A casa caiu para Banco Master e bolsonaristas

O Caso Master não é apenas responsabilidade de um único banqueiro de negócios aventureiro. Ele teve colaboração de uma rede de pastores e políticos de direita.
O Caso Master envolve fortes indícios de fraude e não é apenas responsabilidade de um único banqueiro de negócios, mas sim resultado de uma estratégia arriscada, necessitada da colaboração e da exposição ao risco de diversas instituições. Inclui o banco do Distrito Federal e regimes de previdência estaduais e municipais, além de figuras religiosas, políticas e empresariais.
A atuação dos principais envolvidos, conforme detalhado em diversas reportagens jornalísticas, se dá junto com a estratégia de ascensão de Daniel Vorcaro.
A história da família começou a mudar quando o avô, Serafim Vorcaro, um imigrante italiano, resolveu dar um basta nas esbórnias do filho. O avô deixara o catolicismo e se convertera ao protestantismo. Tornou-se pastor e chegou a ter uma igreja. Impôs ao filho uma liderança espiritual rígida para dar um rumo novo na vida. Então, levou-o para a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, à época comandada pelo pastor Márcio Valadão.
A conversão religiosa funcionou e o filho passou a se dedicar ao ramo de corretagem de imóveis, onde foi bem-sucedido. Grato ao pastor Valadão pela virada em sua vida, o pai do futuro banqueiro de negócios passou a fazer significativas doações à Lagoinha. Esse suporte viabilizou a compra para a igreja, em 1997, de uma emissora de tevê, a Rede Super, pertencente a um ex-executivo da Rede Globo. Daniel Vorcaro se desinibiu ao ganhar um programa musical na tevê.
O filho do pastor, André Valadão, hoje o novo líder da igreja, dizia para os amigos sonhar em ter uma BMW. Comprou o carro à prestação e passou a ter dificuldades para quitar a dívida. Ao saber do aperto, o empresário do ramo imobiliário rasgou as promissórias e bancou o sonho. A felicidade foi tamanha a ponto desse pastor, futuro líder da igreja, ter anunciado para todos os fiéis: – “Deus fez um milagre!”.
O primeiro negócio tocado por Daniel Vorcaro foi na área de educação, quando ele tinha cerca de 19 anos. Seu pai comprou um curso de segundo grau e uma empresa de livros didáticos. Entregou-os à sua administração. Dado o fracasso do inexperiente, o curso foi vendido para uma rede de educação de Belo Horizonte.
Em 2004, aos 21 anos, Vorcaro passou a trabalhar nos negócios do pai: duas incorporadoras imobiliárias, além de uma administradora de aluguel de imóveis. Depois de empreitadas de tentativas e erros com sócios aventureiros, inclusive em um fundo de investimento em cemitérios, Daniel deu a grande virada na sua vida: tornou-se um banqueiro. O Banco Máxima, do paulistano Saul Sabbá, foi inabilitado pelo Banco Central, em 2016, por gestão fraudulenta e rombo de caixa.
Sabbá ofereceu o Máxima a Daniel Vorcaro, então com 33 anos. Ele já fazia negócios com o banco, quando o Máxima lidava com os fundos imobiliários, as incorporadoras e as imobiliárias dos Vorcaro.
De posse da opção de compra do Máxima, Daniel Vorcaro procurou os irmãos Conte e propôs sociedade. Como o banco estava praticamente quebrado, eles precisariam desembolsar apenas o suficiente para a instituição voltar a funcionar. Os irmãos toparam. Mas, antes, precisavam da autorização do Banco Central. O pedido foi feito em 2017. A autorização só saiu em 2019, na Era de Dominância Política dos evangélicos. Em 2021, Vorcaro trocou o nome do banco para Master.
Ao comprar aquele banco em falência ele se transformou em controlador do Banco Master. Autointitulado de “forasteiro” na Faria Lima, foi o responsável por uma ascensão meteórica no mercado de “bancos de negócios”.
Sua estratégia era baseada na captação de recursos de pessoas físicas por meio de CDBs. Pagava taxas muito acima da média do mercado e utilizava o apelo da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em contrapartida desses “passivos carésimos”, ele investiu em ativos ilíquidos e arriscados, como precatórios e participações em empresas em dificuldades. Estabeleceu sociedade com Nelson Tanure, focado em projetos de reestruturação de empresas. Atuaram conjuntamente com o controlador da Ambipar, Tercio Borlenghi Júnior, para inflar artificialmente ações da companhia.
A intervenção do Banco Central (BC) foi motivada não por um problema imediato de solvência, mas por fortes indícios de fraude. A crise de liquidez e credibilidade do Master se arrastava há meses.
O BC encaminhou informações à Polícia Federal (PF). Esta viu indícios por parte dos contratos de crédito consignado vendidos ao BRB terem sido forjados e registrados em cartório.
