por sua família sobre o desenlace da resistência e da luta da sociedade brasileira contra a ditadura, ele se dirigiu a uma plateia comovida.
Ao percorrer a saga de sua mãe em busca de verdade e justiça, desde o impacto da dor brutal pela perda de Vlado, naquele 25 de outubro; da recusa a cumprir um luto encoberto pela mentira flagrante de que seu pai teria atentado contra a própria vida; da decisão do rabino Sobel de não sepultá-lo no espaço destinado aos suicidas, um gesto que, por si, destruiu a versão sustentada pelo Exército; do Ato inter-religioso que expressou ao país, sete dias depois, a indignação e o inconformismo da sociedade brasileira contra “tanta mentira,/ tanta força bruta”, até a sentença do Juiz Márcio José de Moraes condenando o Estado brasileiro pelo assassinato. Corajosa. Necessária. Tardia.
Assim se move o Estado brasileiro.
Aqui estão presentes a Presidente da Comissão de Anistia, a Procuradora Federal Dra. Ana Maria de Oliveira e a Presidente da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos, Procuradora Eugênia Augusta Gonzaga. Duas mulheres que, neste momento, conduzem instrumentos indispensáveis para o Brasil por de pé uma Justiça de Transição. A sociedade brasileira se move, ainda que sob o peso histórico do patriarcado, se move.
A luta prossegue, por verdade, memória, justiça e reparação. A voz de Ivo Herzog falou em nome de centenas de familiares de lutadores da resistência à ditadura e em defesa da democracia.
Percebo aqui a oculta carpintaria trabalhada pelas mãos e pela sensibilidade de Rogério Sotilli, Paulo Vannuchi, da Comissão Arns, do Instituto Herzog, do Sindicato dos Jornalistas para manter acesa com este ato a memória indispensável à consolidação da democracia brasileira.
Uma palavra final para não perdermos a percepção dos riscos deste momento contra a tentativa de virada histórica num país desde sempre sitiado pelas sombras do autoritarismo. Dias depois do ato “Por Vlado”, e do discurso proferido pela Ministra Maria Elizabeth Rocha, Presidente do STM, a sociedade ouviu a reação dos porões insepultos pela boca do Brigadeiro Carlos Augusto Amaral Oliveira, Ministro do próprio STM.
Buscava, o Brigadeiro, com uma retórica típica dos oradores de turma da AFA – a AMAN da Força Aérea – desautorizar o pedido de perdão pelos erros e omissões do Estado brasileiro durante o período da ditadura expresso pela Ministra Presidente da Corte, na Catedral da Sé. Uma espécie de “não em nosso nome”, para deixar claro que segue viva nas instituições a ideologia autoritária que sustentou por mais de duas décadas uma ditadura civil-militar Brasil. Viva o suficiente para impedir o Estado democrático que a sucedeu de, passados tantos anos, concretizar uma Justiça de Transição digna desse nome.
Em suma: a frágil democracia brasileira segue dormindo com o inimigo.
Brasília, novembro de 2025.
*Pedro Tierra – Poeta. Militante da Resistência à ditadura de ontem e ao neofascismo contemporâneo. Ex-Presidente da Fundação Perseu Abramo.
