A razão da taxa de poupança baixa no Brasil
Explicar por qual razão o Brasil poupa pouco exige uma teoria sobre crescimento, investimento, distribuição de renda, produtividade, instituições financeiras e comportamento macroeconômico.
Por Fernando Nogueira da Costa
A explicação de a taxa de poupança ser baixa no Brasil por o consumo ser elevado é equivocada. Em todos os países, há um certo padrão de consumo e as variações do nível da poupança se dão em função do ritmo de crescimento da renda nacional, no caso brasileiro, baixo. A taxa de poupança na China é maior justamente por causa desse consumo agregado relativamente estável diante do ritmo do PIB.
É necessário conhecer como se estima o consumo no Sistema de Contas Nacionais (SCN). Se ele for residual pela diferença entre o PIB e a poupança, então, como se estima esta poupança?
Essa pergunta toca em um ponto onde frequentemente se confundem identidades contábeis e relações causais. A resposta convencional – “o Brasil poupa pouco porque consome demais” – se baseia no sentido contábil, mas é insuficiente como explicação causal.
Comecemos pela identidade fundamental das Contas Nacionais. Em uma economia fechada: Y=C+I+G, onde: (Y) = PIB (ou renda nacional); (C) = consumo das famílias; (I) = investimento; (G) = gasto do governo. A poupança nacional é definida como a parcela da renda não destinada ao consumo final.
Logo, S=Y-C-G. Substituindo a primeira identidade: S=I. Esta igualdade entre poupança e investimento é uma identidade contábil ex-post, não uma teoria sobre quem causa quem.
Na maioria dos países, o consumo agregado é relativamente estável como proporção da renda. As famílias procuram manter seu padrão de vida. Quando a renda cresce rapidamente, o consumo aumenta, mas normalmente aumenta menos diante o ritmo da renda. PIB ↑ > Consumo ↑ Então: Poupança ↑
Não porque as pessoas resolveram “apertar o cinto”, mas porque a renda cresceu mais rapidamente diante o consumo. Essa ideia aparece em diversas teorias do consumo, como as da Renda Permanente de Milton Friedman: as famílias tendem a suavizar o consumo ao longo do tempo.
A China ilustra bem esse mecanismo, embora existam outros fatores. Durante décadas, o PIB cresceu entre 8% e 10% ao ano e a renda das famílias cresceu rapidamente. O consumo aumentou até adquirir determinado padrão, mas o investimento continuou a cresceu ainda mais.
Como consequência, a parcela da renda destinada ao consumo ficou muito menor relativamente. Assim, a taxa de poupança nacional ultrapassou 40% do PIB em vários anos.
Isso não ocorreu simplesmente porque “os chineses necessitam de poupar”. Contribuíram também o crescimento extraordinário da renda, os lucros elevados das empresas, a elevada poupança corporativa (reservas para autofinanciamento), a forte poupança pública (superávit fiscal), o sistema previdenciário ainda não abrangente de toda a população, a carência de financiamento habitacional para toda a população em processo de urbanização.
Decorrentemente, houve a menor participação do consumo das famílias no PIB. Portanto, a alta poupança chinesa resulta de uma configuração estrutural, e não apenas de uma decisão individual de consumir menos.
O erro da causalidade simplificada é o argumento convencional aparecer assim: consumo elevado → pouca poupança → pouco investimento. Esse encadeamento é uma hipótese teórica. Mas pode existir outro igualmente plausível: baixo investimento → baixo crescimento da produtividade → baixo crescimento da renda → baixa poupança. Ou ainda: juros elevados → menor investimento → baixo crescimento → baixa renda → baixa poupança. As Contas Nacionais, sozinhas, não permitem decidir qual dessas histórias causais é a correta.
Um equívoco comum é achar o consumo ainda ser calculado pelos SCN como resíduo. Ele passou a ser medido diretamente. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística utiliza enorme quantidade de informações.