A PF o prendeu preventivamente sob acusação de fraude de R$ 12,2 bilhões contra o sistema financeiro. Ele foi detido no Aeroporto de Guarulhos tentando embarcar em um dos seus três jatos privados, em um suposto movimento de associação com capital árabe, cujos investigadores da PF consideraram uma “cortina de fumaça” para facilitar uma fuga do país.
O Banco Regional de Brasília (BRB) esteve no centro do caso após anunciar um polêmico acordo para comprar o Master em março, uma operação vetada pelo BC. O BRB vinha adquirindo carteiras de crédito do Master desde o ano passado, majoritariamente de crédito consignado.
Fornecia alívio financeiro e liquidez de curto prazo ao banco de Vorcaro. As investigações da PF (Operação Compliance Zero) e o Ministério Público Federal (MPF) analisam R$ 12,2 bilhões em operações potencialmente fraudulentas envolvendo as duas instituições. O MPF sustenta: o Master teria adquirido carteiras sem “realizar qualquer pagamento” ou comprovar a existência dos ativos, revendendo-os ao BRB.
Paulo Henrique Costa, presidente do BRB e líder das negociações com o Master, e o diretor financeiro, Dario Oswaldo Garcia Junior, foram afastados do cargo por 60 dias por determinação da Justiça Federal do Distrito Federal (DF).
Regimes próprios de previdência (RPPS) de 18 Estados e municípios, responsáveis pela aposentadoria de servidores, investiram quase R$ 1,9 bilhão em Letras Financeiras (LFs) emitidas pelo Banco Master. São títulos sem cobertura do FGC.
O Rioprevidência, fundo de pensão de servidores do Rio de Janeiro, mais investiu, com R$ 970 milhões em LFs. Relatórios do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) listam aplicações acima de R$ 2,6 bilhões.
O TCE-RJ determinou a suspensão de novos investimentos após enviar um “alerta expresso” aos gestores. O tribunal avaliou a entidade continuar realizando investimentos “sem a prudência exigida”. Isto “evidenciaria uma gestão possivelmente irresponsável dos recursos do RPPS”.
As relações entre o Rioprevidência e o Master estavam na mira da PF desde agosto. Além disso, Daniel Vorcaro já era conhecido pela PF, desde 2018, por suspeitas relacionadas a fundos de investimentos ofertados a RPPS.
O Banco Master tinha “aliados poderosos no governo do Distrito Federal e no Congresso”. Houve uma articulação no Congresso pelo PL e demais membros do “Centrão” para tentar reverter a atuação do regulador.
O Congresso chegou a reunir assinaturas para acabar com a independência do BC e demitir os diretores diretamente envolvidos na análise da venda do Master. Além disso, havia lobby de parlamentares do Centrão e do Master contra o projeto do BC de modernizar as regras de resolução de crises bancárias.
O ex-CEO do Master preso, Augusto Ferreira Lima, entrou para o sistema financeiro após a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), cuja parte financeira acabou ficando com ele. Edir Macedo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da TV Record, foi mencionado em uma negociação de compra do Banco Digimais por Maurício Quadrado (sócio do Master). Não avançou devido à resistência do BC.
Além de Vorcaro, outros executivos e sócios foram presos, incluindo Augusto Ferreira Lima (ex-CEO), Luiz Antônio Bull (diretor de riscos, compliance, RH, operações e tecnologia), Alberto Felix de Oliveira Neto (superintendente executivo de tesouraria) e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva (sócio). Maurício Quadrado, o terceiro sócio do Master, era considerado o artífice das grandes operações com empresas em dificuldades e é controlador da Trustee. Esta administrava um fundo ligado ao Master.
A bancarrota do Banco Master (liquidado extrajudicialmente pelo BC) foi a culminação de uma crise de liquidez e credibilidade, marcada pela expansão desenfreada, pela venda de ativos ilíquidos e pelos fortes indícios de fraude nas carteiras de crédito. Contava com a anuência de diretores do BRB e a exposição arriscada dos recursos de RPPS estaduais e municipais, enquanto aliados no Congresso tentavam proteger o banco. O resultado é a maior quebra de um banco no país em termos de impacto para o FGC: R$ 41 bilhões em depósitos.
O Caso Master não é apenas responsabilidade de um único banqueiro de negócios aventureiro. Ele teve colaboração de uma rede de pastores e políticos de direita, como governadores, senadores, deputados etc., além de dirigentes nomeados para o BRB e fundos de pensão estaduais e municipais.
A expressão “a casa caiu” significa algo ter saído do controle, um plano fracassou ou alguém ter sido pego em flagrante. A gíria é usada quando uma verdade é revelada ou uma situação ilegal é exposta, resultando em consequências negativas para a pessoa ou grupo envolvido.
No Caso Master, é exemplar como esse conluio entre pastores, políticos da extrema-direita bolsonarista e banqueiros de negócios da Faria Lima, dominante no Brasil de 2016 a 2022, está agora empenhada em seguidas tentativas de fugas (de si ou de seu capital) para o exterior.
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