O consumo das famílias é estimado utilizando, entre outras fontes: Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF); Pesquisa Anual de Comércio; Pesquisa Anual de Serviços; produção industrial; vendas do varejo; produção agropecuária destinada ao mercado interno; dados tributários; registros administrativos; consumo de energia; pesquisas conjunturais. Portanto, o consumo é uma variável observada e estimada diretamente.
O investimento também não é residual. A Formação Bruta de Capital Fixo é estimada por meio de produção nacional de máquinas, importação de equipamentos, construção civil, obras públicas, edificações, ativos intelectuais, softwares e pesquisas empresariais. Além disso, mede-se a variação dos estoques.
A poupança é residual. Primeiro calcula-se o PIB, o consumo das famílias e o consumo do governo. Depois, usa-se a fórmula: S=Y-C-G. Portanto, a poupança não é pesquisada diretamente. Ela decorre da diferença entre renda disponível menos consumo final. Essa é justamente a razão pela qual a contabilidade nacional apresenta a poupança como uma variável residual.
Isso é importante porque mostra a poupança elevada resultar de renda elevada. Suponha no Ano 1: PIB = 100; Consumo = 80; Poupança = 20. Logo, Taxa de Poupança = 20%. Ano 2: PIB = 120; Consumo = 92; Poupança = 28. O consumo aumentou 15%. A renda aumentou 20%. Resultado: a taxa de poupança passou para cerca de 23%.
Ninguém precisou consumir menos. Apenas a renda cresceu mais rapidamente.
Outro aspecto frequentemente esquecido pelos economistas ortodoxos é a poupança nacional não pertencer apenas às famílias. Além da poupança das famílias, ela é composta por poupança das empresas (lucros retidos) e poupança pública, isto é, superávit primário.
Na China, por exemplo, a elevada taxa de poupança reflete fortemente os lucros corporativos reinvestidos, a poupança das empresas estatais, os superávits fiscais em vários períodos e a retenção de resultados.
Portanto, em qualquer lugar, reduzir a discussão à decisão das famílias de consumir mais ou menos é simplificador.
Na abordagem sistêmica da complexidade, a sequência causal mais abrangente seria: Inovação → Produtividade → Investimento → Crescimento da Renda → Maior Poupança ex-post → Maior Capacidade Futura de Investimento. Forma-se um circuito de reforço.
O contrário também pode ocorrer: Investimento baixo → Baixa produtividade → Renda cresce pouco → Pouca poupança → Investimento continua baixo. Nesse caso, a baixa poupança deixa de ser a causa inicial e passa a ser um elo de um círculo vicioso.
Portanto, minha observação é consistente com a contabilidade nacional e com uma interpretação keynesiana da causalidade econômica. A afirmação convencional de “o Brasil poupar pouco porque consome muito” é apenas a leitura da identidade contábil, pois a poupança é a parcela da renda não consumida. Entretanto, ela não identifica necessariamente a causa da baixa poupança.
As evidências internacionais sugerem países como a China exibirem elevadas taxas de poupança principalmente porque combinaram crescimento muito rápido da renda, forte investimento, elevada poupança empresarial e, em diversos períodos, poupança pública significativa. O consumo aumentou em termos absolutos, mas a renda cresceu ainda mais rapidamente.
Nas Contas Nacionais, o consumo das famílias e do governo é estimado diretamente a partir de um amplo conjunto de pesquisas e registros administrativos. A poupança, ao contrário, é obtida residualmente, como a diferença entre a renda disponível e o consumo final.
Por isso, afirmar “o país poupa pouco” só descreve um resultado contábil; explicar por qual razão ele poupa pouco exige uma teoria sobre crescimento, investimento, distribuição de renda, produtividade, instituições financeiras e comportamento macroeconômico. Justamente nesse ponto economistas ortodoxos e heterodoxos divergem: os primeiros tendem a ver a poupança como condicionante do investimento, enquanto os segundos enfatizam o investimento e o crescimento da renda serem os principais determinantes da poupança observada ex-post.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
